Líderes Extraordinários

Empresa não é família

Cultura forte é feita de vínculos conscientes, não de ilusões afetivas

Liderança: clima amigável no trabalho não deve ser confundido com estrutura familiar. (Rodfranz/Getty Images)

Liderança: clima amigável no trabalho não deve ser confundido com estrutura familiar. (Rodfranz/Getty Images)

Publicado em 29 de dezembro de 2025 às 10h00.

Última atualização em 5 de janeiro de 2026 às 10h54.

Eu desconfio dos líderes que falam para seus times que somos todos uma só família. De bate-pronto, parece insensível advogar contra um ambiente familiar nas organizações, mas palavras importam e é importante diferenciar uma coisa da outra.

Relações humanas, no trabalho ou em casa, passam por confiança. Sempre. Sem confiança mútua não há  time, não tem progresso e nem entrega. E líderes têm a obrigação de construir laços fortes e duradouros de confiança com todos os stakeholders. Com sua equipe, mas também com pares, com clientes e fornecedores, com a comunidade do entorno, com ONGs e acionistas. Criar as condições para que a confiança floresça e se perpetue. Para isso, transparência, comunicação honesta, alinhamento, feedback e autenticidade são vitais.

Mas nada disso faz da empresa uma família. A diferença fundamental é que, nas corporações, temos um combinado entre empregador e empregado voltado àperformance, dentro de valores pré-estabelecidos. Na família, não.

No ano passado assisti a uma palestra de um monge sobre a filosofia espiritual indiana Vedanta. Ele sugeriu ótimos livros sobre o tema, e no marcador de um deles veio a poderosa citação: “ontem eu era inteligente e queria mudar o mundo, hoje sou sábio e quero mudar a mim mesmo”. Perguntei para o monge: Se eu não posso mudar o outro por que dou feedback pro meu time? De pronto ele me respondeu: Mas no seu time é diferente, você tem um contrato no qual se espera performance.

Eu tenho três filhos e esposa. Eles nunca serão demitidos, não terão plano de desenvolvimento,  nem metas a cumprir a cada ano contratadas comigo. Parece óbvio e é. Eles terão, sim, meu exemplo diário, meus valores e comportamentos. Terão meu conhecimento e meu respeito. Meu amor e minha parceria, minha aprovação ou desaprovação.

E aqui entram pontos de intersecção com o papel do líder. Como líder, também transmito pelo exemplo a cada dia, também prezo incondicionalmente pelo respeito a todos, também compartilho conhecimento, parceria e, sim, amor na construção das relações duradouras.

Não se trata de cinismo ou de colocar um muro entre o eu pessoal e o eu trabalho. Tal divisão não existe. Somos indivíduos. Indivisíveis. Mas temos diferentes papéis. Quando o líder se torna patriarcal, ele priva seu time da evolução de performance, perde a imparcialidade e a capacidade plena de gestão.

Quando eu ouço alguém na minha empresa dizendo que aqui somos uma grande família, eu me certifico de que a mensagem, na realidade, é sobre o clima amigável, descontraído e informal. Que aqui eu posso ser eu mesmo, me sinto em casa. É tudo o que precisamos. Um ambiente onde a performance prospera. Mas

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