Cultura corporativa: a base invisível que conecta estratégia, comportamento e resultado. (FG Trade/Getty Images)
Colunista
Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 14h00.
Nos últimos anos, a maioria dos líderes empresariais passou a reconhecer o papel estratégico da cultura organizacional. Uma pesquisa global da Korn Ferry (2023) mostra que os executivos das empresas mais admiradas do mundo atribuem pelo menos 30% do valor de mercado à força da cultura corporativa. Ainda assim, poucas empresas traduzem esse entendimento em metas concretas e muitas reduzem investimentos justamente nas áreas que moldam o comportamento e o desempenho: desenvolvimento de lideranças e cultura.
Vivemos uma contradição perigosa. Num mundo incerto, volátil e imediatista em que a confiança e a colaboração se tornaram diferenciais competitivos, o que mais precisamos são organizações saudáveis, adaptáveis e humanas. No entanto, vemos cortes crescentes em programas de liderança, treinamento e transformação cultural. É como tentar enfrentar a tempestade desmontando o leme do navio.
Parte do problema está em como tratamos o tema cultura: de forma conceitual, genérica, quase como um “nice to have”. Mas cultura não é adorno. É a infraestrutura invisível da performance — aquilo que sustenta ou sabota a execução da estratégia.
Em diagnósticos recentes conduzidos em empresas brasileiras de diferentes setores, encontramos conexões diretas entre resultados e comportamentos cotidianos. Por exemplo:
Quando os times não arriscam, o problema raramente é falta de ideias, na realidade é medo de errar. Em culturas que punem o erro, que buscam culpados quando alguma coisa não dá certo, as pessoas jogam pelo seguro. Quando a liderança cria espaços seguros de aprendizado substituindo o “quem errou?” por “o que aprendemos?”, a inovação tende a florescer naturalmente.
Essa é uma dinâmica que observamos muito em empresas familiares e regionais, que frequentemente carregam narrativas internas que moldam decisões: “somos pequenos”, “o mercado é dos grandes”, “não temos estrutura para competir”. Essas crenças, embora invisíveis, saboteiam a ambição e limitam a execução. Quando a liderança trabalha para redefinir a identidade — reforçando a agilidade, a proximidade e o orgulho de ser local — o potencial estratégico se libera. O crescimento começa por dentro.
Falhas de produto, retrabalho e desperdício raramente são apenas questões técnicas. Em geral, refletem hábitos culturais como falta de disciplina, processos vistos como burocracia, treinamentos subvalorizados. Quando as equipes passam a enxergar o rigor como sinônimo de qualidade e respeito ao cliente, a eficiência cresce. A melhoria vem da consciência coletiva, não do controle.
Segundo a Deloitte (2024), 79% dos executivos reconhecem o engajamento como fator crítico de desempenho, mas apenas 13% acreditam que suas empresas conseguem sustentá-lo. O motivo é simples: sem confiança, não há entrega.
Em culturas baseadas na individualidade e microgestão, as pessoas se protegem. Em culturas de confiança, elas se comprometem. A diferença é invisível no papel, mas visível em cada resultado.
Quando a estratégia falha, não é por falta de inteligência, é por falta de coerência.
A cultura é a cola que une intenção e ação. E as lideranças são os grandes facilitadores: uma liderança inspirada e energizada é essencial para a transformação cultural. Quando há significado há energia, e quando há energia há coragem para transformar.
Por isso, da próxima vez que sua estratégia não estiver funcionando, comece observando o comportamento, o que as pessoas fazem quando o chefe não está presente? Analise a sua cultura, entenda como está se sentindo o seu time e a sua liderança. É ali, nos comportamentos cotidianos, no tolerado e não tolerado, nas conversas difíceis, que a performance realmente acontece.