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Crise no Irã: entenda o que está acontecendo, e por que isso importa

Protestos intensos geraram repressão violenta. Mortes, isolamento do país e pressões de Trump moldam uma das maiores crises da atualidade

Um manifestante anti-regime iraniano queima uma foto de Ali Khamenei, Líder Supremo do Irã, durante os protestos (Piero Cruciatti/AFP)

Um manifestante anti-regime iraniano queima uma foto de Ali Khamenei, Líder Supremo do Irã, durante os protestos (Piero Cruciatti/AFP)

Publicado em 13 de janeiro de 2026 às 16h23.

Última atualização em 13 de janeiro de 2026 às 17h04.

Liderado pela organização clerical dos Aiatolás, o Irã, de religião muçulmana, não é um estranho a revoltas intensas e repressões igualmente violentas. Iranianos tomaram as ruas diversas vezes na história para protestar contra o intenso autoritarismo prevalente, de uma forma ou outra, no país.

Mas, dessa vez, esses protestos atingiram níveis potencialmente capazes de superar até mesmo a Revolução Iraniana que derrubou o governo monárquico do Xá Mohammad Reza Pahlavi, em 1979 – um sangrento período com mais de 2.700 mortes.

Como na época, as autoridades hoje retaliaram com tropas de choque disparando armas de fogo e usando gás lacrimogênio. ONGs de direitos humanos reportam ao menos 734 mortes durante os protestos, que assolam a nação desde o dia 28 de dezembro. O número aumenta a cada dia e as informações são desencontradas, uma vez que o governo cortou a internet no país.

As manifestações rapidamente se intensificaram e saíram do controle, com dezenas de milhares de manifestantes tomando as ruas de todo o país, demandando a deposição do regime atual. As autoridades, por sua vez, não acomodaram as demandas.

Em vez disso, conduzem uma violenta repressão que chamou a atenção de todo o mundo, incluindo de um dos maiores rivais ideológicos do país, o presidente americano Donald Trump, que diz estar pronto para a guerra.

Além de abrir fogo contra manifestantes, o regime cortou totalmente a internet e acesso telefônico no país, efetivamente isolando-se. Em um drástico próximo passo, ameaça a execução por enforcamento de manifestantes, na base de “crimes contra Deus”, ou Moharebeh.

Entenda a crise – suas origens, principais acontecimentos e sua importância para a geopolítica.

Por que os iranianos estão protestando, afinal?

Um manifestante anti-regime iraniano acende um cigarro com um papel aceso que retrata Ali Khamenei, Líder Supremo do Irã.

Uma manifestante anti-regime iraniano acende um cigarro com um papel aceso que retrata Ali Khamenei, Líder Supremo do Irã (Piero Cruciatti/AFP)

No dia 28 de dezembro do ano passado, a moeda local, o rial, despencou para 1,48 milhão por dólar.

Isso desencadeou os protestos originais, entre comerciantes, que não conseguiam mais negociar. A população geral, vendo seu poder de compra evaporar da noite para o dia, rapidamente se juntou a eles. Em menos de uma semana, os vastos protestos contra a situação econômica se alastraram por todas as 31 províncias do país.

À medida que os protestos foram ganhando impulso, as insatisfações passaram de preocupações econômicas à insatisfação geral com o regime teocrático e autoritário do Irã, no poder desde a revolução em 1979, mas que hoje é profundamente impopular entre os 90 milhões de habitantes da nação.

Por mais que não tenham uma liderança central, um nome protagoniza a ira dos manifestantes: Aiatolá Ali Khamenei, cujo título é “Líder Supremo da Revolução”. Khamenei, agora com 86 anos, está no poder desde 1989, quando foi eleito ao cargo de liderança por outros membros do regime clerical.

Desde então, Khamenei age tanto como autoridade política quanto religiosa. É uma figura de poder central e autoritária, exercendo controle total sobre as forças armadas e poder de veto contra qualquer política.

Anos de corrupção e má liderança geraram duras restrições sociais, como regras de vestimenta e de comportamento social, e culminaram não só em grave crise econômica, mas também em profunda insatisfação do povo.

Esses sentimentos foram ainda mais exacerbados pela violenta repressão das autoridades: mais de 730 manifestantes mortos, com dezenas de milhares presos, segundo organizações de direitos humanos.

Mesmo assim, os dados são de difícil confirmação por causa ao isolamento do país. Observadores acreditam que o número verdadeiro é bem maior. Relatos ouvidos pela CBS News dão conta de 12.000 mortos, segundo fontes ouvidas pela emissora norte-americana.

O plano de Khamenei e dos aiatolás é simples: abafar os protestos pelo medo. O regime chegou ao ponto de anunciar uma execução formal, por enforcamento, do manifestante Erfan Soltani, preso durante os protestos, que foi condenado à morte sem julgamento.

