Líderes Extraordinários

A governança para herdeiros

Você já perguntou a um herdeiro o que ele gostaria de fazer e quais são os seus sonhos?

Quando um herdeiro nasce, deveríamos, primeiro, lembrar que ele é fruto da família e não da empresa. (damircudic/Getty Images)

Quando um herdeiro nasce, deveríamos, primeiro, lembrar que ele é fruto da família e não da empresa. (damircudic/Getty Images)

Jorge Cardoso
Jorge Cardoso

Colunista

Publicado em 4 de julho de 2024 às 12h15.

A resposta é normalmente NÃO! Mas, por que precisa perguntar se ele já tem tudo? Tudo na visão de quem?

Claro que todos os fundadores esperam que seus herdeiros perpetuem o negócio. Normalmente, os pais têm o desejo de ver os seus pródigos vivendo nos corredores da sua empresa para conhecer a sua vida empresarial. Mas, nem sempre isto ocorrerá com todos os membros da família.

Precisamos entender quais são os sonhos de cada membro da próxima geração. Ter a oportunidade de permitir que o sucessor decida o próprio caminho nem sempre é uma questão clara para os fundadores.  Muitas vezes, pela dedicação do fundador na empresa, ele prioriza o negócio em detrimento dos filhos. Muitos filhos não entendem desde cedo porque há algo mais urgente, mais imediato, mais prioritário. É algo que concorre e, muitas vezes, supera a atenção à família.

Quando o fundador começa a pensar (ou a sua saúde começa a lhe avisar) que está na hora de passar o bastão, muitas vezes olha para trás e não encontra ninguém a quem possa confiar a responsabilidade para que este, então, o leve até a próxima volta do relógio da vida.

Quando um filho nasce, você acaba de ter um sócio. E este sócio não escolheu essa empresa. Ele foi colocado na recepção da empresa. Você o acolhe e mostra as vitórias e as derrotas das batalhas de um empreendedor. Mas, muitas vezes, pode se esquecer de que esse sócio é, acima de tudo, seu herdeiro. Se você priorizar a empresa em detrimento dos filhos, eles irão ver o negócio como um “ente superior” gerado pelo mesmo progenitor e a sua empresa como uma criatura que nasceu do mesmo ser, mas que não tem alma e que compete no topo da pirâmide familiar.

Muitas vezes, um empresário que dá atenção apenas à família, e não para a empresa, se não estiver com uma equipe devidamente profissionalizada e com metas e recompensas claras, acaba por sucumbir ao negócio. Já no caso de um empresário que dá atenção apenas à empresa, e não para a família, na maioria das vezes, a família acaba sucumbindo ao negócio.

A família estruturada normalmente suporta uma empresa familiar, mas a empresa familiar normalmente não suporta uma família desestruturada.

Quando um herdeiro nasce, deveríamos, primeiro, lembrar que ele é fruto da família e não da empresa. Portanto, ele [herdeiro] não necessariamente precisa cuidar da companhia quando ela ficar mais velha. Mas, ele pode cuidar do empreendimento na senioridade empresarial se reconhecer nela não uma fonte de subsistência, mas de realização. Para tanto, o fundador deve, desde cedo, ficar ao lado de seu rebento e construir o futuro da empresa com ou sem seu sucessor no comando.

À medida que o sucessor vai crescendo, é inevitável - e, ao mesmo tempo, saudável - que eles convivam com o dia a dia da empresa. A prática de viajar, vivenciar outras oportunidades e identificar o que dá prazer à nova geração é o caminho mais adequado para proporcionar a cada jovem a descoberta do seu talento e de sua profissão.

Muitas vezes, o herdeiro tem muito interesse no business familiar e entra em rota de colisão com o fundador por diversidade de ideias. Não é fácil administrar o “chapéu” de líder sobre liderado onde as mesmas cabeças usam chapéus de progenitor e sucessor. O acompanhamento de coach externo e a profissionalização da empresa tiram esse peso de ambos os ombros para que não venham a avaliar as questões diretamente na mesa do jantar e passem a compartilhar dentro de um colegiado que, normalmente, é estruturado em conselhos de administração.

Mas, mesmo que ele não venha a se interessar pelo mundo corporativo familiar e tenha interesse em outros mundos, procure não tolher, mas mostrar, com fatos, dados e exemplos, os riscos e sucessos que poderá tomar em seus próprios sonhos. Você também sonhou um dia e correu riscos, talvez sem ter alguém para compartilhar as suas visões, angústias e incertezas. Proporcione isso à nova geração e a si mesmo.

O mais importante é não julgar. Se você construir uma relação de cumplicidade usando a velha fórmula que diz que “Deus nos deu dois ouvidos e uma boca para que possamos ouvir duas vezes antes de nos manifestar”, haverá muito mais empenho da nova geração em contribuir e se engajar no projeto de vida e da empresa familiar.

Por outro lado, o ímpeto pelo imediatismo, característica das novas gerações, precisa ser administrado levando à mesa as alternativas para a solução dos problemas. A mediação de profissionais externos, seja na mentoria dos herdeiros, seja como conselheiros independentes nos conselhos de administração, traz o fiel da balança para o equilíbrio e proporciona maior harmonia nas relações familiares.

Todos sonhamos com os nossos pequenos grandes homens/mulheres como “brigadeiros de nossa esquadra”, mas, também, esses mesmos podem ser referência em suas batalhas em outros céus. Assim, sempre que voltarem para a nossa base, poderão trazer experiências que nunca dantes tivemos sequer ouvido falar por onde andamos.

Por isso, é preciso dar asas para que eles [herdeiros] voem em outras nuvens e passem por tempestades. Dessa forma, se eles quiserem voltar, voltarão mais preparados do que nós mesmos, que só conhecemos o nosso avião e seus controles. Mas, se quiserem pousar em outros campos, que sejam felizes e que nos tragam sempre novidades.

Quando chegarmos à idade mais tardia, a empresa poderá, ou não, continuar com os herdeiros na cabine de comando da aeronave ou na torre de comando. Também é possível que o proprietário se torne, simplesmente, passageiro daquela que foi um dia sua própria empresa. E os herdeiros? Esses precisam ser preparados para buscar a própria felicidade. Desse modo, onde quer que estejam, lembrarão de você como um capitão que abriu os céus para que cada um pudesse construir os seus próprios sonhos.

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