Carrapatos: pesquisadores identificaram um novo vírus em pacientes e em animais coletados na China. (Freepik)
Redatora
Publicado em 30 de setembro de 2026 às 16h31.
Cientistas identificaram na China um novo vírus transmitido por carrapatos capaz de infectar humanos. Chamado de nairovírus do carrapato asiático de chifre longo (ALTNV), o patógeno foi encontrado em pacientes com sintomas como fadiga, problemas gastrointestinais e alterações nas plaquetas.
A descoberta, feita por pesquisadores do Laboratório Estatal de Patógenos e Biossegurança de Pequim, ocorreu durante uma investigação sobre casos de pessoas com sinais compatíveis com uma doença transmitida por carrapatos, mas que apresentavam resultado negativo para o Dabie bandavirus (DBV).
Entre os 3.163 pacientes analisados, 10,4% apresentaram evidências de infecção pelo ALTNV. A proporção chegou a 15,1% entre aqueles que tiveram resultado negativo para DBV. O estudo foi publicado no início de setembro no New England Journal of Medicine.
O DBV é responsável pela síndrome de febre grave com trombocitopenia (SFTS), doença potencialmente fatal registrada em países asiáticos.
A trombocitopenia ocorre quando a quantidade de plaquetas no sangue fica abaixo do normal. Essas células participam do processo de coagulação. Segundo os pesquisadores, cerca de 30% dos pacientes com sintomas sugestivos de infecção pelo DBV apresentavam resultado negativo para o vírus.
Para investigar o que poderia estar por trás desses casos, a equipe coletou amostras de pessoas picadas por carrapatos atendidas em hospitais sentinela de regiões chinesas onde esses patógenos circulam. Por meio de sequenciamento de RNA e isolamento viral, os cientistas detectaram o ALTNV.
As análises genéticas classificaram o novo patógeno no gênero Orthonairovirus, da família Nairoviridae. Suas proteínas apresentaram menos de 80% de similaridade de aminoácidos com as de outras espécies do mesmo gênero.
A equipe também conseguiu cultivar o vírus em células de laboratório. Outras análises confirmaram características típicas dos ortonairovírus e mostraram sua capacidade de se replicar em diferentes tipos celulares.
Entre os pacientes infectados apenas pelo ALTNV, 84% apresentaram fadiga e 80% tiveram problemas gastrointestinais.
A trombocitopenia apareceu em 38% dos casos. Outros 36% apresentaram níveis elevados de aminotransferases, alteração que pode estar relacionada a inflamação ou lesão do fígado ou de outros tecidos.
Segundo o estudo, os pacientes infectados somente pelo ALTNV se recuperaram completamente. O cenário foi diferente entre pessoas que também estavam infectadas pelo DBV.
Os pesquisadores encontraram 38 pacientes infectados simultaneamente pelo ALTNV e pelo DBV. Nesse grupo, sintomas respiratórios foram registrados em 61% dos pacientes. Entre aqueles infectados somente pelo DBV, a proporção foi de 38%.
A insuficiência renal também apareceu com maior frequência: 84% entre os coinfectados, contra 66% no grupo com apenas DBV. Dos 38 pacientes com as duas infecções, sete morreram, o equivalente a 18,4%.
O estudo destaca que os dados mostram uma associação entre a coinfecção e manifestações mais graves, mas não estabelecem, por si só, que o ALTNV tenha sido responsável pelo agravamento.
Além das amostras humanas, os cientistas analisaram 47.428 carrapatos coletados em 15 províncias chinesas. O RNA do ALTNV foi detectado em 1,3% deles.
A maior proporção apareceu na espécie Haemaphysalis longicornis, conhecida como carrapato asiático de chifre longo. Nesse grupo, 1,8% dos testes foram positivos.
Experimentos de laboratório forneceram evidências adicionais sobre a transmissão. Carrapatos dessa espécie conseguiram transmitir o ALTNV para camundongos.
Como ALTNV e DBV circulam nas mesmas regiões e compartilham um vetor, os pesquisadores destacam a importância de diferenciar as duas infecções em locais onde a SFTS é endêmica.
Os resultados também ajudam a explicar parte dos casos de pacientes com sintomas compatíveis com doenças transmitidas por carrapatos que anteriormente não tinham o DBV identificado.