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Próxima FTX? Investidores reagem com medo a novidades sobre empresas cripto

Gemini, DCG, Binance, Coinbase e Houbi movimentaram mercado recentemente, mas analistas apontam cenários diferentes

Setor de criptoativos passou por grandes falências em 2022 (Yuichiro Chino/Getty Images)

Setor de criptoativos passou por grandes falências em 2022 (Yuichiro Chino/Getty Images)

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João Pedro Malar

15 de janeiro de 2023, 09h00

O setor de criptoativos precisou lidar com uma série de falências de grandes empresas do segmento em 2022, indo da FTX até o ecossistema Terra e o fundo de investimento Three Arrows Capital, e os investidores ainda parecem ter algumas cicatrizes dessas experiências, como mostram as reações ao noticiário sobre outras companhias importantes no mercado.

Desde a quebra da FTX, por exemplo, outras exchanges passaram a lidar com problemas de confiança por parte dos seus clientes e retiradas significativas de fundos. Além disso, o próprio cenário macroeconômico negativo facilita o surgimento de problemas financeiros que, quando são revelados, geraram novos movimentos de fuga.

Entre o fim de novembro e os primeiros dias de 2023, gigantes do mercado como a corretora de criptoativos Binance, a Gemini, o Digital Currency Group (DCG), a Houbi e a Coinbase precisaram fazer declarações públicas para acalmar o mercado e evitar enxurradas de saídas de investimento como a que vitimou a FTX.

Para especialistas consultados pela EXAME, porém, o cenário agora é diferente do de novembro de 2022, por mais que algumas dessas empresas sejam alvos maiores de preocupações que outras.

Briga entre Gemini e DCG

Uma das principais preocupações atuais do mercado é a briga entre a plataforma de negociação de criptoativos Gemini e o Digital Currency Group (DCG), o maior conglomerado do mercado. Uma das empresas do grupo, a Genesis, se tornou o centro do problema.

Tudo começou quando a Gemini lançou o serviço “Earn”, uma espécie de renda fixa, em que seus clientes depositavam criptos e davam permissão para a empresa usá-las em operações com rentabilidade. No caso, os fundos foram destinados à gigante de empréstimos Genesis.

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Com a falência da Luna e depois da FTX, porém, a empresa passou a ter sérios problemas financeiros, e se viu obrigada a congelar saques. Desde então, os 340 mil clientes da Gemini que participavam do programa não conseguem resgatar seu dinheiro. A partir daí, os CEOs da Gemini e do DCG passaram a trocar cartas públicas acusando um ao outro de inação.

João Zecchin, sócio-fundador da Fuse, explica que o DCG está tentando solucionar a questão ao propor um desconto da dívida com a Gemini e realizar o pagamento, e que “soluções mais institucionais” parecem ser o mais provável no momento, já que ambas as empresas são “bem institucionais”.

Porém, Samir Kerbage, CPO da Hashdex, pondera que as duas empresas de criptoativos estão tendo fortes danos reputacionais com a confusão, e precisam lidar agora com uma investigação nos Estados Unidos sobre o tema e possíveis processos por parte da Comissão de Valores Mobiliários do país, a SEC.

“A situação vai se complicando cada vez mais, especialmente quando entram os reguladores. Há poucas informações precisas sendo divulgadas pela Genesis, mas parece estar em situação de crise de liquidez ou insolvência, sem conseguir processar resgates, e está tentando captar dinheiro para evitar falência, mas isso está mais difícil a cada dia que passa, especialmente com uma investigação”, ressalta.

Para ele, um pedido de falência da Genesis é provável, mas ainda não está claro como isso afetaria o próprio DCG, já que as duas empresas trocaram empréstimos. Mesmo assim, ele avalia que “é um problema de estrutura de mercado, dos participantes, mas para o mercado de cripto não afeta os fundamentos e nem deve ter impacto grande em preço”, como ocorreu com a FTX.

Binance

Outra gigante que passou por momentos difíceis com o mercado é a Binance, maior corretora de criptoativos do mundo. Em menos de 60 dias, a empresa já teve mais de R$ 60 bilhões sacados por clientes, mas o CEO da exchange, Changpeng Zhao, atribui o movimento ao “FUD”, termo que resume ações de investidores baseadas em medo por boatos, algumas vezes infundados, e ressaltou que a empresa conseguiu cobrir todas as saídas.

A desconfiança geral contra corretoras após a falência da FTX foi piorada por episódios como notícias de um possível processo contra a Binance nos Estados Unidos e o encerramento das operações da empresa que realizou a primeira auditoria de comprovação de liquidez da exchange.

Kerbage observa que “é difícil saber a real situação porque a Binance é muito pouco transparente, mesmo quando divulgou provas de reservas, não é suficiente para ter um conforto sobre a solvência”. Ele acredita que ainda há uma falta de transparência e regulação que são ruins, e que tornam a empresa “motivo de preocupação”.

