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Cogna entrega lição de casa antes da saída de Galindo como CEO

Maior grupo de educação do país, que será comandado por Roberto Valério, atual CEO da Kroton, melhora a rentabilidade e dobra a geração de caixa operacional em 2021

Rodrigo Galindo, CEO da Cogna, mas que deixará o cargo na próxima segunda-feira, 28 de março, para assumir como presidente do conselho da empresa (Cogna/Reprodução)

Rodrigo Galindo, CEO da Cogna, mas que deixará o cargo na próxima segunda-feira, 28 de março, para assumir como presidente do conselho da empresa (Cogna/Reprodução)

Marcelo Sakate
Marcelo Sakate

25 de março de 2022, 09h37

Em vez de crescimento a qualquer custo, rentabilidade, geração de caixa e resultado operacional. Assim pode ser resumido o balanço do quarto trimestre de 2021 da Cogna (COGN3), maior grupo de educação do país, que acaba de ser divulgado nesta noite de quinta-feira, dia 24 de março, depois do fechamento do mercado.

A Cogna começa a colher de forma crescente os frutos de seu processo de reestruturação concentrado na Kroton, a sua divisão de ensino superior, e na estratégia de priorizar ativos com maior potencial de crescimento e de rentabilidade: o ensino híbrido e digital, o ensino médico -- por meio da KrotonMed, anunciada em dezembro no CognaDay -- e plataformas digitais.

Essas três frentes devem responder por mais da metade das receitas operacionais líquidas do grupo em 2022 e essa contribuição deve saltar para 70% em 2025, segundo a companhia. Em 2017, essa fatia era de 19%.

O Ebitda recorrente, métrica que representa o resultado operacional, ficou em R$ 423,9 milhões no quarto trimestre, revertendo em mais de meio bilhão de reais o dado negativo de R$ 100,5 milhões no mesmo período de 2020. No ano fechado, o resultado quase dobrou para R$ 1,345 bilhão, a caminho do guidance (projeção) de R$ 2,4 bilhões em 2024.

A margem Ebitda ficou em 27,3% nos três meses finais do ano, revertendo a margem negativa de 6,1% no mesmo período de 2020. No ano, a margem saltou de 11,7% para 25,6%.

A geração de caixa operacional pós-Capex, por sua vez, avançou 78,3% nos três meses finais do ano, para R$ 104,1 milhões, e mais do que dobrou no ano inteiro, para R$ 494,1 milhões. O guidance nesse caso para o fim de 2024 é de R$ 1 bilhão, anunciado ainda no segundo semestre de 2020 como forma de sinalizar a estratégia de recuperação.

Por outro lado, a empresa registrou queda de 5,6% na receita líquida no trimestre e de 10,5% no ano, para R$ 5,28 bilhões. E encerrou o trimestre com prejuízo líquido ajustado de R$ 74,9 milhões, ainda que 87% menor do que no mesmo período de 2020.

Nesta quinta, antes da divulgação do resultado, as ações da Cogna encerraram em alta de 3,12%, negociadas a R$ 2,31. Nos últimos 12 meses, no entanto, a queda acumulada é da ordem de 40%, a tal ponto que o papel negocia próximo do piso histórico, sem pegar carona no forte movimento de ingresso de capital do investidor estrangeiro neste ano. Sinal de que ainda falta convencer os investidores.

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"A reestruturação está surtindo efeitos. A mensagem mais forte do resultado é a geração de caixa, que não tem ajustes contábeis. No fim do dia, o que permite que a companhia continue reinvestindo para crescer e financie suas atividades é a geração de caixa", disse Rodrigo Galindo, CEO da Cogna, à EXAME Invest. "Temos três anos para atingir o guidance de R$ 1 bilhão de geração de caixa e estamos confiantes de que vamos alcançar."

A divulgação do resultado marca a despedida de Galindo como CEO do grupo depois de doze anos. A partir de segunda-feira, dia 28, ele será substituído pelo atual CEO da Kroton, Roberto Valério, em mudança planejada desde 2018 e anunciada no início de fevereiro deste ano -- e já aguardada no mercado. Galindo, por sua vez, assumirá a presidência do conselho de administração e seguirá, junto com sua família, como um dos principais acionistas da companhia.

Galindo contou que o processo de definição do sucessor levou cerca de um ano, até que, em maio de 2019, o nome de Valério foi escolhido de forma natural -- ele está na companhia em cargo de liderança desde 2014. A mudança aconteceria no segundo trimestre de 2020, mas acabou adiada em razão dos impactos da pandemia e do foco na reestruturação.

"Tomamos a decisão de que só voltaríamos a falar de sucessão quando a companhia entregasse resultados concretos positivos e tivesse uma perspectiva positiva daqui para frente. Isso aconteceu no fim de 2021", afirmou.

