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Líder da oposição na Venezuela continua a luta na prisão

Leopoldo López recebeu uma sentença de quase 14 anos por incitar a violência “subliminarmente” durante os protestos contrários ao governo realizados em 2014

“É nos últimos dias de uma ditadura que ela se torna mais perigosa e utiliza, lamentavelmente, sua pior arma: o ódio”, diz Lilian Tintori, de 37 anos, esposa de Leopoldo López, o carismático líder do partido venezuelano de oposição Voluntad Popular.

Ela fala por telefone de Caracas, em uma segunda-feira recente. López, o marido dela, é internacionalmente reconhecido pelo governo eficiente e transparente de um dos distritos mais prósperos de Caracas de 2000 a 2008.

Ele defende que a Venezuela se submeta a uma transição pacífica para a democracia envolvendo uma saída legal -- e precoce -- do presidente Nicolás Maduro. Desde fevereiro de 2014, López definha na prisão militar Ramo Verde, nos arredores de Caracas.

Após um julgamento posteriormente classificado como uma “farsa” pelo principal promotor do caso, López recebeu uma sentença de quase 14 anos por incitar a violência “subliminarmente” durante os protestos contrários ao governo realizados em 2014 em todo o país. “Leopoldo é inocente”, insiste Tintori.

“Ele nunca incentivou a violência. Ele está sendo perseguido por pensar de forma diferente”. Na prisão Ramo Verde, López é mantido na solitária, diz ela, em uma torre separada na qual ele é o único prisioneiro, em uma cela de dois por três metros sem eletricidade, com apenas uma pequena janela alta para a entrada de luz. Os guardas o sujeitam rotineiramente ao que Tintori chama de “buscas cruéis e humilhantes”.

“Muitas vezes, no meio da noite, mais de 10 oficiais vestidos de preto e máscaras de esqui invadem a cela dele e realizam buscas de forma violenta, jogando livros, roupas, alimentos e fotos dos nossos filhos no chão”, diz Tintori. “Eles reviram o colchão, tiram os lençóis e destroem tudo. Eles já jogaram excremento humano e urina pela janela, o insultaram e o ameaçaram”. Embora tema pela vida de seu marido, López está forte, conta: “Ele não está sucumbindo, nunca sucumbirá”.

O governo venezuelano não respondeu aos pedidos de comentário para essas e outras acusações feitas por Tintori.

Se estivesse livre, López, 44, seria um candidato promissor à presidência em um país afundado em crise. Desde que substituiu o falecido Hugo Chávez, Maduro, um ex-motorista de ônibus que abandonou o Ensino Médio, presidiu um desastre em câmera lenta. (“Catastrófica” é a avaliação de 80 por cento dos venezuelanos à condução do país por Maduro, segundo uma pesquisa de opinião de março).

Em 2015, a economia, que agora apresenta o pior desempenho do planeta, teve uma contração de 10 por cento e deverá encolher mais 6 por cento neste ano. A inflação está batendo os 720 por cento, a moeda teve uma desvalorização de 93 por cento e a Venezuela, que depende do petróleo para suprir 96 por cento das receitas estatais, provavelmente deixará de pagar sua dívida externa em breve. A escassez de alimentos resulta em filas de horas de duração, muitas vezes violentas.

Cortes no abastecimento de água e eletricidade são comuns e as usinas de energia operam com menos de 30 por cento da capacidade. Os medicamentos desapareceram, em grande parte, até mesmo nos hospitais. (A Assembleia Nacional declarou uma crise de saúde humanitária nacional e a Human Rights Watch comparou a situação à de uma zona de guerra).

Assassinatos e sequestros se proliferaram. Saques em supermercados são generalizados. O país está à beira da anarquia, da fome e da revolta.

O governo Maduro tem feito pouco mais que lidar com esses desastre nacional em andamento com uma retórica dura, atribuindo os males do país à “elite de extrema-direita” da Venezuela, a “ianques” conspiradores do “império” ultrajado e à “burguesia parasitária”, tudo isso enquanto prende e assedia membros da oposição. Mais de sete em cada 10 venezuelanos, atualmente, querem que Maduro deixe a presidência antes do fim do mandato, em 2019.

Claramente percebido como uma ameaça, López foi proibido pelas autoridades carcerárias de se corresponder por escrito com qualquer um, mesmo com seus filhos. As visitas de Tintori ao seu marido, em Ramo Verde, têm servido como o único meio pelo qual ele continua transmitindo sua mensagem, às vezes explicada em artigos de opinião.

