Ações do Credit Suisse caem 10% com preocupações sobre saúde financeira do banco

O maior banco suíço está enfrentando uma crise de confiança e poderia ser forçado a levantar capital para sobreviver
Credit Suisse (Pascal Lauener/Reuters/Exame)
Credit Suisse (Pascal Lauener/Reuters/Exame)
Carlo Cauti
Carlo Cauti

Publicado em 03/10/2022 às 09:30.

Última atualização em 03/10/2022 às 09:34.

As ações do Credit Suisse estão caindo quase 10% na sessão desta segunda-feira, 3, com os temores sobre a solidez financeira do maior banco da Suíça. Desde o começo do ano, os papéis do banco caíram mais de 61%.

Durante o final de semana aumentaram as especulações sobre a solidez do Credit Suisse, com executivos do banco que ligaram para os maiores clientes e investidores para tranquilizá-los, após o surgimento de boatos sobre um novo "caso Lehman Brothers no coração da Europa".

Todavia, no final de semana os spreads dos credit default swaps (CDS) do banco, que fornecem aos investidores proteção contra riscos financeiros como a inadimplência, subiram acentuadamente: 25% em um dia. Uma alta acompanhada pelos rumores de dificuldades iminentes ligadas a novas perdas por causa da volatilidade dos mercados. Prejuízos que se somariam aos números negativos já conhecidos e ligados aos escândalos Archegos e Greensill.

Desde o começo do ano, os CDS sobre o Credit Suisse passaram de 55 pontos para 255 pontos. O patamar mais elevado desde 2009, ano em que o mundo enfrentava a grande crise financeira internacional.

Na última sexta-feira, 30, o CEO do banco, Ulrich Körner, tinha tentado tranquilizar os investidores reafirmando que a instituição financeira tinha "capital e liquidez em abundância", mesmo admitindo que está enfrentando uma "fase crítica".

Saiba mais:

“Confio que você não está confundindo nosso desempenho diário do preço das ações com a forte base de capital e posição de liquidez do banco”, escreveu o CEO em um memorando enviado aos funcionários na última sexta, onde salientou que esses boatos poderão perturbar a atividade do banco até o dia 27 de outubro, quando será apresentado um novo plano de reorganização.

Um plano que poderia levar a um corte em até 10% da força de trabalho do Credit Suisse, que tem cerca de 45 mil funcionários no mundo todo, além da criação de uma "band bank" onde alocar os investimentos que tiveram resultados negativos.

O banco suíço já admitiu publicamente estar em processo de revisão de estratégia que inclui a possibilidade de levantar capital e vender ativos. Entre eles, a possibilidade de deixar o mercado norte-americano.

Segundo alguns analistas, como os Kbw, o Credit Suisse precisaria de um aporte de cerca de quatro bilhões de dólares para tentar cobrir os prejuízos acumulados.

No segundo trimestre do ano, o banco registrou um prejuízo de 1,59 bilhões de francos suíços, contra um resultado positivo de 253 milhões de francos de 2021. Uma piora dos resultados, já que primeiro trimestre de 2022 o prejuízo tinha sido de 273 milhões de francos. Os resultados do terceiro trimestre serão divulgados no final de outubro.

O que está acontecendo com o Credit Suisse?

O banco suíço cometeu uma série de erros de gestão nos últimos anos que minaram sua credibilidade, geraram especulações sobre sua possível falência ou até sobre uma possível fusão com o rival UBS.

Dois escândalos, em particular, ocorreram quase um após o outro em 2021 e causaram prejuízos bilionários para o Credit Suisse: o Archegos Capital Managment e o Greensill.

O primeiro caso estourou na primavera de 2021, quando o Archegos, family office do investidor sul-coreano Bill Hwang baseado em Nova York quebrou, gerando um prejuízo de US$ 5,5 bilhões para o Credit Suisse. O family office estava muito alavancado e acabou recebendo uma chamada de margem que gerou sua falência.

Após esse episódio, o banco suíço reduziu os empréstimos para fundos de hedge e prometeu uma reformulação de seu departamento de compliance.

No caso do Greensill, empresa financeira britânica fundada em 2011 especializada em emprestar dinheiro para empresas financiarem suas necessidades de fluxo de caixa, quebrou em outubro de 2021 gerando um prejuízo de US$ 10 bilhões para o Credit Suisse.

Além disso, o capital do banco foi consumido por multas e sentenças judiciais adversas.

Por exemplo, um tribunal das Bermudas ordenou que o Credit Suisse pagasse para um bilionário georgiano mais de US$ 600 milhões por ter permitido que um seu funcionário roubasse e administrasse mal seus recursos.

Em outro caso, um tribunal suíço considerou o Credit Suisse culpado por ajudar uma quadrilha búlgara a lavar dinheiro relacionado ao tráfico de cocaína.