CEO da Binance ignora dados que indicam recessão nos EUA: "Isso não existe em cripto"

CEO da maior corretora de criptomoedas do mundo faz afirmação polêmica ao negar existência de recessão econômica no setor; especialistas comentam o caso
Changpeng Zhao é o CEO da Binance (Binance/Divulgação)
Changpeng Zhao é o CEO da Binance (Binance/Divulgação)
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Mariana Maria Silva

Publicado em 29/07/2022 às 16:52.

Última atualização em 29/07/2022 às 17:28.

O anúncio da queda de 0,9% no produto interno bruto (PIB) dos Estados Unidos não só pode ter ajudado a impulsionar o movimento de alta recente das criptomoedas mas também gerou uma série de discussões entre especialistas de economia e tecnologia blockchain. Todos eles tenham um tema em comum: recessão.

Os dados revelados na quinta-feira, 28, colocam os EUA em uma posição complicada de recessão técnica e anunciam a desaceleração da maior economia do mundo. Neste cenário, muitos entusiastas das criptomoedas propõem que o setor não sofreria do mesmo.

Changpeng Zhao, o CEO da maior corretora cripto do mundo, chamou a atenção ao manifestar a mesma opinião:

“Isso não existe... em cripto”, publicou o CEO da Binance.

No entanto, especialistas apontam que o mercado de criptomoedas não estaria imune aos impactos de uma possível recessão econômica. Nicholas Sacchi, head de research do BTG Digital Assets, aponta que os ativos digitais já respondem a eventos que impactam o nível de liquidez das principais economias do mundo, como o aumento da taxa de juros nos Estados Unidos.

“O setor cripto não está blindado desse ciclo. Afinal, assim como em qualquer outro setor, são agentes econômicos, como empresas e indivíduos que alocam capital financeiro e intelectual buscando desenvolver o nível de expansão desse mercado. Se o cenário econômico muda, também mudam as decisões desses agentes”, pontuou Sacchi.

(Mynt/Divulgação)

Já Arthur Mota, economista do BTG Pactual, explica do ponto de vista dos mercados tradicionais que, apesar de tornarem o cenário econômico global mais desafiador, as notícias mais recentes sobre a economia americana ainda não caracterizam um quadro oficial de recessão.

“Apesar do PIB americano ter recuado por dois trimestres seguidos, o que acaba popularmente sendo configurado como uma recessão técnica, não consideramos o primeiro semestre como um semestre recessivo. Isso vai em linha com as metodologias da NBER, o comitê que data ciclo econômico nos EUA, que utiliza outras informações, como dados de consumo e mercado de trabalho para essa avaliação”, disse Mota em entrevista à EXAME.

O especialista prevê que uma recessão formal poderá se desenvolver em 2023, motivando a redução na exposição aos ativos de risco como ações e criptomoedas por parte de investidores. Isso poderia ocorrer caso o mercado de trabalho dos Estados Unidos demonstre sinais de desaceleração, o que não seria o caso agora.

“Vimos números positivos nos primeiros seis meses [de 2022], em especial no mercado de trabalho, com quase duas vagas abertas para cada trabalhador desempregado”, revelou.

Caio Villa, diretor de investimentos da Uniera, pontuou que o mercado de trabalho no setor de criptomoedas continua aquecido, com uma grande quantidade de vagas e oportunidades para recolocação após uma série de corretoras terem realizado demissões em massa. No entanto, discorda de Changpeng Zhao, CEO da Binance: “depende para quem [não existe recessão]”.

Ainda nos aspectos técnicos da tecnologia blockchain, a possibilidade de uma recessão acometer o setor não é absolutamente remota. “Se olharmos para a própria política de emissão de novos bitcoins, apesar de novas unidades não serem criadas de acordo com o momento econômico, existe a hipótese de que os ciclos de queda na recompensa do subsídio da mineração, conhecidos como halving, influenciam na decisão dos participantes do mercado”, apontou Nicholas Sacchi, head de research do BTG Digital Assets.

No entanto, apesar do caráter negativo do aumento na inflação e a possibilidade de um quadro econômico recessivo, o mercado de criptomoedas pode se desenvolver durante esta fase. É o que aponta Alexandre Ludolf, diretor de investimentos da QR Asset Management: “A dinâmica inflacionária e geopolítica leva a maior adoção em cripto”

“O bitcoin em especial tem menor correlação com dinâmicas inflacionárias e, apesar dos preços deprimidos no setor, temos visto um florescimento desta classe de ativos, o arcabouço regulatório global está mais claro e cada vez mais produtos e soluções sendo desenvolvidas no setor”, acrescentou Ludolf, em entrevista à EXAME.

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