“Eu escrevo o que ele diz nos braços e nas pernas. Quando saio da prisão, tiro fotos do que escrevi e as mando a jornalistas” e a outros membros da oposição democrática.

As autoridades carcerárias tentam humilhá-la também, às vezes forçando-a a esperar por horas antes das visitas e deixando-a nua para efetuar buscas -- obrigando-a a abrir as pernas para inspeção, um tratamento que impuseram também à sua sogra idosa --, mesmo diante dos filhos. “Da última vez eu me recusei a tirar a roupa”, diz Tintori.

“Eu perguntei às outras mulheres que estavam em visita se alguma vez tiveram de tirar a roupa para as buscas e disseram que não. Quando eu vejo Leopoldo, sempre há um oficial militar de pé por perto escutando o que conversamos”.

Ela acredita também que as autoridades gravaram suas visitas conjugais, que acontecem em um “quarto sujo, com baratas, em um colchão imundo. Mas as baratas e a sujeira nos dão força; elas nos lembram da situação que o nosso país está passando -- sujeira, falta de direitos, falta de comida, falta de luz, falta de água. Elas nos lembram de que nosso esforço é por todo o país”. Todos esses maus tratos vêm, afirma, “por ordem direta de Nicolás Maduro”.

Uma ex-campeão de kitesurf e personalidade da televisão, Tintori se transformou na porta-voz de seu marido desde o começo de seu encarceramento e tem travado uma campanha internacional para libertá-lo. Ela se reuniu, entre outros, com o papa Francisco, com o vice-presidente dos EUA, Joseph Biden, e com presidentes da Espanha e de países latino-americanos. Apesar de ter guarda-costas, ela acredita que também está em perigo.

“Estou sendo perseguida pelo governo, há carros sem placas nos seguindo agora mesmo. À noite, carros nos seguem sem acender os faróis”. O governo a espia em sua casa, usando drones que sobrevoam o lado externo, monitorando até mesmo a janela do banheiro e o quarto de seus filhos. “O regime está tentando intimidar não apenas Leopoldo, mas nós enquanto família, mas eles não nos vencerão”, diz ela.

“A cada dia eu me levanto com a esperança de que Leopoldo possa ser libertado”, acrescenta ela. “Após as eleições de 6 de dezembro” -- por meio das quais a oposição assumiu o controle da Assembleia Nacional pela primeira vez em quase duas décadas -- “há muita esperança. Todo o país quer mudança. Leopoldo provou ao mundo e à Venezuela que na Venezuela não temos um Estado de Direito, nem justiça, nem democracia. Ele desmascarou o regime e mostrou que temos um regime que reprime aqueles que pensam de forma diferente”.

Ele atingiu, diz ela, “a completa unidade que pediu há dois anos ao exigir a saída de Nicolás Maduro e de [seu] sistema fracassado de governo”.

Tintori está contando com a aprovação, no final de março, de uma emenda constitucional e uma lei de anistia que libertariam todos os prisioneiros políticos da Venezuela, incluindo seu marido. Ela confirma para mim que, quando for libertado, López pretende disputar a presidência. “Nicolás Maduro terá que renunciar”, diz ela.

“A meu ver, já o fez. Ele deixou de governar o país em qualquer sentido real. Ele deixou de respeitar nossos direitos humanos. Ele deixou de respeitar a verdade e a justiça. Ele deixará o cargo pacífica e democraticamente. Não tenho dúvidas. Leopoldo quer trocar o ódio pelo amor, a injustiça pela justiça, a retaliação pelo perdão”. (Maduro pode empregar várias manobras legais, contudo, para acabar com a emenda e com a lei de anistia).

Desde os últimos dias de Chávez, comenta-se que membros de alta patente do exército governam o país dos bastidores. As acusações de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro (que incluem uma investigação da U.S. Drug Enforcement Administration, o órgão antidrogas dos EUA, centrada no ex- presidente da Assembleia Nacional) certamente transforma a permanência no poder em uma questão de liberdade, para que não enfrentem a prisão na Venezuela ou nos EUA, se extraditados. Embora uma solução seja a promessa de imunidade judicial, Tintori a descarta.

“A lei de anistia se aplicará apenas a prisioneiros políticos, não àqueles que cometeram crimes. Aqueles que cometeram crimes terão que entender que o país decidiu mudar”.

Ela, então, se torna sombria. “Algo poderia acontecer a mim, a Leopoldo, a minha família. Se a minha voz se calar, peço que você se lembre das minhas palavras nessa entrevista. Eu não descansarei, nem por um minuto, enquanto não alcançarmos a democracia na Venezuela”.

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