Uma possível quebra da corretora de criptoativos, porém, teria “um impacto bem maior no mercado” que o de outras empresas que atualmente geram preocupação: “ela é a maior fonte de liquidez no mercado. Seriam perdas relevantes, e pode ser um evento que afetaria o preço de cripto no curto prazo, mas não no longo prazo por não afetar fundamentos”.

Zecchin, da Fuse, pondera que é difícil saber exatamente o que acontece com a Binance, mas a exchange “se beneficiou monstruosamente da quebra do seu maior competidor”. Por isso, ele vê mais um receio dos investidores em deixar o dinheiro depositado na empresa do que um problema fundamental verdadeiro na Binance, que “está em uma posição super boa, mesmo tendo seus próprios desafios”.

Outras corretoras de criptoativos

E a Binance não foi a única corretora de criptoativos que afirmou estar sendo vítima de FUD nos últimos dias. A Huobi, uma das principais exchanges da Ásia, acumula uma retirada total de US$ 94,2 milhões em sete dias após rumores de que ela poderia estar com problemas financeiros e de insolvência.

Assim como na Binance, o CEO da empresa associou o fluxo ao FUD, e também depositou seus próprios fundos na exchange como forma de sinalizar confiança no projeto. Zecchin avalia, porém, que a ação também aponta uma “necessidade de estar precisando de dinheiro, e portanto está perdendo ele em algum lugar”.

Kerbage, da Hashdex, diz ainda que é difícil saber o que está acontecendo exatamente na empresa pela falta de transparência, mas uma quebra dela teria um “impacto bem menor” que o da FTX ou da Terra/Luna.

Nos Estados Unidos, a Coinbase – maior corretora de criptoativos do país – enfrenta não apenas um fluxo de retirada pelos investidores, mas também fortes quedas em suas ações, negociadas na bolsa de Nasdaq.

Zecchin explica que a desconfiança do mercado em relação á exchange aumentou quando ela não comprovou que tinha a quantidade de bitcoins necessários para lastrear a paridade do ativo com o Grayscale, maior fundo de bitcoin do mundo e operado pela DCG.

Com isso, a liquidez da companhia passou a ser questionada, mas Kerbage opina que “por estar nos EUA, listada em bolsa, sujeita a vários tipos de regulação, tem um nível de transparência e obrigações muito maiores. O FUD parece ser infundado. Tem ativos segregados, balanços auditados, estrutura de dívida pública, não tem muito fundamento”.

Há motivos para preocupação?

O CPO da Hashdex avalia que o período tem sido “difícil para todas as exchanges. As receitas caíram bastante, e agora estão focadas nos ajustes que estão fazendo, com demissões, para se ajustar a esse cenário”.

A situação reflete um “efeito de desalavancagem” pelo qual o mercado, não apenas de criptoativos, precisa passar desde 2022, conforme os juros nos Estados Unidos começaram a subir e a liquidez, e crédito, ficaram escassos. Com isso, empresas mais vulneráveis, em especial com práticas ruins de mercado, acabam quebrando.

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“Quando a liquidez global secou, afetou os players de risco, e quem está alavancado passa por dificuldades, é algo normal e que acontece em outros setores. A diferença é que, por não serem regulados, exigindo mais transparência e controle, houve uma manifestação de completa falta de políticas de risco, fraudes, foi essa pimenta adicional, de players imprudentes ou até criminosos”, ressalta.

Isso acabou gerando um “clima de FUD” que se espalhou para todos os grandes agentes da indústria, já que “ninguém sabe a real situação das empresas”. Ele lembra ainda que é natural que os investidores cheguem ao “auge do desespero e capitulação” no fim de ciclos de baixa, como o atual, mas o pico do medo já parece ter sido atingido e está passando, como sinalizado pela valorização recente de criptoativos.

Kerbage ressalta ainda que o cenário, mesmo que traga novas quebras, não afeta a tese de investimento em torno desses ativos, e ainda pode trazer, como efeito positivo, uma regulação do segmento, ajudando a aumentar a demanda.

Zecchin também vê um nível elevado de medo nos investidores: “Está todo mundo assustado. É um mercado que caiu 70%, várias empresas quebraram e passou por várias crises. Mas as pessoas ficam com medo quando veem que estão fazendo besteira, e aí param de fazer besteira e se alinham com como o mercado deveriam operar”.

Ele acredita que a pior parte dos choques das falências em 2022 já passou, e que novas quebras ocorreriam em corretoras de criptoativos “regionalizadas, menores, com poder de contágio pequeno”. A única exceção seria a Binance, mas ele não aposta em uma falência da empresa no momento.

“As pessoas acabam aprendendo tomando choque de mercado. Elas aceitaram e se ajustaram, mas 2023 ainda deve ser um ano mais devagar, mesmo que não tenha tantas quebras como em 2022. É difícil ser um ano em que os criptoativos subam muito, as pessoas estão desconfiadas e o ambiente macro está desafiador para cripto. Mas vai ser de construção, e isso ajuda no preço”, projeta.

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