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Avenida Brasil: novela é uma das mais icônicas da TV Globo (Globo/Reprodução)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 22 de agosto de 2026 às 07h01.
A Globo levou dois anos para aposentar um sistema de gestão contratual usado havia mais de uma década — um projeto que a emissora tentava, sem sucesso, executar havia pelo menos cinco anos.
A nova plataforma, construída em parceria com a consultoria de tecnologia Prezensa, agora processa o pagamento de direitos de imagem de mais de 340 novelas produzidas em 60 anos de operação, com conteúdo exportado para mais de 100 países, segundo informações enviadas com exclusividade à EXAME.
O desafio técnico tinha um limite rígido: nenhum pagamento a talentos poderia atrasar, nenhum contrato poderia se perder e nenhuma integração poderia falhar durante a transição. "A gente estava dentro da operação da Globo, absorvendo a complexidade em tempo real, tomando decisões que impactavam diretamente a remuneração de artistas", afirma Erick Dutra, Tech Lead da Prezensa.
Segundo a consultoria, cada módulo da nova plataforma só chegava ao ambiente real depois de validação exaustiva em ambiente isolado, já que não havia janela disponível para testar diretamente no sistema em uso.
O trabalho avançou por sprints organizadas por criticidade, começando por entregas como a Carta de Direitos — documento eletrônico com o detalhamento dos valores devidos a cada talento por produção — e a automação da importação de verbas de remuneração adicional, processo até então feito manualmente.
A partir daí, a equipe avançou para camadas mais sensíveis da estrutura, como gestão de contratos de longo prazo e prazo indeterminado, segregação de contratos de autônomos, automação de bloqueios contratuais e integração com o sistema de gestão empresarial (ERP) da emissora para requisições de compra.
O projeto foi concluído com a criação de uma base unificada de contratos, que passou a ser a referência única do histórico financeiro da Globo — encerrando a dependência do sistema antigo.
Paralelamente à modernização do sistema, a Prezensa desenvolveu uma prova de conceito que aplica inteligência artificial (IA) diretamente sobre o conteúdo exibido pela emissora.
A ferramenta usa reconhecimento facial para identificar o tempo exato de aparição de cada talento em um episódio, calcular o valor correspondente e registrar o dado automaticamente — reduzindo a dependência de lançamento manual e o risco de contestações.
Outra frente usa IA para ler e validar os créditos exibidos na tela, cruzando diretores, atores e equipe técnica com os vínculos contratuais de cada profissional.
A consultoria também criou uma IA capaz de interpretar contratos e responder perguntas sobre cláusulas, prazos e partes envolvidas, além de um assistente que opera em tempo real dentro do próprio sistema para agilizar a consulta a contratos atuais e antigos.
Parte da equipe alocada no projeto veio do DevLand, programa da Prezensa que forma desenvolvedores no início de carreira para atuar em operações de alta complexidade.
Uma delas foi Maria Eduarda Santos, que ingressou no programa sem experiência corporativa prévia, participou das entregas do projeto com a Globo e depois foi contratada pela própria emissora.
"Antes desse trabalho eu tinha muito medo até de sair de casa. A primeira viagem de avião da minha vida aconteceu por causa de um evento da iniciativa", afirma Maria Eduarda.
Para Fernanda Maia, coordenadora de Soluções de Gestão de Talentos da Globo, o projeto foi além da entrega técnica. "Profissionais atuando em sintonia com o time que já era do projeto, contribuindo tecnicamente no mesmo nível dos demais e principalmente trazendo a camada de diversidade que é tão importante para o negócio", diz.