Sua execução está planejada para essa quarta-feira, dia 14.

Falando em condição de anonimato para o IranWire, um veículo de notícias que está acompanhando a situação, uma pessoa próxima à família disse:

“A família está sob pressão extrema. Um parente próximo que é advogado tentou assumir o caso, mas foi bloqueado e ameaçado por agentes de segurança. As autoridades disseram a ele, ‘Não há arquivo para revisar. Anunciamos que qualquer um preso nos protestos seria executado. A sentença de Erfan é Moharebeh (Inimizade contra Deus); é final e será executada.’”

Como o país chegou a esse ponto, mesmo após uma revolução?

Um manifestante anti-regime iraniano segura o emblema islâmico da bandeira nacional da República Islâmica do Irã após cortá-la durante um protesto.

Um manifestante anti-regime iraniano segura o emblema islâmico da bandeira nacional da República Islâmica do Irã após cortá-la durante um protesto. (Piero Cruciatti/AFP)

O Irã nunca foi uma democracia. Antes da Revolução Iraniana, o país era uma monarquia autocrática, sob o controle do , uma figura equivalente a um rei. Mesmo assim, era um país drasticamente diferente.

Nos anos 70, o Xá do país era Mohammad Reza Pahlavi. Herdeiro da dinastia com o mesmo nome, Pahlavi era mais próximo aos EUA, o que gerava incertezas na população, como o medo de influência estrangeira excessiva no país, principalmente de uma nação que não era islâmica. Grandes reformas, parte de um projeto agressivo de modernização, conhecido como a Revolução Branca, também levantaram suspeitas de secularismo – distanciamento da religião – no povo, profundamente religioso.

Insatisfeito com o progresso da Revolução Branca, um antigo inimigo do Xá, o Aiatolá Ruhollah Khomeini, capitalizou no forte sentimento religioso um movimento popular que culminaria na Revolução Iraniana, no ano de 1979.

Conseguindo atrair o exército, leal ao Xá, para a sua causa, Khomeini adquiriu substancial poder.

Após a violenta revolução, o país foi de uma monarquia autocrática (e de certa forma, mais progressista) a uma fechada teocracia com o poder nas mãos do clero – e, mais importante, totalmente oposto aos EUA e ao Ocidente em geral.

Nesse ponto, a nação foi renomeada como República Islâmica do Irã.

Pertencendo à escola muçulmana xiita (oposta à escola sunita), o novo regime teocrático espalhou sua influência através do mundo islâmico, se aliando com grupos como o Hezbollah, os Houthis e o Hamas, formando o chamado “Eixo da Resistência”, que conta entre seus adversários o EUA, a União Europeia, e até mesmo a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, que são sunitas.

Por mais que a religião continue sendo o Islã, a etnia iraniana, ao contrário da dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita, não é árabe, mas persa: o que adiciona uma esfera étnica aos conflitos.

Após a morte de Khomeini em 1989, o atual líder dos Aiatolás, Khamenei, assumiu, e vem liderando o país com punho de ferro desde então.

Como a crise afeta outros países?

Uma crise dessa proporção reverbera pelo mundo, e atrai a atenção de diversos blocos e atores. O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, declarou-se "horrorizado" com a repressão, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou que sanções serão propostas "rapidamente" em resposta ao número "aterrorizante" de mortos.

Espanha, França, Reino Unido, Finlândia, Dinamarca e Alemanha convocaram nesta terça-feira diplomatas iranianos para expressar sua "condenação" à repressão aos protestos.

No Ocidente, de longe a resposta mais drástica à crise foi a do presidente americano Donald Trump. O republicano alertou que os EUA estariam “armados e preparados” para intervir militarmente contra o regime se a repressão contra os manifestantes continuasse – uma espécie de “super trunfo” com o qual a população iraniana parece contar.

"Patriotas iranianos, MANTENHAM AS MANIFESTAÇÕES", escreveu Donald Trump em sua plataforma Truth Social, nessa terça-feira 13. "Cancelei todas as reuniões com autoridades iranianas até que CESSEM este massacre sem sentido de manifestantes. A AJUDA ESTÁ A CAMINHO", afirmou.

O presidente não especificou exatamente que tipo de ajuda os iranianos receberiam, mas os instou a lembrar os nomes dos "assassinos e abusadores". "Eles pagarão um preço alto", prometeu.

Além disso, o presidente também ameaçou fortes tarifas – não ao Irã em si, que já sofre com fortes sanções, mas a qualquer país que conduzir comércio com o Irã. Isso afeta diretamente muitos países do mundo, inclusive o Brasil, já que a República Islâmica é um dos maiores compradores do nosso milho.

 Com informações da AFP

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