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Como Portugal se tornou o hub europeu das empresas brasileiras?

Uma base estável que impulsiona expansão internacional, fortalece patrimônios e conecta negócios ao mundo

Portugal: empresários brasileiros usam o país como plataforma para negócios e patrimônio globais. (Getty Images/Divulgação)

Portugal: empresários brasileiros usam o país como plataforma para negócios e patrimônio globais. (Getty Images/Divulgação)

Publicado em 7 de janeiro de 2026 às 09h54.

Portugal, para muitos brasileiros, sempre foi um destino afetivo: a língua em comum, a história, a sensação de familiaridade num país europeu. Mas, nos últimos anos, algo mudou. Cada vez mais, empresários e famílias passaram a olhar para Portugal não só como lugar para viver, mas como base para fazer negócios na Europa. E é aí que a conversa fica interessante.

O que tenho observado, acompanhando esse movimento de perto, é um contraste muito claro. De um lado, quem encara Portugal com estratégia, planejamento e visão de longo prazo. Do outro, quem toma decisões relevantes de vida, patrimônio e empresa guiado apenas por imposto, visto ou entusiasmo momentâneo. O primeiro grupo tende a construir uma ponte sólida. O segundo, muitas vezes, descobre que construiu um atalho caro.

Estar em Portugal significa, na prática, jogar dentro das regras da União Europeia, com acesso a um mercado enorme, padronização regulatória e possibilidade real de escalar o negócio para outros países. Não é teoria: empresas brasileiras de logística, tecnologia, agroalimentar, turismo e serviços já operam com essa lógica, usando Portugal como porta de entrada e base de coordenação.

Há, claro, fatores objetivos que explicam esse protagonismo crescente. O ambiente jurídico é previsível, as instituições funcionam, o sistema financeiro está integrado ao quadro europeu de supervisão e compliance. Para quem pensa em diversificação patrimonial, proteção de longo prazo e sucessão entre gerações, isso pesa. Quando uma família decide internacionalizar parte do seu patrimônio, ela não está apenas “mudando o dinheiro de lugar”; está escolhendo em que tipo de sistema quer ancorar o futuro.

A proximidade cultural e linguística reduz muito o atrito. Negociar contrato, estruturar uma empresa, contratar equipe, lidar com o dia a dia regulatório,  tudo isso fica menos opaco quando não há barreira de idioma e se entende minimamente a cultura local. Some-se a isso a posição geográfica de Portugal, na ponta atlântica da Europa, ligada às Américas e à África por rotas marítimas e aéreas competitivas. Para quem exporta ou depende de cadeia logística internacional, isso faz diferença.

As oportunidades mais óbvias aparecem na economia real. Empresas brasileiras que já exportam para a Europa podem transformar Portugal em centro de distribuição e armazenagem, em vez de fazer operações dispersas, país a país. No turismo e na hotelaria, o brasileiro já é um cliente importante em Portugal, e há espaço para produtos e serviços mais sofisticados: experiências gastronômicas, saúde, educação, turismo de negócios. No agroalimentar e nos vinhos, o diálogo entre Brasil e Portugal está apenas começando e poderia ir muito além do que vemos hoje.

Há também o lado menos visível, mas igualmente relevante: a organização patrimonial. Quando bem feita, a estruturação de ativos em diferentes jurisdições permite diluir riscos, dar previsibilidade às próximas gerações, profissionalizar a gestão e integrar negócios operacionais, imóveis, participações e ativos financeiros sob uma mesma visão. O problema é que, muitas vezes, esse processo começa pelo fim: primeiro compra-se um imóvel, abre-se uma empresa “qualquer” e só depois se tenta arrumar a arquitetura jurídica e fiscal. O resultado costuma ser remendo.

Os erros mais frequentes seguem um padrão. O primeiro é a decisão movida só pela emoção: “gosto de Portugal, vou para lá e depois vejo como faço os negócios”. Não há nada errado em gostar do país — pelo contrário —, mas transformar uma mudança de vida em decisão empresarial sem estudo é pedir para lidar com surpresas. Outro erro é olhar exclusivamente para imposto, visto ou um regime específico que está na moda. Regimes fiscais mudam, programas de residência mudam, governos mudam. Estruturas montadas com horizonte curto acabam se tornando engessos quando o cenário se altera.

