(Win McNamee / Equipe/Getty Images)
Repórter
Publicado em 16 de outubro de 2026 às 06h01.
Os Estados Unidos realizam em 4 de novembro as eleições de meio de mandato de 2026, as “midterms”, que renovam as 435 cadeiras da Câmara e 35 vagas do Senado. O modelo estatístico do jornal The Economist atribui aos republicanos 4% de chance de manter a Câmara, cenário que, segundo o professor Carlos Gustavo Poggio, da faculdade americana Berea College, explica a postura defensiva do partido.
Os Estados Unidos já estão a menos de 20 dias para as eleições de meio de mandato, as chamadas 'midterms'. Todas as 435 cadeiras da Casa dos Representantes (o equivalente a uma Câmara de Deputados) e 35 dos 100 assentos do Senado estarão na disputa, que serve como um 'referendo' sobre os primeiros dois anos de mandato do presidente Donald Trump.
A nova configuração entre democratas e republicanos no Legislativo também vai definir, entre outros fatores, a governabilidade do chefe de Estado até 2028. Atualmente, os Republicanos, partido governista, têm a maioria das duas casas do Congresso, o que garante relativa facilidade para aprovação das agendas da Casa Branca.
Mas a 'maré' de Trump pode mudar a partir de 4 de novembro, de acordo com várias pesquisas eleitorais. O modelo estatístico do jornal The Economist atribui aos Republicanos apenas 4% de probabilidade de manter a maioria na Câmara. No mercado de previsões da Polymarket, a chance de uma vitória total democrata (controlando a Câmara e o Senado simultaneamente) está avaliada em 63%.
A expectativa vai em linha com a baixa popularidade de Trump, que não chega a 40% em muitas pesquisas, em meio a uma insatisfação popular ligada, principalmente, à disparada do preço dos combustíveis nos Estados Unidos, uma consequência da guerra com o Irã, ainda em andamento.
Segundo o professor Carlos Gustavo Poggio, professor de Ciência Política do Berea College, nos EUA, o temor dos republicanos faz o partido investir em corridas locais consideradas seguras 'numa postura mais defensiva do que ofensiva'.
Estatisticamente, o presidente dos Estados Unidos sofre do que é chamado de 'maldição das midterms', fenômeno que faz o líder perder pelo menos uma das casas do Congresso na eleição de meio de mandato. Neste ano, há elementos que justificam esse cenário?
As chances de os republicanos perderem o controle da Câmara são altas, e até o Senado virou motivo de preocupação. O partido já está colocando dinheiro em disputas consideradas seguras, numa postura mais defensiva do que ofensiva: em vez de ampliar a maioria, tenta salvar o que tem. O cenário lembra muito 2006: guerra desgastante, insatisfação econômica e presidente impopular. Não é uma 'maldição'; é o eleitor cobrando a conta do governo.
Neste ano, tivemos uma conferência republicana inédita para as 'midterms', em que Trump chegou a prometer dinheiro para eleitores que escolhessem os republicanos. Há um desespero do partido em manter as duas casas do Congresso?
Sim, há desespero. E não é apenas pelo risco de perder votações: perder o Congresso significa correr o risco de ser investigado. Uma maioria democrata poderá tirar da gaveta denúncias de corrupção e conflitos de interesse para as quais a maioria republicana preferiu olhar para o outro lado. A promessa de dinheiro revela o tamanho da preocupação: o partido está tentando preservar não apenas sua agenda, mas o escudo político que protege o governo.
A guerra entre Estados Unidos e Irã não tem um final desenhado ainda e segue em um impasse. Enquanto isso, preços de combustíveis se mantêm em alta, o que afeta diretamente o bolso dos americanos. Qual o peso desses fatores para o eleitor americano nessas 'midterms'?
Pesam muito. São alguns dos principais fatores desta eleição porque atingem diretamente o bolso do eleitor. A guerra pressiona os combustíveis; as tarifas encarecem produtos; e a condução econômica do governo agrava o problema. Trump prometeu prosperidade e redução de preços, mas precisa defender um cenário de custos elevados. O eleitor pode não acompanhar cada decisão de Washington, mas sabe quanto está pagando para abastecer o carro e fazer supermercado.
Você já mencionou que figuras como Trump gostam de centralizar o poder no Executivo. Pensando na governabilidade dos próximos dois anos, qual seria o impacto prático de um Congresso dominado pela oposição para o atual governo?
