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Fusão Glencore-Rio Tinto põe em xeque plano da Vale para retomar liderança global

Para os analistas, a fusão, se confirmada, torna mais difícil o plano anunciado em 2025 pela Vale de voltar a ser a maior mineradora do mundo

Vale: meta de voltar ao patamar de outrora (Brendan McDermid/Reuters)

Vale: meta de voltar ao patamar de outrora (Brendan McDermid/Reuters)

Publicado em 9 de janeiro de 2026 às 16h49.

A Vale (VALE3) já ditou o ritmo da mineração global. Durante anos, a companhia brasileira liderou a produção mundial de minério de ferro e, em 2010, alcançou o segundo maior valor de mercado entre as mineradoras do planeta.

Mas esse protagonismo começou a perder fôlego ao longo da década passada e agravou após o rompimento das barragens de Mariana e Burmadinho, em Minas Gerais. As tragédias abriram caminho para a perda do posto de maior produtora global de minério de ferro para a anglo-australiana Rio Tinto.

Hoje, o topo do setor é ocupado pela BHP Group, com valor de mercado de US$ 162 bilhões. A Rio Tinto aparece em seguida, avaliada em cerca de US$ 133 bilhões, enquanto a Glencore soma US$ 71,6 bilhões. A Vale, por sua vez, vale aproximadamente US$ 60 bilhões, segundo estimativas de mercado.

Em junho do ano passado, porém, a nova liderança da companhia brasileira, sob o comando do CEO Gustavo Pimenta, colocou publicamente uma ambição elevada: fazer a Vale voltar a ser a maior produtora de metais do mundo em valor de mercado.

"Temos que ser a maior mineradora do mundo, porque estamos sentados sobre a maior reserva mineral do planeta. Precisamos destravar o valor dessa empresa", afirmou Pimenta durante um evento empresarial em São Paulo.

Megafusão pode frustrar planos da Vale

A retomada das conversas entre a Rio Tinto e a Glencore, no entanto, ameaça tornar esse objetivo ainda mais difícil. As duas mineradoras confirmaram nesta sexta-feira, 9, negociações iniciais que podem resultar na maior fusão da história do setor, criando um grupo com valor de mercado combinado próximo de US$ 207 bilhões.

A transação, se concretizada, colocaria a empresa resultante muito à frente da Vale. Para analistas, o impacto sobre o plano anunciado pela mineradora local é direto.

Fernando Fontoura, sócio-fundador da Persevera Asset, avalia que, diante de uma companhia combinada entre Rio Tinto e Glencore, a meta da Vale se torna inalcançável no curto prazo por meios orgânicos. "Certamente, saindo dessa fusão, esse objetivo fica inalcançável no curto prazo", afirmou à EXAME.

"A megafusão entre Rio Tinto e Glencore, se avançar, fará nascer um campeão absoluto em cobre, metais para transição energética e trade integrado, vantagem única da Glencore. Em valor de mercado, elas juntas iam assumir o primeiro lugar global", acrescenta Virgílio Lage, especialista da Valor Investimentos.

Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, também observa que a junção de Glencore com Rio Tinto seria "um dos maiores negócios corporativos do mundo nos últimos anos".

Apesar da dimensão do negócio, a operação ainda está longe de ser certa. Poucos detalhes foram divulgados sobre a estrutura da fusão, que pode envolver a aquisição, integralmente em ações, de parte ou da totalidade da Glencore pela Rio Tinto.

As negociações também revisitam uma combinação que foi discutida pela primeira vez há cerca de um ano, mas que fracassou. Obstáculos regulatórios, especialmente relacionados a questões concorrenciais e ao futuro dos ativos de carvão e da divisão de trading da Glencore, podem dificultar o avanço.

Agências internacinais também apontaram que analistas do Berenberg avaliam que a BHP poderia tentar também adquirir a Glencore.

No caso da mineradora brasileira, além de a fusão tornar mais difícil um reposicionamento da Vale na liderança, ela adicionaria pressão sobre outros metais. De acordo com os analistas de mercado, o ponto central dessa fusão entre as mineradoras não é o minério de ferro, e sim o cobre.

As mineradoras globais estão em uma corrida para ampliar seus estoques de metais ligados à transição energética e à expansão da inteligência artificial, e o cobre aparece como ativo estratégico nesse novo ciclo. A Glencore, por exemplo, é hoje a sexta maior mineradora de cobre do mundo, e a combinação com a Rio Tinto criaria uma potência ainda mais focada nesse mercado, segundo os analistas.

Fusão tira Vale do 'conforto' dos minério de ferro

Para Fontoura, da Persevera, a combinação das duas mineradoras tira a Vale de uma certa "zona de conforto" e aumenta a pressão por decisões estratégicas mais relevantes.

A análise é colaborada por Alexandre Pletes, head de renda variável na Faz Capital. Sgeundo ele, a empresa tem sido "conservadora demais" ao priorizar a distribuição de dividendos e deixar de lado movimentos estratégicos mais robustos, como aquisições que ampliem e qualifiquem seu portfólio.

"A Vale também deveria ir ao mercado tentar adquirir alguma coisa para melhorar esse melhorar esse portfólio de produtos", disse Pletes.

Uma saída, na opinião dos analistas, é o próprio cobre. Em relatório recém-divulgado pelo BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) aponta que há valor latente nos negócios de níquel e cobre da Vale, estimado em cerca de 20% do valor da companhia, mas que destravar esse potencial exige decisões estratégicas mais claras e menos passividade.

"O mercado passa a precificar cobre e níquel como ativos estratégicos mais escassos. Isso torna mais visível ovaluation da Vale fora do minério de ferro. Relatórios como o do BTG Pactual dão ali 20% de upside vindo de metais básicos e ganham validação estrutural com isso", afirma Lage.

"É interessante esse ângulo e ele pode dar à Vale para eventualmente buscar alguma coisa em cobre. Certamente teria que ser inorgânico, porque em termos orgânicos realmente um movimento que fosse fazer diferença seria muito custoso em termos de Capex, teria que ter um tempo de maturação do investimento muito grande. O que bota a Vale de volta numa certa pressão", complementa o sócio-fundador da Persevera.

Esse movimento ocorre em meio a uma onda mais ampla de consolidação no setor. Em setembro passado, a Anglo American e a canadense Teck Resources anunciaram uma fusão de US$ 66 bilhões, com expectativa de formar uma das cinco maiores produtoras de cobre do mundo.

A própria retomada das conversas entre Rio Tinto e Glencore foi impulsionada pela disparada recente do preço do metal, que atingiu o recorde histórico de US$ 13 mil por tonelada nesta semana, diante da perspectiva de forte demanda e risco de escassez futura.

Segundo o BTG, a divisão de metais básicos da Vale ainda é negociada a múltiplos baixos, como se a empresa fosse apenas uma produtora de minério de ferro.

"A megafusão reforça a pressão em cima da execução em torno de níquel, de cobre, para destravar valor na Vale, para mostrar para o acionista que é lá que é o futuro, que é a questão dos minérios da transição energética. O negócio entre Rio Tinto e Glencore coloca um pouco mais de exigência também, para que a Vale execute melhor e mais rápido, muito provavelmente, esse movimento", afirma Cruz da RB Investimentos.

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