Pilotos "enferrujados" são nova dor de cabeça para setor aéreo

Com baixa demanda, pilotos não têm oportunidades suficientes de voar, e as restrições de viagem os impedem de chegar aos simuladores

Em 15 de setembro, um avião na Indonésia com 307 passageiros e 11 tripulantes com destino à cidade de Medan, norte do país, saiu momentaneamente da pista após o pouso, o que levou à abertura de uma investigação pelo regulador de segurança de transporte do país. A agência descobriu que o piloto havia voado menos de três horas nos 90 dias anteriores. O copiloto não voava desde 1º de fevereiro.

O incidente destaca um novo risco da pandemia de coronavírus: os pilotos não têm oportunidades suficientes de voar, porque companhias aéreas aterraram aviões e reduziram as operações devido à queda da demanda por viagens.

Em seu relatório preliminar, o Comitê Nacional de Segurança de Transporte da Indonésia disse que a pandemia dificultou a manutenção da proficiência dos pilotos e experiência de voo. A aeronave da Lion Air envolvida no incidente era um Airbus A330, um dos 10 da frota da operadora. Como a Lion Air não tem um simulador para o A330, os pilotos são treinados em instalações de terceiros na Indonésia, Malásia e Cingapura. As restrições de viagens devido à Covid-19 dificultaram o acesso.

Os voos regulares mantêm sua mente no cockpi. Ficar sem voar por tanto tempo traz alguma complacência. Adicione a isso a perda de renda, incerteza sobre emprego ou o futuro da companhia aérea, que causam mais estresse. Com o aumento dos níveis de estresse, a proficiência cai.

Mohan Ranganathan, consultor de segurança da aviação e ex-assessor da Diretoria Geral de Aviação Civil da Índia

A empresa de análise Cirium diz que quase 30% dos jatos comerciais globais permanecem aterrados - estacionados na região central da Austrália e no deserto de Mojave, nos Estados Unidos. Embora tenha havido recuperação das viagens domésticas em mercados maiores, como a China, o tráfego internacional está muito abaixo dos níveis pré-pandemia por causa de restrições nas fronteiras e quarentena obrigatória, um grande impedimento para os que viajam. Milhares de pilotos foram demitidos ou estão em licença, e os que ainda trabalham voam muito menos porque há pouca demanda.

O retorno do 737 Max da Boeing poderia acrescentar outra camada de complexidade. O jato foi aterrado globalmente em março de 2019 após dois acidentes, mas foi liberado no mês passado pela FAA dos EUA com um pacote extenso de ajustes.

“Para alguns operadores do Max, dependendo de onde estão e de seu status operacional, o aterramento pode causar outros desafios”, disse Shukor Yusof, fundador da consultoria de aviação Endau Analytics, na Malásia. “No entanto, isso é algo no qual a Boeing já trabalha, e eles têm equipes para ajudar clientes durante esse processo.”

A “ferrugem” do piloto também foi citada pela principal autoridade de segurança da aviação da Europa como possível fator para a queda de um avião da Pakistan International Airlines em Karachi em maio, que matou 97 das 99 pessoas a bordo. Ninguém ficou ferido no incidente com a Lion Air na pista.

“Os pilotos não pareciam ser tão fluentes na forma como estavam conduzindo os voos quanto deveriam”, disse em setembro o diretor executivo da Agência Europeia para a Segurança da Aviação, Patrick Ky, sobre o voo da PIA. “Se você não voa há três meses, seis meses, precisa ser treinado de alguma forma para poder voltar.”

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