Nicolás Maduro é visto algemado após pousar em um heliporto em Manhattan, escoltado por agentes federais fortemente armados enquanto se dirige a um carro blindado rumo a um tribunal federal em Manhattan, em 5 de janeiro de 2026, na cidade de Nova York (XNY/Star Max/GC Images/Getty Images)
Repórter
Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 14h35.
Última atualização em 5 de janeiro de 2026 às 14h54.
O presidente venezuelano deposto, Nicolás Maduro, se declarou inocente nesta segunda-feira, 5, das acusações de narcoterrorismo apresentadas por autoridades dos Estados Unidos após sua prisão em Caracas neste fim de semana. A fala de Maduro ocorreu durante um tribunal federal em Manhattan, em Nova York.
A operação, conduzida por forças especiais dos EUA, foi autorizada diretamente pelo presidente Donald Trump e gerou reações imediatas de governos e organizações internacionais.
"Sou inocente. Não sou culpado. Sou um homem decente", disse Maduro após ser questionado sobre sua declaração de culpa ou inocência.
Logo após o início da audiência, o juiz solicitou que Nicolás Maduro se identificasse formalmente perante a corte. De acordo com o jornal New York Times, ele respondeu em espanhol, afirmando ser o presidente da República da Venezuela e acrescentando que estava “sequestrado”.
Maduro usava uma camisa azul-marinho de manga curta sobre o uniforme laranja padrão de detentos e utilizava fones de ouvido, provavelmente para tradução simultânea. Sua esposa, Cilia Flores, acompanhava nas mesmas condições.
Em seguida, o juiz se dirigiu a Flores, também ré no processo, que se declarou inocente das acusações apresentadas. "Inocente, completamente inocente", afirmou a esposa de Maduro.
Em seguida, o juiz ordenou que Nicolás Maduro compareça ao tribunal para uma nova audiência no dia 17 de março.Segundo o Departamento de Justiça, Maduro, de 63 anos, responde por quatro acusações criminais em um tribunal federal de Nova York, entre elas, narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína e posse de armamentos de uso restrito. Durante a audiência, ele reafirmou inocência.
O ex-presidente é acusado de liderar uma rede transnacional de tráfico de drogas com conexões com cartéis mexicanos como Sinaloa e Los Zetas, além das guerrilhas colombianas das FARC e o grupo venezuelano Tren de Aragua. Maduro nega envolvimento e classifica as acusações como manobra imperialista, alegando interesses nos recursos petrolíferos da Venezuela.
A operação militar dos EUA em Caracas, considerada a mais contundente na América Latina desde a invasão do Panamá, em 1989, foi debatida no Conselho de Segurança da ONU nesta segunda-feira. A Rússia, a China e países aliados ao governo venezuelano condenaram a ação. O secretário-geral da ONU, António Guterres, expressou preocupação com a legalidade do ataque e seus impactos sobre a estabilidade da região.
Uma ordem emergencial publicada pelo governo venezuelano exige a prisão de pessoas suspeitas de apoiar o ataque. Enquanto isso, Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram levados sob custódia de um centro de detenção no Brooklyn até o tribunal, escoltados por agentes armados.
O caso remonta a investigações iniciadas em 2020, quando procuradores federais de Nova York denunciaram Maduro como parte de um suposto esquema de tráfico ligado a figuras do alto escalão venezuelano e a ex-integrantes das FARC. Uma acusação atualizada, revelada no sábado, incluiu novos elementos e o nome de Cilia Flores entre os reús, segundo informações da agência Reuters.
Os Estados Unidos consideram Maduro um governante ilegítimo desde sua reeleição em 2018, marcada por denúncias de irregularidades. A operação americana ocorre em meio a um novo discurso de Trump sobre os interesses energéticos da Casa Branca.
Durante conversa com jornalistas no Air Force One, Trump afirmou: “Estamos recuperando o que eles roubaram. Nós estamos no comando.” Ele indicou que empresas americanas do setor de energia devem retornar à Venezuela para reativar a infraestrutura petrolífera. As ações dessas companhias subiram na segunda-feira, 5, diante da perspectiva de acesso às maiores reservas de petróleo do mundo, estimadas em 303 bilhões de barris.
Apesar do impacto econômico, analistas informaram à Reuters que o setor venezuelano enfrenta declínio há décadas, com produção atual de cerca de 1,1 milhão de barris diários — um terço do volume dos anos 1970 — resultado de má gestão e sanções impostas por Washington.
A presidente interina Delcy Rodríguez, que inicialmente condenou a prisão de Maduro como “sequestro” e “apropriação colonial”, indicou neste domingo, 4 de janeiro, disposição para estabelecer cooperação com os EUA.
“Convidamos o governo dos EUA a trabalhar em conjunto em uma agenda de cooperação”, afirmou. “O presidente Donald Trump, nossos povos e nossa região merecem paz e diálogo, não guerra.”
Trump respondeu com ameaças de novas ações militares, caso o país não avance no combate ao narcotráfico nem reestruture seu setor energético. Ele também mencionou a Colômbia, o México e Cuba em tom crítico, sugerindo pressões.
Nos Estados Unidos, a operação causou divisão. Opositores democratas alegam não ter sido informados previamente, enquanto apoiadores de Trump classificaram a ação como eficaz. O secretário de Estado, Marco Rubio, deve prestar esclarecimentos ao Congresso ainda nesta segunda-feira.
A comunidade internacional, incluindo aliados dos Estados Unidos que não reconhecem a legitimidade do mandato de Maduro, pediu respeito ao direito internacional.