Liderança: clima amigável no trabalho não deve ser confundido com estrutura familiar. (Rodfranz/Getty Images)
Colunista
Publicado em 29 de dezembro de 2025 às 10h00.
Última atualização em 30 de janeiro de 2026 às 14h01.
Eu desconfio dos líderes que falam para seus times que somos todos uma só família. De bate-pronto, parece insensível advogar contra um ambiente familiar nas organizações, mas palavras importam e é importante diferenciar uma coisa da outra.
Relações humanas, no trabalho ou em casa, passam por confiança. Sempre. Sem confiança mútua não há time, não tem progresso e nem entrega. E líderes têm a obrigação de construir laços fortes e duradouros de confiança com todos os stakeholders. Com sua equipe, mas também com pares, com clientes e fornecedores, com a comunidade do entorno, com ONGs e acionistas. Criar as condições para que a confiança floresça e se perpetue. Para isso, transparência, comunicação honesta, alinhamento, feedback e autenticidade são vitais.
Mas nada disso faz da empresa uma família. A diferença fundamental é que, nas corporações, temos um combinado entre empregador e empregado voltado àperformance, dentro de valores pré-estabelecidos. Na família, não.
No ano passado assisti a uma palestra de um monge sobre a filosofia espiritual indiana Vedanta. Ele sugeriu ótimos livros sobre o tema, e no marcador de um deles veio a poderosa citação: “ontem eu era inteligente e queria mudar o mundo, hoje sou sábio e quero mudar a mim mesmo”. Perguntei para o monge: Se eu não posso mudar o outro por que dou feedback pro meu time? De pronto ele me respondeu: Mas no seu time é diferente, você tem um contrato no qual se espera performance.
Eu tenho três filhos e esposa. Eles nunca serão demitidos, não terão plano de desenvolvimento, nem metas a cumprir a cada ano contratadas comigo. Parece óbvio e é. Eles terão, sim, meu exemplo diário, meus valores e comportamentos. Terão meu conhecimento e meu respeito. Meu amor e minha parceria, minha aprovação ou desaprovação.
E aqui entram pontos de intersecção com o papel do líder. Como líder, também transmito pelo exemplo a cada dia, também prezo incondicionalmente pelo respeito a todos, também compartilho conhecimento, parceria e, sim, amor na construção das relações duradouras.
Não se trata de cinismo ou de colocar um muro entre o eu pessoal e o eu trabalho. Tal divisão não existe. Somos indivíduos. Indivisíveis. Mas temos diferentes papéis. Quando o líder se torna patriarcal, ele priva seu time da evolução de performance, perde a imparcialidade e a capacidade plena de gestão.
Quando eu ouço alguém na minha empresa dizendo que aqui somos uma grande família, eu me certifico de que a mensagem, na realidade, é sobre o clima amigável, descontraído e informal. Que aqui eu posso ser eu mesmo, me sinto em casa. É tudo o que precisamos. Um ambiente onde a performance prospera. Mas sem paternalismo.