O impacto seria enorme. Trump consegue fazer muito do que faz porque o Congresso abriu mão de exercer seu papel de fiscalização e controle. Uma maioria de oposição poderia investigar o governo, disputar o orçamento e bloquear iniciativas legislativas; no Senado, também poderia barrar nomeações. Ele continuaria presidente, mas deixaria de contar com um Congresso que trata a lealdade ao Executivo como mais importante do que suas próprias responsabilidades constitucionais.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante evento político nos Estados Unidos. (Kent NISHIMURA / AFP)
Recentemente, você avaliou que algumas propostas e falas na corrida eleitoral americana são mais 'bravatas lançadas no calor do momento' do que políticas estruturadas. Esse tipo de retórica mais extremada ainda funciona para mobilizar a base ou já começa a afastar o eleitor moderado e independente, que costuma decidir eleições apertadas?
A barganha mudou. Antes, parte do eleitorado dizia: 'Não gosto dos tuítes, mas gosto da economia'. A disposição de tolerar o comportamento de Trump dependia da percepção de que ele entregava resultados. Hoje, com preços elevados e uma guerra desgastante, essa justificativa perdeu força. Para quem votou nele por razões econômicas, e não por devoção pessoal, a sensação pode ser a de que desapareceram os resultados e sobraram apenas os tuítes malcriados.
As eleições de meio de mandato são frequentemente vistas como um termômetro. O que o resultado das urnas daqui a 20 dias vai nos dizer sobre o cenário político para a próxima corrida à Casa Branca?
Uma derrota republicana não significará que os americanos passaram a gostar dos democratas. O partido também é impopular e não poderá chegar a 2028 oferecendo apenas a rejeição a Trump como programa de governo. As 'midterms' vão reorganizar forças nos dois partidos, mas não resolverão a sucessão presidencial. Sem um favorito consolidado, a tendência é uma disputa aguerrida para definir quem consegue transformar a insatisfação com o presente em uma proposta convincente de futuro.
Muito se fala sobre interferência externa e novas tecnologias. Como você avalia o impacto da Inteligência Artificial e das campanhas massivas de desinformação na decisão do eleitor americano nestas semanas que antecedem a votação?
Há influência, mas, curiosamente, a inteligência artificial ainda não parece ter se tornado um fator central nesta eleição americana. Isso não significa ausência de desinformação: teorias da conspiração e campanhas de manipulação já fazem parte do ambiente político. A IA amplia esses instrumentos, mas seria precipitado tratá-la como a grande explicação para o comportamento eleitoral. Até aqui, guerra, custo de vida e avaliação do governo parecem pesar muito mais.
As 'midterms' acontecem em um momento delicado nas relações entre Brasil e Estados Unidos. Podemos esperar algum impacto para o Brasil por causa de uma nova configuração do legislativo americano?
Não creio que causa nenhuma mudança significativa, porque muitas das questões, como por exemplo, tarifas, estão nas mãos da Suprema Corte para decidir. Enquanto o secretário do Estado for Marco Rubio, não creio que a configuração do legislativo deve influenciar muito nas relações com o Brasil.
As “midterms” renovarão todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 dos 100 assentos do Senado. A votação ocorre em 4 de novembro, mas o voto antecipado já começou na maioria dos estados.
O modelo estatístico do jornal The Economist atribui aos republicanos apenas 4% de probabilidade de conservar a maioria na Câmara. No mercado de previsões Polymarket, a chance de os democratas conquistarem simultaneamente a Câmara e o Senado está em 63%.
Segundo Carlos Gustavo Poggio, professor de Ciência Política do Berea College, os republicanos temem perder votações e o escudo político que protege o governo Donald Trump de investigações. O partido já destina recursos a disputas consideradas seguras, em uma postura defensiva para preservar a atual maioria.
A guerra, a alta dos combustíveis, as tarifas e o encarecimento de produtos pesam diretamente no bolso dos americanos, afirma Carlos Gustavo Poggio. Segundo o professor, Donald Trump prometeu prosperidade e preços menores, mas agora precisa defender um cenário de custos elevados.
Uma maioria democrata poderia investigar o governo, disputar o orçamento e bloquear iniciativas legislativas, segundo Carlos Gustavo Poggio. No Senado, a oposição também poderia barrar nomeações feitas por Donald Trump.
A inteligência artificial ainda não parece ser um fator central nesta eleição, avalia Carlos Gustavo Poggio, embora possa ampliar campanhas de manipulação e teorias da conspiração. Para o professor, guerra, custo de vida e avaliação do governo têm peso maior no comportamento do eleitor.