Manifestantes em ato contra Maduro em Boston, nos EUA, no domingo, 4 de janeiro (Joseph Prezioso/AFP)
Repórter de internacional e economia
Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 09h32.
Dois dias após a captura de Nicolás Maduro, o futuro da Venezuela segue incerto, com questões em aberto em várias frentes
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que os americanos iriam governar o país, mas depois a posição foi alterada: a ideia é pressionar o governo venezuelano a seguir as ordens dos EUA, sem que haja uma ocupação do país. A ameaça de envio de tropas, no entanto, segue presente.
Ao mesmo tempo, Trump determinou que os americanos ganhem acesso ao petróleo venezuelano, mas aumentar a produção do país terá um custo elevado. Neste contexto confuso, a oposição a Maduro acabou escanteada e busca seu espaço, enquanto os países vizinhos temem novos ataques.
Após a captura de Maduro, sua vice-presidente, Delcy Rodríguez, assumiu a Presidência de forma interina. Os EUA não retiraram outros membros do governo Maduro, que seguem em seus postos. Na prática, caiu o presidente, mas não o regime que ele comandava.
O Exército venezuelano reconheceu Rodríguez como presidente interina. A mandatária realizou seu primeiro conselho de ministros no domingo, 4, e criou uma comissão de alto nível que buscará a libertação de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.
Trump, no entanto, diz esperar que Rodriguez atue de forma alinhada aos EUA. Na noite de domingo, 4, ela fez um discurso e disse estar aberta para colaborar com os Estados Unidos em uma agenda voltada ao “desenvolvimento compartilhado”.
O presidente americano tem insistido publicamente que agora são os EUA que governam a Venezuela, por meio da pressão sobre a presidente.
“Estamos lidando com as pessoas que acabam de tomar posse. Não me perguntem quem está no comando porque vou dar uma resposta muito polêmica”, declarou Trump a jornalistas no Air Force One quando questionado se havia conversado com Rodríguez. Ao pedirem que esclarecesse o que queria dizer, respondeu: “significa que nós estamos no comando”.
Rodriguez fez parte dos governos de Maduro e de Hugo Chávez e ainda não está claro até quando ela continuará no poder. A lei da Venezuela determina que, caso a vice-presidente assuma o cargo por ausência indeterminada do presidente, novas eleições sejam convocadas.
No entanto, não há previsão de realização de uma votação. "Acho que é prematuro [realizar eleições] neste momento. Há muito trabalho a fazer", disse Marco Rubio, secretário de Estado, no domingo, 5.
Ao mesmo tempo, os EUA não pretendem enviar tropas à Venezuela neste momento. Os militares que prenderam Maduro deixaram o país. A estratégia americana, por ora, é cercar o país pelo mar.
Trump tem enfatizado que quer garantir o acesso de empresas americanas ao petróleo da Venezuela, que possui cerca de 20% das reservas globais. Porém, explorar este petróleo é tarefa complexa.
Nos últimos anos, a estrutura petrolífera do país foi sucateada por falta de peças de reposição e de funcionários qualificados. Muita gente fugiu do país em meio à crise econômica, e as sanções americanas sobre a Venezuela fecharam o acesso a máquinas e insumos.
Assim, a produção diária caiu de 3 milhões de barris, na década de 2000, para cerca de 700 mil atualmente.
Para recuperar esta capacidade, seria preciso investir algo em torno de US$ 110 bilhões, segundo estudo da consultoria Rystad Energy, citado pela The Economist. É o dobro de tudo o que as petroleiras americanas investiram em 2024, por exemplo.
Ao mesmo tempo, o barril de petróleo tem estado em valor mais baixo do que nos últimos anos, perto de US$ 50 a unidade, e há oferta do produto em outros países, como Brasil e Guiana, onde o ambiente de negócios é estável.
Uma das principais questões é se as petroleiras americanas terão interesse em investir no país. Como se trata de valores altos e de um trabalho de longo prazo, elas buscam certezas de que não haverá reviravoltas em breve.
"Poucas empresas americanas deverão voltar ao país até ter um regime fiscal e legal confiável e uma situação de estabilidade", diz David Goldwyn, que integra o Global Energy Center, do think tank Atlantic Council.
Iria Puyosa, também pesquisadora do Atlantic Council, aponta que a nova presidente não tem condições de garantir a estabilidade necessária para a recuperação econômica da Venezuela que Trump está propondo.
"Ela parece não ter o apoio de todas as facções do partido no governo. E o chavismo não tem mais o apoio popular amplo que teve duas décadas atrás", diz Puyosa.
Os partidos de oposição da Venezuela esperavam que, após a queda de Maduro, teriam espaço para assumir o comando do país. Até agora, isso não ocorreu.
No sábado, 3, Trump questionou a capacidade de Maria Corina Machado, principal lider da oposlção, para governar o país. Ele também não citou Edmundo González, que os EUA reconheceram como vencedor das eleições presidenciais de 2024.
Assim, como o país segue sob comando dos aliados de Maduro, não está claro como e se a oposição poderá participar. Nas últimas décadas, o governo venezuelano puniu opositores de várias formas, com prisões, sequestros e impedimento de candidaturas.
"Não seria surpreendente se Delcy Rodríguez, vice de Maduro e presidente em exercício, fosse a candidata governista em uma eventual eleição, pois tem a simpatia do partido, dos militares e de parte da população, além de contar com o respaldo de Washington até o momento", diz Roberto Uebel, professor de relações internacionais da ESPM.
A captura de Maduro foi um sinal de alerta dos EUA para outros países da região, ao demonstrar que presidentes que contrariem os interesses de Washington poderão ter destino semelhante.
Trump e autoridades americanas têm feito ameaças, especialmente contra Cuba e a Colômbia. Cuba tem um regime socialista e é alvo de sanções dos EUA há décadas. Na Colômbia, o presidente Gustavo Petro, de esquerda, é crítico de Trump. Os EUA acusam o país de ser fornecedor de drogas.
Os países da América Latina, que não eram alvo de operações dos EUA ao menos desde 1989, fazem reuniões para debater formas de defesa e evitar que casos similares se repitam. Nesta segunda-feira, 5, também haverá um debate sobre a ação no Conselho de Segurança da ONU.
A Carta da ONU, principal documento que rege as leis internacionais, proíbe que um país invada ou ameace a soberania de outro. No entanto, a ONU só pode usar a força contra países que violem a regra com autorização do Conselho de Segurança. Os EUA possuem poder de veto no conselho.