Inflação, perda do poder de compra e insatisfação social impulsionam protestos no Irã (KHOSHIRAN / Colaborador/Getty Images)
Repórter
Publicado em 11 de janeiro de 2026 às 16h42.
Última atualização em 11 de janeiro de 2026 às 16h53.
Apesar da maior onda de protestos internos dos últimos anos, a queda do regime no Irã não é considerada iminente por analistas. Embora as manifestações tenham ampliado o desgaste político e social da República Islâmica, o governo ainda mantém capacidade de controle, sobretudo pela fragmentação da oposição e pela ausência de defecções relevantes dentro das forças de segurança.
“O regime não está prestes a cair. Isso dependeria de uma articulação unificada da oposição, que hoje é fragmentada, e de defecções significativas dentro do regime, especialmente da Guarda Revolucionária — e não há evidências disso até agora”, afirma Vinícius Vieira, professor de Relações Internacionais da FAAP e da FGV.
A avaliação é compartilhada por Vitelio Brustolin, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador da Universidade de Harvard. Para ele, a insatisfação popular é ampla e atravessa fatores econômicos, políticos e sociais, mas ainda carece de um projeto comum capaz de sustentar uma mudança de regime.
“Existe uma grande insatisfação, inclusive entre intelectuais e cientistas iranianos no exterior, que querem a queda do regime. Por outro lado, não há uma alternativa clara e unificada”, diz.
Segundo Brustolin, parte da oposição defende a restauração da monarquia derrubada em 1979, enquanto outros grupos pedem uma democratização sem alinhamento ao Ocidente.
“A monarquia do Reza Pahlavi também foi muito sanguinária. Isso torna o cenário ainda mais complexo.”
Segundo um veículo de notícias do Irã no X, 1,5 milhão de iranianos estão nas ruas esta noite.
São mais de 180 cidades rebeladas em todas as províncias do país.
Iranianos estão pedindo para não chamar isso de protesto, mas de revolução. pic.twitter.com/GeOZTWmEUh
— Daniel Scott (@odanielscott) January 10, 2026
Embora as manifestações desde o fim de dezembro tenham ampliado a pressão sobre o poder dos aiatolás, o colapso no curto prazo segue improvável por dois fatores centrais: a fragmentação da oposição e a ausência de defecções relevantes nas forças de segurança.
“O que acontece no Irã é uma revolta popular em função do aumento do custo de vida”, afirma o professor de Relações Internacionais da FAAP e da FGV.
Segundo ele, a moeda iraniana acumulou uma desvalorização de cerca de 40% frente ao dólar no último ano, corroendo rapidamente o poder de compra da população.
“Há produtos disponíveis, há comida, mas as pessoas não conseguem mais manter o padrão de vida. Isso une grupos muito distintos da sociedade.”
O movimento, segundo Vieira, não se limita a setores tradicionalmente contrários ao regime islâmico.
“Inclusive pessoas que podem ser favoráveis à continuidade da república islâmica, mas contrárias à liderança atual, passam a defender algum tipo de reformatação do regime, e não necessariamente a sua substituição.”
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No plano político, as ameaças recentes contra Estados Unidos e Israel são vistas mais como sinalização estratégica do que como decisão operacional.
“A declaração do Parlamento é um ato político. Na prática, quem manda é o aiatolá Ali Khamenei”, afirma Brustolin, destacando os limites do Executivo e do Legislativo frente à liderança religiosa.
Vieira acrescenta que a retórica agressiva costuma crescer quando o regime se sente pressionado.
“Sempre que se vê afrontado, o Irã faz esse tipo de ameaça.” Em um cenário extremo, porém, ele admite risco de escalada: “Se houvesse colapso iminente, o regime poderia tentar ataques contra Israel ou bases americanas na região, numa lógica quase suicida, para tentar sobreviver.”
Os especialistas concordam que os drones iranianos ampliam o risco regional, mas não alteram o equilíbrio estratégico. Para Vieira, eles reduzem custos e ampliam a dissuasão, ainda que tenham eficácia limitada contra defesas avançadas. Brustolin ressalta que Israel dispõe de múltiplas camadas de proteção, como o Domo de Ferro e o sistema a laser Iron Beam, o que mitiga o impacto dessas ameaças.
“Qualquer morte em Israel pode levar a uma retaliação desproporcional”, alerta Vieira. “O verdadeiro perigo é abrir caminho para um conflito regional mais amplo.”
No médio e longo prazo, o desgaste interno pode se tornar insustentável, mas a mudança dependerá de fatores domésticos.
“Regimes autoritários só caem quando há defecções dentro do próprio regime, especialmente das forças armadas”, afirma Vieira. “Sem isso, a repressão tende a continuar, ainda que a um custo cada vez maior.”
Para Brustolin, uma intervenção externa direta é improvável e arriscada neste momento.
“Estados Unidos e Israel não têm interesse em intervir agora, a não ser para proteger civis. Qualquer escalada teria impactos globais, inclusive sobre o mercado de petróleo e o equilíbrio geopolítico.”
Enquanto isso, o Irã segue num impasse: pressionado por uma população cada vez mais insatisfeita, mas ainda sustentado por um aparato de poder que permanece coeso.
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