Simpar: small cap vira o jogo com alta de 70% e investimento de R$ 12 bi

Holding que reúne os negócios que antes faziam parte do grupo JSL prepara para 2022 um investimento bilionário para multiplicar a frota da Movida e da Vamos e para ampliar atuação em outros setores
Fernando Simões, CEO da Simpar: investimento para 2022 deve se concentrar na ampliação da frota da Movida e da Vamos (Germano Lüders/Exame)
Fernando Simões, CEO da Simpar: investimento para 2022 deve se concentrar na ampliação da frota da Movida e da Vamos (Germano Lüders/Exame)
Por Bianca AlvarengaPublicado em 20/12/2021 10:30 | Última atualização em 26/12/2021 08:07Tempo de Leitura: 6 min de leitura

Nas mãos da segunda geração da família Simões, a Simpar (SIMH3), holding que reúne os ativos que antes ficavam sob o guarda-chuva da JSL (JSLG3), enfrenta o desafio de toda empresa familiar: o de sobreviver ao tempo. Para perpetuar o negócio por mais longas décadas, a empresa fundada por Julio Simões está passando por um processo de profissionalização.

O plano teve sua etapa mais importante na reorganização societária que transformou a antiga JSL na Simpar, há pouco mais de um ano. A partir de então, a locadora de veículos leves Movida (MOVI3), a locadora de caminhões e máquinas Vamos (VAMO3) e a própria JSL, que agora cuida das operações logísticas, passaram a ser subsidiárias da Simpar. Há, ainda, outros negócios do grupo que não são listados na bolsa, como a CS Brasil e a Original concessionárias.

Para coroar a reorganização, a holding realizou o IPO da JSL em setembro de 2020, e o da Vamos no início de 2021 -- a Movida já havia estreado na bolsa em 2017.

O ano de arrumação de casa passou diferente para as ações do grupo. Enquanto a Simpar avança quase 70% nos últimos 12 meses, Movida e JSL caem 12% e 30%, respectivamente. A Vamos, que ainda não completou seu primeiro ano de operação, sobe 68% desde a abertura de capital.

O desempenho das ações do grupo reflete, segundo Fernando Simões, CEO da Simpar, os efeitos da pandemia sobre os negócios de diferentes segmentos. Na visão do executivo, que também faz parte do conselho de administração das empresas controladas, os preços da bolsa não refletem os investimentos feitos nos últimos anos.

"Investimos mais de 10 bilhões de reais no grupo entre 2019 e 2021, e vamos investir entre 10 e 12 bilhões de reais em 2022 -- serão três anos em um", explicou o executivo. A conta para 2022 não inclui aquisições de novos negócios, estratégia que tem sido um importante vetor de crescimento da Simpar. Ou seja: o número pode ser bem maior.

Para exemplificar o efeito da pandemia, Simões citou o caso da Movida. O aumento dos custos dos combustíveis comprimiu os ganhos dos motoristas de aplicativo, um público que passou a representar boa parte da receita com locação de veículos. Por outro lado, o aumento do preço de peças e de mão de obra encareceu o custo de manutenção frota.

"Eu costumo dizer que um carro desmontado custa três vezes mais que um carro montado", exemplifica ele.

Por outro lado, a paralisação das montadoras diminuiu a oferta de carros no mercado, o que turbinou o preço dos seminovos. Para as locadoras, isso tem um efeito dúbio: ao mesmo tempo em que torna mais rentável a venda dos veículos usados, a falta de carros novos dificulta e encarece a renovação da frota.

Esse é um ponto importante, já que boa parte dos investimentos de até 12 bilhões programados para 2022 será destinada à ampliação da frota das empresas do grupo. No caso da Movida, o dinheiro deve ajudar a multiplicar o número de veículos em duas ou três vezes. Na Vamos, o volume de caminhões e máquinas será multiplicado por seis.

A estratégia é simples: ao mesmo tempo em que os investimentos ampliam a frota e a capacidade de receita das empresas, a compra de veículos ajuda a fortalecer o balanço de ativos. Isso é importante, porque na reorganização societária, algumas empresas, como a JSL, acabaram ficando descontados.

Denys Ferrez, CFO da Simpar, ilustra esse problema em uma conta simples. Na cotação atual, a Simpar está avaliada em pouco mais de 10 bilhões de reais. Olhando para os ativos dentro do guarda-chuva da holding, a conta é a seguinte: a Movida vale 6,4 bilhões, a JSL está avaliada em 2,2 bilhões e a novata Vamos é a mais valiosa,12 bilhões de reais.

É normal que, em casos como esse, o chamado market cap da holding não seja exatamente o valor das empresas controladas, porque sempre há um desconto considerado pelo mercado. Mas o CFO diz que, no caso da Simpar, o desconto parece ser exagerado.

Em um relatório no último dia 13 de dezembro, a área de research do BTG Pactual corroborou essa visão.

Dizem os analistas do banco: "Vemos um desconto exagerado de holding na Simpar após os negócios recentes do grupo. No valuation atual, a Simpar tem um desconto de holding de 27% para o valor justo do equity (incluindo participações relativas em empresas listadas, valuation estimados para as outras três subsidiárias e a dívida líquida da holding), que está acima da média histórica".

Investimentos horizontais

Um dos negócios recentes, e com potencial transformador, foi a incorporação de redes de concessionárias de veículos ao grupo. Essa linha de negócio está representada pela Original Concessionárias, empresa cuja participação da Simpar é de 100%.

Nos últimos dois meses, a Simpar abocanhou 20 lojas do grupo UAB Motors, grupo que ocupa a terceira posição na lista de maiores concessionários do mundo, e mais 14 concessionárias da Sagamar, do grupo Saga -- uma das maiores redes da região Nordeste.

No total, a Original passará a deter 47 concessionárias espalhadas pelo país, e poderá entrar na lista de 10 maiores grupos do setor. O sonho, no entanto, é chegar mais longe: dentro do plano de voo de investimento dos 12 bilhões de reais, uma das metas é transformar a Original na maior plataforma de comercialização de veículos do país.

Ainda que a parte principal do plano de crescimento se concentre na Movida e na Vamos, o crescimento horizontal da Simpar mostra que a empresa quer ir além da gestão de frotas. Recentemente, o grupo venceu as concessões de dois terminais portuários na Bahia e de uma rodovia no Piauí. A área de serviços públicos conta, ainda, com a Ciclus, empresa do grupo que se dedica ao tratamento de resíduos sólidos.

Fernando Simões explica a lógica dessas aquisições que, à primeira vista, parecem não se relacionar com o negócio principal da empresa, o de gestão de veículos e máquinas.

"Escolhemos negócios com base em três critérios: é necessário que tenham uma geração de receita resiliente, que possuam ativos reais e que sejam referência na prestação de serviços em suas indústrias", explica o CEO da Simpar.

De olho nos Correios

Não é segredo que esses mesmos critérios fizeram a Simpar avaliar a compra dos Correios -- isso, claro, caso a privatização da estatal de correspondências e entregas saia do papel. Questionado se essa é uma possibilidade para 2022, Simões desconversa:

"Estamos acompanhando de longe essa questão, porque ainda é preciso esperar o que vem do Congresso".

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