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Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026: organização vai produzir 2,4 milhões de m³ de neve artificial para garantir as competições (picture alliance / Colaborador/Getty Images)
Redação Exame
Publicado em 7 de fevereiro de 2026 às 14h13.
Última atualização em 7 de fevereiro de 2026 às 14h14.
As mudanças climáticas vêm alterando de forma estrutural a realização dos Jogos Olímpicos de Inverno. Na edição de 2026, em Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina, na Itália, 85% da neve utilizada nas competições será produzida artificialmente, segundo dados do Instituto Talanoa divulgados pela Agência Brasil.
Para viabilizar as provas, os organizadores planejam produzir cerca de 2,4 milhões de metros cúbicos de neve artificial, processo que exigirá aproximadamente 946 milhões de litros de água.
Para efeito de comparação, esse volume equivale a transformar o Maracanã, no Rio de Janeiro, em um grande reservatório preenchido até um terço de sua capacidade.
A infraestrutura montada para garantir as pistas inclui a instalação de mais de 125 canhões de neve em localidades como Bormio e Livigno, apoiados por grandes reservatórios de água situados em áreas de altitude.
A dependência de tecnologia para a geração de neve não é inédita, mas tem se intensificado ao longo das últimas edições dos Jogos. Em Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, cerca de 80% da neve foi artificial. Em Jogos Olímpicos de Inverno de PyeongChang, esse percentual subiu para 98%, enquanto em Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim todas as competições ocorreram com neve produzida por máquinas.
Mesmo com o avanço tecnológico, o número de locais considerados climaticamente confiáveis para sediar os Jogos de Inverno vem diminuindo de forma acelerada. Entre 1981 e 2010, 87 localidades no mundo atendiam a esse critério. Nas projeções para a década de 2050, esse total cai para 52, e pode chegar a 46 em 2080, mesmo em um cenário intermediário de redução das emissões de gases de efeito estufa.
O encurtamento dos invernos, as temperaturas mais elevadas e a maior instabilidade climática dificultam a manutenção da neve e aumentam a incerteza para competições ao ar livre. Esses efeitos fazem parte de transformações mais amplas no sistema climático global.
Observações por satélite indicam que a extensão do gelo marinho no Ártico permanece abaixo da média histórica. Em setembro de 2012, foi registrada a menor área já observada, com 3,8 milhões de km². Em 31 de dezembro de 2025*, a extensão chegou a 12,45 milhões de km², ainda inferior ao padrão do período entre 1991 e 2020.
Segundo o Instituto Talanoa, os impactos vão além do esporte. A neve atua como um reservatório natural de água, liberando-a de forma gradual ao longo do ano. A redução da neve natural compromete a vazão dos rios, pressiona reservatórios, afeta o turismo de montanha e provoca desequilíbrios em ecossistemas adaptados ao frio, com reflexos diretos sobre economias locais e modos de vida.
Criados em 1924, nos Alpes franceses, os Jogos Olímpicos de Inverno surgiram em um contexto de abundância de neve natural. Tradicionalmente, as sedes se concentraram em áreas montanhosas e de altas latitudes, como os Alpes europeus, o Canadá, os Estados Unidos e o norte da Ásia.
Um século depois, os dados indicam que, sem o uso de máquinas, canhões de neve e grandes volumes de água, a realização do evento se tornaria inviável — um retrato de como as mudanças climáticas vêm remodelando tradições globais consolidadas.