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Os metais esquecidos que podem destravar valor na Vale (VALE3)

Níquel e cobre podem destravar cerca de 20% do valor patrimonial da Vale, calcula o BTG Pactual

Cobre em alta: potencial de múltiplos maiores para a Vale (Monty Rakusen/Getty Images)

Cobre em alta: potencial de múltiplos maiores para a Vale (Monty Rakusen/Getty Images)

Ana Luiza Serrão
Ana Luiza Serrão

Repórter de Invest

Publicado em 9 de janeiro de 2026 às 06h00.

Alguns investidores olharam para a Vale e enxergaram apenas uma montanha de minério de ferro por muito tempo. Essa percepção já vem mudando há algum tempo, especialmente agora com perspectivas positivas para os preços dos metais básicos, como níquel e cobre. 

O BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) aponta que o níquel e o cobre, frequentemente tratados como ativos esquecidos no portfólio da mineradora, estão se transformando em aliados poderosos que podem sustentar uma reavaliação bilionária da companhia no mercado no futuro. 

O que chama a atenção é a velocidade dessa virada, pois em apenas um mês, o preço do níquel saltou de US$ 14.000 para mais de US$ 18.000 por tonelada, uma valorização de 25%, que parece ter passado despercebida por boa parte da Faria Lima, segundo o documento.

Transição energética e IA movem mercado

A S&P Global nota novas demandas, como transição energética e inteligência artificial, impulsionando o preço do cobre para e possibilitando um eventual risco de escassez à frente, conforme análise divulgada pelo Financial Times. A forte demanda também atinge o níquel.

“Embora a Vale seja uma das maiores produtoras globais de níquel (atrás da Norilsk), o níquel tem sido visto pelos investidores como um problema para a Vale há anos”, escreveram os analistas Leonardo Correa e Marcelo Arazi, do BTG Pactual.

Com a mudança, eles destacam que precisam de tempo para avaliar a tendência, mas que esse é um desenvolvimento marginalmente positivo que poderia ajudar a reavaliar a divisão de metais básicos da Vale.

O cenário do BTG Pactual pressupõe um Ebitda de US$ 3 bilhões, em média, para os metais básicos da Vale em 2026. O montante pode superar os US$ 4 bilhões com o recente aumento nos preços do cobre e do níquel, um incremento de 8% no indicador consolidado.

3º trimestre já mostrava tendência positiva

Para entender o tamanho dessa operação, basta olhar para o balanço do terceiro trimestre de 2025 da mineradora. A produção de minério de ferro atingiu seu maior nível trimestral desde 2018, mas os metais básicos mostraram que estão pedindo passagem.

O cobre teve seu melhor resultado para um terceiro trimestre desde 2019, alcançando 90,8 mil toneladas, um crescimento de 5,7% na comparação anual. Já o níquel, embora tenha tido uma leve oscilação trimestral para 46,8 mil toneladas, vem acumulando uma alta de 14,4% na produção de janeiro a setembro de 2025.

A meta da companhia é fechar 2025 produzindo entre 160 mil e 175 mil toneladas de níquel, consolidando sua posição como uma das maiores players globais do setor.

Vale está barata frente aos pares?

O grande argumento do BTG Pactual para o otimismo é o que os analistas chamam de “gap de valor”. Hoje, a divisão de metais básicos da Vale é negociada no mercado a um múltiplo de cerca de 4 vezes o Ebitda, como se fosse uma empresa exclusivamente de minério de ferro.

No entanto, seus pares globais no setor de metais básicos são avaliados entre 7 e 10 vezes esse valor. Se o mercado começar a precificar essa unidade de forma justa, o BTG estima que isso poderia destravar cerca de 20% do valor patrimonial da Vale.

“Reconhecemos que talvez haja uma questão de confiança herdada em torno da unidade de metais básicos da Vale, mas acreditamos que as condições agora são muito melhores do que esperávamos e melhores do que o que está atualmente precificado nas ações”, pontua.

A nova ordem econômica e o fator Indonésia

Além da demanda tecnológica, o cenário de oferta também está a favor da Vale. A Indonésia, citada no relatório, detém mais de 50% do fornecimento global de níquel e vive em um momento de incerteza.

Isso porque novas estruturas de licenciamento podem reduzir a disponibilidade do metal para 2026. Esse gargalo regulatório, para o BTG, mantém os preços sustentados por precaução, favorecendo mineradoras com operações sólidas em outros lugares.

Paralelamente, a Vale tem feito o dever de casa na visão dos analistas do banco, pois o custo total do níquel já caiu 16% em 2025 na comparação com 2023, “excluindo os efeitos dos subprodutos, onde a redução seria ainda maior.”

Por outro lado, o grande risco é a competição e o incremento tecnológico, já que é preciso, ainda, haver melhora nas tecnologias de extração para o cobre e para o níquel, diz o sócio-fundador da Ciano Investimentos, Lucas Sigu Souza.

Minério de ferro não vai deixar de ser relevante

O head de análise da The Link Investimentos, Artur Horta, ressalta que o minério de ferro não vai deixar de ser relevante ou de ser a maior fonte de receita da Vale. Todavia, ele tem se tornado secundário na nova ordem econômica mundial.

“O que a Vale não deve fazer no curto prazo é pegar o dinheiro que a mineração dá para ela para aplicar em metais básicos. Ela vai sim dar uma prioridade para crescer ali na divisão de metais básicos, mas não trocar um pelo outro”, detalha Horta.

Quem também vê um cenário parecido é o analista do Vida de Acionista, Bruno Oliveira. “É mais provável uma redirecionada tanto de discurso e, possivelmente, de Capex no cobre e níquel como uma segunda opção do portfólio.”

“Esses metais atendem a demanda de diversificação, o que reduz a dependência do ciclo do minério de ferro. No entanto, o mercado exigirá mais do que o papel de coadjuvante nos balanços da companhia para que paguem mais por essas iniciativas”, afirma Bruno.

A Vale deve mirar para onde o futuro está indo de fato, mas o investidor deve perceber que o minério de ferro ainda é muito relevante e vai continuar sendo muito necessário nos próximos anos, evidencia o estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz.

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