Finanças: especialistas dizem que mais de um cartão de crédito pode, sim, causar endividamento (kieferpix/Thinkstock)
Repórter de finanças
Publicado em 2 de outubro de 2026 às 14h57.
Última atualização em 2 de outubro de 2026 às 17h41.
Durante entrevista ao Flow Podcast, na última quinta-feira, 1º, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que está discutindo com o Banco Central (BC) a possibilidade de proibir que um mesmo banco conceda mais de um cartão de crédito para uma mesma pessoa.
“O povo gasta com mais facilidade no cartão de crédito. E ele só vai ver o rombo no final. Estamos discutindo com o Banco Central. Vamos proibir os bancos de dar mais de um cartão de crédito por pessoa”, disse.
Segundo ele, há a necessidade de fazer uma reformulação na economia brasileira. “Vamos ter que moralizar essa questão de crédito. Não é possível a gente permitir a sociedade se endividar de forma irresponsável. Vamos tentar cuidar disso com carinho”, continuou.
A inadimplência de pessoas físicas no rotativo do cartão de crédito subiu de 65,5% em julho para 66,2% em agosto, segundo dados divulgados pelo Banco Central (BC) nesta terça-feira, 29. O indicador mostra a parcela do saldo de crédito do rotativo que está em atraso, ou seja, mede o valor das dívidas inadimplentes e chegou ao maior nível da série histórica.
A concessão de cartões por um banco passa pela análise de crédito da instituição. E não é difícil encontrar quem tenha mais de um cartão de crédito de um mesmo emissor. Especialistas ouvidos pela EXAME admitem que é mais fácil se endividar quando se tem vários cartões de crédito, mas isso nem sempre é uma regra.
“Nunca existe um único problema para o endividamento. Mas acredito que o excesso de ferramentas e meios de pagamento pode trazer mais complexidade e dificultar a clareza sobre para onde o dinheiro está indo”, comenta Débora Malveira, planejadora financeira.
Um dos perigos que podem surgir é a falsa sensação que uma fatura está pequena, enquanto o consumidor esquece que a outra está enorme.
“Na hora que você concentra todas as suas compras em um único cartão, você tem mais controle, você consegue bater o olho e ter noção de quanto gastou. Se você tem vários cartões é muito mais fácil de você se perder”, destacou Paula Sauer, economista, planejadora Financeira CFP e professora de Economia da ESPM.
Múltiplas cartões, é importante frisar, não significam múltiplas rendas. “As pessoas ficam sempre naquela expectativa de que vai entrar um dinheiro extra para além do recebimento da renda principal. Então em vez de eu colocar o vencimento da fatura para uma data próxima a minha data do recebimento do salário, eu coloco duas datas”, alertou Sauer.
Quando o cartão de crédito é utilizado além da capacidade de pagamento e a fatura não é quitada, essa dívida passa a funcionar como um empréstimo, muitas vezes com juros muito altos. “Por isso, limitar o excesso de crédito pode ajudar a reduzir situações de endividamento, sem necessariamente reduzir o poder de consumo das pessoas”, ressalta Malveira.
Neste sentido, segundo Sauer, o consumidor pode ter somente um cartão de crédito e se endividar da mesma forma. Isso porque o endividamento não está necessariamente ligado à quantidade de cartões, mas sim ao ser visto como um complemento de renda.
"E não só o limite do cartão, mas o limite também do cheque especial viram complementos de renda na visão de muitas pessoas. Na hora de pensar 'qual é a minha renda?', a pessoa pensa o dinheiro que ela recebe, mais o cheque especial, mais o dinheiro do cartão de crédito", afirma.
No caso de múltiplos cartões, o consumidor pode se atrapalhar na hora de somar as diferentes faturas. Mas o descontrole também pode acontecer com a pessoa que tem somente um cartão, um limite alto e superior à sua renda mensal.
"Quando alguém pergunta assim, 'você quer gastar mais do que você ganha?', todo mundo fala que não. 'Você quer ter mais limite no cartão de crédito?', falam que sim, é incoerente."
Por isso, o crédito deve ser usado de maneira estratégica dentro do orçamento, concentrando as despesas variáveis do mês ou parcelando despesas maiores, como uma viagem, desde que essas parcelas já estejam previstas no planejamento.
Caso o consumidor utilize mais de um cartão para não sobrecarregar os pagamentos, as planejadoras orientam que será necessário, sim, um ajuste no fluxo de caixa. “A pessoa precisará se planejar para deixar o dinheiro disponível na data de pagamento da fatura”, comenta Malveira.
Em sua visão, pode haver um impacto inicial nessa adaptação, principalmente para quem hoje distribui os vencimentos entre vários cartões. “Isso pode exigir, por exemplo, reduzir temporariamente o consumo ou reorganizar as datas de pagamento em relação aos recebimentos. Depois desse ajuste, a tendência é que isso passe a fazer parte do orçamento normalmente.”