"Como chairman, minha dedicação estará focada em dar sequência ao processo de digitalização da companhia", disse Galindo. Ele destacou três indicadores de sua gestão: o crescimento médio de 22% ao ano em receita e de 34% em Ebitda ao longo de onze anos, de 2010 a 2021. "E formamos 1,7 milhão de brasileiros em cursos de graduação."

Captação cresce na Kroton

Valério, por sua vez, se credenciou ainda mais depois de liderar o processo de reestruturação da Kroton, reduzindo a participação do ensino presencial e ampliando a importância do modelo híbrido e digital. Ele também liderou o desenvolvimento de uma nova plataforma digital voltada à experiência do aluno, ampliando o engajamento e, portanto, reduzindo a evasão.

"O grande desafio da Kroton era fazer o turnaround e colocar a empresa de volta à rentabilidade. E conseguimos entregar", disse Valério à EXAME Invest.

O Ebitda recorrente da empresa de ensino superior da Cogna encerrou o ano em R$ 926 milhões, com crescimento de R$ 788 milhões em relação a 2020 e um avanço de 25 pontos percentuais na margem, para 28,7%.

Para viabilizar a reviravolta, a Kroton também adotou medidas de otimização do portfólio, priorizando cursos com maior margem, reduziu o número de unidades próprias e mudou o perfil de crédito de alunos pagantes.

"Agora vem a segunda parte, que é o crescimento de receita. Temos convicção de que isso será retomado em 2023, porque as safras de captação de alunos estão vindo positivas", disse o CEO da Kroton. Segundo ele, o número de novos alunos deve crescer na casa de dois dígitos no primeiro trimestre deste ano em meio à normalização das atividades no país com o arrefecimento da pandemia. Em 2021, a captação já havia subido 21%.

É um crescimento que tem ocorrido sem impactar negativamente o tíquete médio dos alunos tanto no ensino presencial como no híbrido e à distância, segundo os números do balanço trimestral. E ocorre apesar da piora das condições macroeconômicas, como a escalada da inflação para o patamar acima de 10% em doze meses.

"Certamente sem inflação teríamos mais oportunidade para crescer. Historicamente, temos conseguido repassar a inflação nos nossos reajustes. A pressão que temos em algumas linhas de custos são neutralizadas. Mas a questão é: quanto mais caro o curso, menor a demanda", explicou Galindo sobre o impacto do ambiente econômico.

Outro indicador que costuma ser afetado pela piora da economia não só segue sob controle como até está em trajetória  de melhoria. A Kroton ampliou em 6,2 pontos percentuais, desde o primeiro trimestre de 2020, a adimplência, ou seja, o número de alunos que pagam em dia.

A evolução se deve a ações como foco na análise de engajamento dos alunos e maior eficiência na cobrança. É um dos fatores que têm permitido o crescimento da geração de caixa operacional.

Guidance para a Vasta

Outro destaque positivo do balanço do quarto trimestre foi o desempenho da Vasta (VSTA), a plataforma digital de conteúdo e soluções educacionais B2B e B2B2C, cujo crescimento confirmou uma expectativa positiva que já havia sido antecipada por Galindo em entrevista à EXAME Invest no fim do ano passado.

A Vasta tem um modelo de subscrição como principal fonte de receita, em que há um conjunto de contratos que resulta em uma métrica chamada de ACV (Annual Contract Value, em inglês), uma proxy da receita no ano seguinte.

O ACV do ciclo comercial de 2022, que se estende do quarto trimestre de 2021 até o terceiro de 2022, foi concluído com um crescimento de 35% em relação ao ciclo anterior e acima dos 32% apontados até setembro do ano passado. Excluído o efeito decorrente da aquisição da plataforma da Eleva, a expansão orgânica foi de 22% no novo ciclo.

Pela primeira vez, a Vasta divulgou o guidance para o primeiro trimestre, com projeção de crescimento da receita líquida de 32% na comparação com o mesmo período de 2021. Esse avanço representará, se confirmado, o dobro do ritmo do quarto trimestre e se dará tanto com produtos de subscrição (31%) quanto de não subscrição (33%).

A estratégia de cross-selling (venda cruzada de produtos) também tem se mostrado eficiente, com a expansão de 47% dos chamados serviços complementares -- como conteúdo de inglês e matemática -- no ciclo comercial de 2022.

"Tanto os serviços complementares vendidos para as escolas quanto os serviços digitais vendidos diretamente para os alunos são novas alavancas de crescimento, além do core, que vai continuar em expansão. A perspectiva de crescimento da Vasta é bastante sustentável no longo prazo", disse Galindo.

No caso da Vasta, a aceleração do ritmo de aumento das receitas e as perspectivas favoráveis começaram a ser reconhecidas por investidores: a ação negociada na Nasdaq acumula valorização de cerca de 160% desde o fim de novembro, embora a queda em 12 meses também esteja acima dos 40%.