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Por que os gestores europeus - cheios de liquidez - estão olhando para a decisão do BCE

A decisão sobre as taxas de juros na Área do Euro poderão desencadear consequências imprevisíveis nos mercados de ações e da dívida pública

Sede do Banco Central Europeu (BCE) em Frankfurt (Ralph Orlowski/Reuters)

Sede do Banco Central Europeu (BCE) em Frankfurt (Ralph Orlowski/Reuters)

Carlo Cauti
Carlo Cauti

27 de outubro de 2022, 05h34

O Banco Central Europeu (BCE) vai anunciar nesta quinta-feira, 26, quais serão as taxas de juros para a Área do Euro. O mercado está esperando quase unanimemente uma alta de 75 pontos base, que levaria os juros europeus do atual 1,25% para 2%.

Além dos juros, o mercado está de olho se BCE vai alterar as condições das operações de refinanciamento da dívida, o famoso TLTRO, ou se vai mudar a estratégia de reinvestimento ou dar os primeiros indícios de um futuro aperto quantitativo, começando a vender os títulos em carteira.

Certamente o BCE manterá uma orientação restritiva. Dificilmente vai fornecer indicações sobre a taxa final em um contexto de aperto crescente. Mas o mercado também considera pouco provável que a instituição monetária central europeia forneça indicações sobre os futuros movimentos.

Já nas últimas reuniões, o BCE tinha decidido abandonar qualquer forma de guidance e decidir "reunião após reunião" quais seriam as indicações sobre a política monetária futura. No entanto, os dados macroeconômicos disponíveis ainda indicam claramente a necessidade de mais elevações das taxas de juros. A inflação continua elevada demais na Área do Euro, chegando em 9,9% em setembro. No Brasil, os preços subiram menos: 7,17%.

E mesmo excluindo do cálculo os preços da energia e dos alimentos, que são imediatamente afetados pela guerra na Ucrânia, o "núcleo" da inflação europeia já superou os 6%. Como este índice tende a seguir o índice geral da Área do Euro, o caminho dos juros está atualmente marcado para cima.

O que também preocupa os investidores europeus é que as expectativas de inflação de longo prazo voltaram a subir, passando da meta de 2% e iniciando uma trajetória ascendente que as levou já para 2,4%. Na base desses dados, mesmo com uma alta dos juros por parte do BCE para 2%, as taxas reais ainda continuariam negativas. E se levarmos em conta que as expectativas de inflação para um ano são muito maiores – o próprio BCE projeta uma inflação média de 5,5% para 2023 - fica claro que a política monetária ainda está atrás da curva.

A curva de rendimentos, no entanto, subiu. E subiu rapidamente. Os mercados parecem ter entendido muito bem as intenções do Banco Central Europeu. A parte mais curta da curva, aquela que reflete e ao mesmo tempo realiza a política monetária, deu um salto rápido para cima. Os juros em três meses, que antes da reunião de setembro estavam em 0,19%, agora estão em torno de 1%. Os de dois anos - horizonte temporal de muitos investimentos - estão em 2,5%. E os dez anos já chegaram a 3,3% que, com expectativas de inflação em 2,4%, correspondem a 0,9%.

O que os mercados esperam do BCE

Os investidores prestarão muita atenção nas palavras da presidente do BCE, Christine Lagarde, para tentar interceptar qualquer referência à "taxa pivô", ou seja o nível de neutralidade dos juros além do qual subir ainda mais pode causar danos estruturais ao tecido econômico, acentuando a probabilidade de que a recessão se transforme em depressão. O mesmo tema prevalece nos Estados Unidos, onde os rendimentos dos títulos do Tesouro Direito de dois anos subiram para 4,63% na semana passada e estão oscilando em torno de 4,5%.

O problema é que ninguém ainda entendeu qual é a "taxa pivô". E com essa incerteza, os juros no mercado continuam subindo. Tanto que alguém começa a se preocupar para onde os juros irão. As palavras pronunciadas no último final de semana por Mary Daly, presidente do Federal Reserve (Fed) de São Francisco, mostram claramente essa preocupação: "é hora de começar a falar sobre uma desaceleração na alta das taxas". Todavia, até o momento esse é o pensamento de apenas um dos 12 membros que compõem o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) do Fed.

Os fundos de investimento do mundo inteiro estão vivendo um momento de super liquidez, com o índice que chegou em 6,3%. Algo que não ocorria há mais de 20 anos. Com isso, o apetite ao risco está começando a voltar entre os gestores, para tentar salvar o que sobrou do pior ano para os mercados desde 1931. Por outro lado, o risco de errar o timing de entrada continua elevado, com o mercado que poderia continuar sua onda baixista ainda por um bom tempo.

Por último, os mercados estão de olho no risco que uma eventual alta das taxas de juros na Europa poderia representar para a sustentabilidade das dívidas soberanas dos países europeus. As turbulências vividas recentemente pelo Reino Unido são um sinal claro daquilo que poderia ocorrer com outros países da Área do Euro. Países como Grécia, que tem uma dívida pública de 2056% em relação ao PIB, a Itália, cuja dívida chega a 155% do PIB, ou Portugal e Espanha, respectivamente 135% e 120%, poderão ter fortes dificuldades em pagar juros mais elevados.  Mas toda a Área do Euro está superendividada, com uma relação de 97,2% do PIB.

Por tudo isso, a decisão desta quinta-feira do BCE tem um peso muito maior do que no passado, e poderia ter consequências imprevisíveis para a economia europeia e do resto do mundo.