Criptoativos mudarão mais o mundo do que a Internet, diz CEO da BLP Asset

Glauco Cavalcanti conta sua história com o bitcoin e projeta o futuro do mercado cripto em artigo para o especial 'Perspectivas 2021'

Minha atração pelo bitcoin surgiu apenas em 2017, mas foi em 2015 ouvi sobre ele e a tecnologia blockchain pela primeira vez. Mesmo para mim, que venho da área de computação, era um assunto complexo e quase sempre ligado a teses libertárias ou atividades ilícitas. Então, em um primeiro momento, não dei muita atenção. Além disso, ouvi péssimos conselhos de amigos, que diziam para não investir nisso.

Em junho de 2017, meus atuais sócios vieram me “catequizar” e. então. eu comecei a prestar atenção e entender sobre o assunto. Melhorei meu conhecimento, mas ainda não queria me meter em algo que talvez fosse, digamos, “não tão ilícito”, algo “na fronteira” da ilegalidade.

Foi nesse momento que eu descobri que um dos grandes detentores de bitcoin do mundo, por um tempo, foi o FBI. Sim, o Departamento Federal de Investigação dos Estados Unidos, que prendeu alguns contraventores digitais (como os criadores do site da deep web Silk Road) e confiscou seus bitcoins.

Sabemos que quando a polícia confisca bens ilícitos como drogas, por exemplo, eles são incinerados. No caso dos bitcoins, o FBI vendeu em um leilão. Quem comprou grande parte disso foi Tim Draper, famoso investidor do Vale do Silício. Então eu pensei: se o FBI pode vender, então eu posso comprar.

Neste mesmo dia, comprei meus primeiros bitcoins. Chamei os dois amigos e falei que iríamos montar o primeiro fundo de criptoativos (não só bitcoin) do Brasil na BLP e assim fizemos. Montamos um fundo de investimento para buscar, em cada uma das “funções-utilidades”, os ativos digitais que acreditamos que serão os vencedores em suas respectivas categorias. Fizemos um fundo como se fosse um fundo de ações convencional, com uma gestão ativa, conhecido como “Long-Only Value” e o fundo completa agora em dezembro três anos de existência.

A minha perspectiva para 2021 é muito positiva. Listo, abaixo, os pontos que acho relevantes e dignos de nota para o futuro do setor:

(1) As condições econômicas que inspiraram o bitcoin com a grande crise de 2008, como o QE (Quantitative Easing – ou a livre emissão de dinheiro), o fim dos juros reais no planeta e a grande mudança de realidade na política monetária mundial, estarão em 2021 ainda mais presentes, como nunca imaginamos.

(2) A regulação, nas suas três dimensões — Fiscal, Financeira e dos Mercados de Capitais — já mostrou, variando de país para país, que entendeu que as mudanças não apenas são inexoráveis, como poderão ser construtivas, mesmo para o atual “establishment”. Em 2021 seguirá fortalecendo e tornando o ambiente regulatório mais claro e seguro

(3) A tecnologia seguirá avançando no hardware em seus três pilares: processamento, armazenamento e, principalmente, devido ao lançamento do 5G, as telecomunicações, viabilizando, assim, o “ovo de colombo” que foi o blockchain.

(4) A tecnologia seguirá avançando também no software, com cada vez mais desenvolvedores no ecossistema, produzindo códigos úteis e cada vez melhores, como, por exemplo, o projeto do Ethereum 2.0, que se propõe a ser o grande computador mundial onde os smart-contracts (contratos inteligentes) rodarão como os novos apps.

(5) Muitos projetos, principalmente os chamados DeFi (Decentralized Finance, ou finanças descentralizadas) e Dapps (Decentralized Applications, ou aplicação descentralizadas) começarão a atrair a atenção das empresas da “atual economia”, como bolsas de valores e bancos, que já perceberam que negociações de ativos digitais e empréstimos podem ser feitos de forma simples através de um programa, ou seja, um blockchain descentralizado, sem risco de crédito, fraudes, erros ou liquidação e, adicionalmente, com custos baixíssimos

(6) As exchanges e companhias de custódia de ativos digitais de forma geral se consolidarão em 2021 como grandes empresas, protagonistas deste novo mundo, como a Coinbase, que neste mês anunciou seu IPO com perspectiva de valor de mercado superior a 20 bilhões de doláres

(7) Empresas como o PayPal, que em 2020 passou a transacionar bitcoin e criptoativos, pavimentarão a infraestrutura necessária para a maior adoção e uso das criptomoedas.

(8) ETFs de criptoativos surgirão nas “bolsas convencionais”.

(9) Investidores institucionais, como Fundos de Pensão, Seguradoras, Endowments e Fundos Soberanos, entrarão de verdade neste mercado — alguns até já declararam pequenos investimentos em 2020 — uma vez que já surgiram custodiantes como a Fidelity, um dos maiores gestores de recursos do mundo, que dispensa maiores apresentações, permitindo que eles invistam em ativos digitais para valer.

Não vou me arriscar em falar em preço do bitcoin, ether, XRP, EOS, litecoin, maker, chainlink, monero, uniswap ou quaisquer outras. Mas posso dizer que acredito que a volatilidade seguirá diminuindo em 2021 — mas ainda muito atraente para os traders de plantão —, apesar de acreditar que o verdadeiro ganho ainda está no longo prazo.

Enfim, esta é a Internet 3.0 surgindo e compreender esse fenômeno é bem mais complicado do que foi compreender a Internet 1.0 ou 2.0. Na década de 90, eu diria para você: “Seu computador vai se ligar no computador da livraria, você vai receber uma foto do livro, inserir seu cartão de crédito (acredite, você terá coragem) e receberá em três dias seu livro pelo correio”. Muitos de nós rapidamente entenderam que o mundo mudaria mas veja que as ações da Amazon (ou Google, do Facebook, da Apple, etc.) somente chegaram no topo em 2020. Então, como se vê, as coisas demoram para serem refletidas no preço dos ativos. Compreender a mudança que vem por aí é bem mais difícil desta vez, e a mudança será bem maior agora.

Convido você a ler e ouvir muito mais do que as frases explicativas sobre internet 1.0 acima. Além da desintermediação e ganhos de produtividade que a Internet trouxe, os ativos digitais aprofundarão ainda mais esses temas, mas adicionarão, principalmente, mudanças dos conceitos sobre propriedade, representatividade, segurança, transparência, política e governança, de forma nunca antes vistas.

Essa é a boa notícia para os novos investidores: ainda existe pouca gente no mundo que investe em ativos digitais. Esse novo mundo ainda está apenas no início.

Glauco Cavalcanti é fundador e CEO da BLP Asset desde 2010. Anteriormente, trabalhou desde 1989 no Banco Garantia/Credit Suisse, na Tesouraria do banco e depois como CIO no Asset Management. É formado em Ciência da Computação pela PUC/RJ.

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