Banco Central: Luis Mansur, chefe do departamento de Promoção da Cidadania Financeira do BC, trouxe o que significa bem-estar financeiro para o G20 (Leandro Fonseca /Exame)
Repórter de finanças
Publicado em 20 de maio de 2026 às 10h42.
O Brasil já alcançou um nível elevado de inclusão financeira, mas o desafio agora é transformar esse acesso ao sistema bancário em bem-estar financeiro para a população. A avaliação foi feita por Luis Mansur, chefe do departamento de Promoção da Cidadania Financeira do Banco Central (BC) durante Fórum de Bem-Estar Financeiro do Sicredi.
Segundo ele, o país vive hoje um cenário de “altíssima bancarização”. Atualmente, cerca de 97% dos adultos brasileiros têm conta bancária, o equivalente a 175 milhões de pessoas. Além disso, cada brasileiro possui, em média, quase sete relacionamentos financeiros com diferentes instituições, enquanto 130 milhões têm acesso ao crédito.
“O Brasil já resolveu o problema do acesso e do uso ao sistema financeiro”, afirmou. Para Mansur, o avanço foi resultado de uma combinação de políticas públicas ao longo dos anos, incluindo os correspondentes bancários e, mais recentemente, o Pix.
Apesar disso, ele afirmou que o debate precisa mudar de foco. “O problema agora não é mais ter conta. O que a gente tem que observar é a qualidade dessa inclusão financeira e o bem-estar financeiro. É preciso que esse acesso ao sistema financeiro se transforme em bem-estar para a população.”
O dirigente ressaltou que o crédito passou a ocupar um espaço permanente na rotina das famílias brasileiras.
Segundo dados do Relatório de Cidadania Financeira de 2025, 77% das famílias do país estão endividadas, sendo que 45% dessas dívidas são com o sistema financeiro. Além disso, cerca de 30% da renda familiar já está comprometida com o pagamento de dívidas.
Neste sentido, o crédito deixou de ser utilizado apenas para aquisição de patrimônio ou realização de projetos maiores e passou a funcionar como instrumento de gestão do cotidiano e até de sobrevivência financeira.
“As famílias passam o mês gerenciando crédito”, afirmou. Ele citou como exemplos o uso de empréstimos para pagar outras dívidas, a utilização de múltiplos cartões de crédito, a prorrogação recorrente do consignado e o parcelamento de despesas cotidianas, como supermercado e farmácia.
Para ele, esse cenário não é compatível com o conceito de bem-estar financeiro. “Hoje em dia parcela-se tudo no Brasil. E isso não é o ideal para o bem-estar financeiro das pessoas.”
O representante do Banco Central afirmou que o elevado endividamento não é um problema apenas brasileiro e tem preocupado reguladores e organismos internacionais.
Segundo dados citados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 63% dos supervisores bancários veem os altos níveis de endividamento dos consumidores como um risco relevante para os próximos anos.
“Quando uma grande parcela da população está endividada ou vive sem reserva de emergência, a economia como um todo se torna mais vulnerável”, afirmou.
Em sua análise, cidadãos financeiramente resilientes conseguem manter consumo, honrar compromissos e evitar que problemas localizados se transformem em crises sistêmicas. “O bem-estar financeiro atua como um amortecedor social”, disse.
O representante também detalhou o trabalho realizado durante a presidência brasileira do G20, em 2024, quando o país levou o tema do bem-estar financeiro para o principal fórum de cooperação econômica internacional.
Segundo ele, houve grande divergência entre os países até mesmo sobre a definição do conceito e sobre como medir o bem-estar financeiro.
Ao final das discussões, os integrantes chegaram a uma definição consensual segundo a qual bem-estar financeiro é um estado em que as pessoas conseguem:
Esse trabalho, liderado pelo Brasil, impulsionou novas iniciativas internacionais de mensuração do tema por organismos como a OCDE, o Banco Mundial e a Organização das Nações Unidas.