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Os resultados obtidos pelo programa Florestas do Futuro, da Fundação SOS Mata Atlântica, são uma evidência prática de que a restauração florestal deve ser tratada como política estratégica (Bússola/Divulgação)
Redação Exame
Publicado em 21 de fevereiro de 2026 às 16h00.
*Por Rafael Bitante Fernandes e Tainá Sterdi
Quando se fala em recuperar a Mata Atlântica, o mais devastado dos biomas brasileiros, costuma-se imaginar um esforço lento, caro e de resultados incertos.
Mas duas áreas recém-restauradas em São Paulo mostram que essa percepção está ultrapassada. No Haras Maripá, em Jaguariúna, e no Sítio Santa Bárbara, em Joanópolis, mais de 56 hectares de florestas nativas voltaram a existir – com 133 espécies plantadas e cumprimento integral dos Termos de Compromisso de Recuperação Ambiental (TCRAs) – em metade do tempo previsto pela Cetesb, que estabelece até 20 anos para esse tipo de processo.
Os resultados obtidos pelo programa Florestas do Futuro, da Fundação SOS Mata Atlântica, são uma evidência prática de que a restauração florestal deve ser tratada como política estratégica para o país, conectando conservação, segurança hídrica, adaptação climática e desenvolvimento econômico.
No Haras Maripá, área pressionada pela expansão urbana, a restauração atingiu os parâmetros técnicos em apenas cinco anos. O plantio adensado, o manejo intensivo e o compromisso dos proprietários permitiram recuperar 11 nascentes e formar um fragmento florestal significativo num território antes dominado por pastagens.
Já no Sítio Santa Bárbara, às margens do Sistema Cantareira, o ciclo de restauração levou dez anos, mesmo com desafios como solo degradado, gramíneas invasoras e alta incidência de formigas cortadeiras. O esforço valeu a pena: hoje, a área funciona como proteção natural de um dos reservatórios que abastecem milhões de paulistas.
Esses resultados são fruto de arranjos inteligentes, que envolvem sociedade civil organizada, proprietários rurais, iniciativa privada e poder público. A possibilidade de concentrar inúmeras pequenas compensações ambientais numa única área proporcionou ganhos ecológicos reais e escaláveis.
Foi esse modelo que influenciou políticas estaduais e inspirou o Programa Nascentes, mostrando que inovação institucional importa tanto quanto a técnica. E é justamente por isso que o país precisa olhar com atenção para o que esses exemplos revelam.
Em primeiro lugar, mostram que a restauração florestal já é uma atividade madura, capaz de entregar resultados estruturantes: recompor vegetação, restaurar funções ecológicas, melhorar a qualidade da água, proteger nascentes, criar corredores de biodiversidade e gerar empregos verdes na economia local.
No entanto, florestas restauradas não podem ser uma moeda de troca em relação às florestas maduras.
Fragmentos de florestas são “santuários” da biodiversidade e serviços ecossistêmicos e devem ser preservados – em especial em um bioma tão ameaçado como o da Mata Atlântica. Ou seja, a conservação deve andar ao lado da restauração.
Além disso, evidenciam que a escala é possível. Desde sua criação, o Florestas do Futuro – TCRA já plantou 1,63 milhão de mudas em 674 hectares, com dezenas de áreas em diferentes estágios de recuperação.
Em um país que enfrenta eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, expandir iniciativas como essa significa ampliar a capacidade de adaptação dos territórios.
Por fim, mostram que restaurar florestas é também uma forma de reduzir a insegurança jurídica e mitigar os riscos dos negócios para empresas e pessoas físicas que precisam cumprir obrigações ambientais.
Quando existe uma estrutura confiável, auditável e capaz de comprovar resultados, todos ganham: o Estado, o setor produtivo e, sobretudo, a sociedade.
O Brasil tem compromissos ambientais ambiciosos, tanto nos acordos internacionais quanto nas legislações nacionais. Mas metas não se cumprem sozinhas.
Para transformar restauração em política de desenvolvimento, precisamos fortalecer programas estruturados, criar ambientes regulatórios estáveis, ampliar instrumentos de financiamento e incentivar proprietários rurais a aderir a modelos de recuperação que tragam benefícios ambientais , econômicos e sociais.
Os resultados alcançados em Jaguariúna e Joanópolis mostram que os benefícios da restauração florestal podem começar a se materializar em menos tempo do que geralmente se imagina.
No entanto, isso demanda coordenação, técnica, compromisso e visão de longo prazo. A Mata Atlântica, que já perdeu mais de 80% de sua cobertura original, não pode esperar mais décadas por oportunidades como essa.
*Rafael Bitante Fernandes é gerente Restauração Florestal da Fundação SOS Mata Atlântica e Tainá Sterdi é coordenadora.