60% a 6%: O placar do petróleo contra a Petrobras

Ação da maior petrolífera do país não consegue acompanhar valorização da commodity e fica para trás em rali na bolsa
 (NELSON ALMEIDA/AFP via/AFP)
(NELSON ALMEIDA/AFP via/AFP)
Guilherme Guilherme
Guilherme Guilherme

Publicado em 31/05/2022 às 11:50.

Última atualização em 31/05/2022 às 11:59.

Investidores que escolheram as ações da Petrobras (PETR3/PETR4) para surfar na alta do petróleo não poderiam estar mais errados. Enquanto o petróleo já subiu 60% no ano e vem sendo negociado próximo do maior patamar em uma década (acima de US$ 120), a Petrobras não tem entregado muito mais do que seus dividendos. Desconsiderando o pagamento de proventos, os papéis da companhia renderam apenas 6% no período.

Incertezas quanto à capacidade da Petrobras seguir a paridade internacional de preços estão no centro das preocupações -- ainda mais em ano eleitoral. O presidente Jair Bolsonaro, que tenta a reeleição e tem os caminhoneiros como uma de suas bases, já mudou o comando da empresa duas vezes desde março. Caio Paes de Andrade, secretário do Ministério da Economia, foi indicado pelo governo e pode se tornar o terceiro a presidir a Petrobras no ano.

Todas as trocas de presidente tiverem como pano de fundo reajustes de preços de combustíveis. Pressionado dentro e fora do governo, o atual presidente da Petrobras, José Mauro Ferreira Coelho, chegou a alertar a Agência Nacional de Petróleo (ANP) e o Ministério de Minas e Energia sobre a possibilidade de escassez de diesel no segundo semestre -- situação que pode se atenuar com interferências nos preços. 

As ações da Petrobras caíram 7,6% desde a indicação de Paes de Andrade, na noite de segunda-feira passada, 23. A data coincidiu com término do período de direto aos proventos da companhia. Considerando o ajuste no preço das ações, a queda foi de 17%. Já o petróleo subiu mais de 8%, com expectativa de maior demanda da China e tratativas na União Europeia sobre novas sanções à energia russa.

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A performance da Petrobras na bolsa pouco diz sobre seu momento operacional. A companhia aumentou seu lucro líquido em 41% na comparação anual para R$ 44,561 bilhões no primeiro trimestre, superando as estimativas do mercado. Para 2022, a estimativa de analistas do BTG Pactual é de que o dividendo da Petrobras fique próximo de R$ 5 por ação, representando um dividend yield de cerca de 16%. Ainda assim, o banco prefere não recomendar a compra dos papéis -- dado os potenciais riscos políticos.

"Ainda que os mecanismos de governança tenham impedido até agora uma interferência mais direta na forma de fazer negócios, acreditamos que a última troca de presidente reforça nossa visão de que as ações permanecerão altamente voláteis", afirmaram os analistas em relatório. 

As sucessivas mudanças de comando na Petrobras chamou atenção até mesmo de agências internacionais de classificação de risco, como a Moody's, que sugeriu "vigilância apertada" sobre sua governança.

Diante de tamanhas incertezas, parte significativa do mercado tem dado preferência às petrolíferas privadas, que, embora menores, são blindadas das interferências do governo. PetroRecôncavo (RECV3), 3R (RRRP3) e PetroRio (PRIO3) tiveram respectivas altas de 58%, 51,5% e 39% desde o início do ano.

Por outro lado, analistas veem como descontada cotação atual da Petrobras, atualmente próxima de R$ 30. A mediana do preço-alvo de 11 analistas levantada pela plataforma TradeMap está próxima de R$ 38.

Até mesmo o BTG, que tem recomendação neutra, vê as ações como depreciadas, com preço-alvo de R$ 41 para 12 meses. Para a Petrobras alcançar esse nível, porém, analistas esperam mais da política interna e continuação da melhora operacional do que do preço do petróleo.