Também é comum subestimar o nível de exigência bancária e regulatória. Quem chega com a expectativa de que “em Portugal tudo é mais simples” costuma se surpreender. O sistema financeiro é europeu, e isso significa documentação detalhada, perguntas sobre origem de recursos, análise de risco, acompanhamento constante. Não é hostilidade; é o padrão regulatório da região. Ignorar esse dado leva a frustração desnecessária.

Há ainda um ponto delicado: exportar a mesma governança frágil que já existia no Brasil. Quando uma empresa familiar internacionaliza sem ajustar acordos societários, regras de sucessão, mecanismos de saída de sócios e formas de resolver conflitos, está levando o problema para outra jurisdição, não resolvendo. Muitas vezes, é justamente a discussão sobre “vamos a Portugal” que expõe o que já precisava ser revisto na estrutura da família e da empresa há anos.

Na outra ponta, o que funciona bem costuma seguir uma sequência simples, mas disciplinada. Primeiro, um diagnóstico honesto: qual é o objetivo central? Crescer o negócio na Europa? Proteger patrimônio? Organizar sucessão? Internacionalizar a marca? E em quanto tempo se espera colher resultado — três, dez ou trinta anos? Sem respostas claras, qualquer desenho jurídico ou fiscal vira chute.

Depois vem a escolha dos veículos adequados: que tipo de empresa faz sentido em Portugal, como ela se articula com o que existe no Brasil, que estruturas são coerentes com as legislações brasileira e europeia. É aqui que entra o trabalho conjunto de advogados, fiscalistas e gestores com experiência real no corredor Brasil–Portugal. Não se trata de “achismo de balcão”, e sim de técnica aplicada ao caso concreto.

A seguir, a governança precisa acompanhar o movimento. Internacionalizar exige conselhos mais profissionais, regras explícitas de entrada e saída de sócios e herdeiros, política clara de distribuição e reinvestimento, fóruns adequados para discutir estratégia sem contaminar o dia a dia operacional. Não raro, famílias empresárias percebem, nesse processo, que o tema central não é Portugal, mas o futuro da própria organização.

Outro ponto crucial é usar o ecossistema que já existe. Portugal tem câmaras de comércio ativas, agências de promoção de investimento, redes empresariais, hubs de inovação, parques tecnológicos, clusters em setores como energia, logística, turismo e tecnologia. Em vez de tentar “descobrir tudo sozinho”, conectar-se a essas redes encurta o caminho, reduz erros e aumenta as chances de encontrar parceiros e oportunidades reais.

Tudo isso exige uma mudança de olhar. Portugal não precisa ser visto como fuga do Brasil, nem como refúgio fiscal. Faz mais sentido tratá-lo como extensão estratégica: uma base que permite ao empresário brasileiro competir em outro patamar, sem romper com as origens. Não se abandona o Brasil; amplia-se o raio de ação.

Instituições binacionais, como câmaras de comércio, podem ajudar justamente nesse papel de ponte e filtro. Ponte, porque aproximam empresas, investidores, autoridades e universidades dos dois lados do Atlântico. Filtro, porque ajudam a separar projetos sólidos de promessas vazias e atalhos perigosos. E também como radar, sinalizando mudanças regulatórias, tendências setoriais e riscos geopolíticos que afetam quem opera neste corredor.

Do lado financeiro, gestoras e plataformas com experiência internacional têm a função de traduzir o cenário macro — juros, inflação, câmbio, ambiente europeu e brasileiro — em decisões concretas: quanto alocar em ativos reais, quanto manter em liquidez, como equilibrar risco e retorno, que tipo de estrutura patrimonial faz sentido em cada fase da vida da família e da empresa.

No fim, a pergunta-chave não é “compensa ir para Portugal?”. A pergunta é: quero que minha empresa e meu patrimônio continuem jogando apenas o jogo local ou estou disposto a jogar o jogo global? Se a resposta for a segunda, Portugal passa a ser um candidato natural a hub. Não por ser solução mágica, mas porque oferece uma combinação difícil de encontrar: acesso à Europa, previsibilidade regulatória, proximidade cultural e um ecossistema de negócios em transformação.

O endereço, o passaporte ou o regime tributário são, no fundo, detalhes de um quadro maior. O que realmente faz diferença é a qualidade do planejamento e da execução. Quando Portugal é usado como plataforma estruturada para o talento e o capital brasileiros se projetarem além das fronteiras, todos ganham: o empresário, a família, e também Brasil e Portugal, que reforçam um corredor de negócios com potencial para ser um dos motores do mundo lusófono nas próximas décadas.

 

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