Resseguradoras cortam coberturas por causa de riscos climáticos e cibernético

Relatórios de várias casas de análise e consultorias mostram que o cenário para as resseguradoras é particularmente desafiador
Resseguradoras (Getty Images/Exame)
Resseguradoras (Getty Images/Exame)
Carlo Cauti
Carlo CautiPublicado em 22/09/2022 às 16:56.

Os grandes grupos de resseguro global estão cortando significativamente suas coberturas por causa do aumento dos riscos de desastres naturais, ataques cibernéticos e tensões geopolíticas globais.

Esse é o resumo do relatório divulgado pela S&P Global que mostra como os riscos são tão elevados que estão assustando mesmo alguns dos gigantes do setor.

“Mais da metade dos 21 principais grupos de resseguros globais estão reduzindo em 20% sua exposição líquida a hedges de riscos decorrentes de desastres naturais refletindo nesta fase uma abordagem diferente ao risco”, escreveram os analistas da S&P Global.

No primeiro semestre de 2022, de acordo com um relatório do JP Morgan que transmite dados semelhantes aos de uma pesquisa do Swiss Re Institute, os desastres naturais causaram perdas nas contas das empresas para um total de US$ 35 bilhões.

Um valor que representa uma alta 22% superior a média dos últimos dez anos. Um número impressionante, mas apenas em relação a uma fatia dos danos reais, já que 75% dos desastres naturais não tem cobertura de seguros.

Todavia, já que as resseguradoras são garantidores de última instância para riscos de seguro, esse aumento dos desastres naturais acabou impactando em seus balanços.

Cenário complicado para as resseguradoras

Com um cenário como esse, a demanda por proteção está crescendo, mas a oferta está lutando para acompanhar as demandas. Criando assim um contexto de graves repercussões para o sistema financeiro internacional.

Em tese, a oferta global de coberturas não parece ter diminuído, pois essa redução da oferta por parte das resseguradoras mais cautelosas está sendo compensada pelo aumento da parcela de resseguradoras mais "agressivas", a começar pelas alemãs Munich Re e Hannover Re ou Switzerland Swiss Re. Essa última, por sinal, informou explicitamente que visa o crescimento precisamente nos riscos de catástrofe.

O tema da alta de preços no mercado de resseguros foi debatido no maior evento do setor ocorrido na semana passada em Monte Carlo, e foi considerado inevitável por todos os analistas.

"Mesmo que até agora tenha havido um menor nível de desastres naturais este ano, a incerteza criada pela guerra na Ucrânia e a preocupante situação macroeconômica levarão a um aumento dos preços dos resseguros em 2023 e talvez também em 2024", aparece em um relatório da Berenberg, que considera isso um "claro desafio para o mercado".

Para o Goldman Sachs, “os pedidos de cobertura para investimentos na transição energética também contribuirão para o aumento da demanda por seguros de proteção vinculados às mudanças climáticas".

A outra grande incógnita do setor, preexistente à invasão russa da Ucrânia, mas que se acentuou com as tensões geopolíticas entre o Oriente e o Ocidente do mundo, é representada pelos riscos cibernéticos.

"A demanda por proteção contra riscos cibernéticos está crescendo globalmente enquanto a oferta de resseguros não está avançando na mesma velocidade", aparece no relatório setorial da S&P Global.

"Os riscos cibernéticos são muito complexos para atrair investidores de títulos vinculados a seguros (Ils), são riscos que não se limitam a uma única área, mas podem se espalhar rapidamente pelo mundo em poucos segundos, expondo os investidores a grandes riscos e perdas graves", concluíram os analistas da S&P Global.