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Colunista
Publicado em 30 de outubro de 2026 às 11h00.
Última atualização em 30 de outubro de 2026 às 12h01.
Data centers podem adicionar centenas de megawatts de demanda em prazos muito menores do que os necessários para construir linhas, subestações ou novas usinas. Com a expansão da inteligência artificial, esse descompasso começa a mudar a forma de planejar grandes conexões ao sistema elétrico. A pergunta deixa de ser apenas quanto de infraestrutura será necessário construir e passa a importar também quanto da nova carga pode ser flexibilizada justamente nos períodos em que a rede enfrenta restrições.
Um estudo da PSR para a região de Barueri, em São Paulo, ajuda a dimensionar esse efeito. Considerando o sistema em 2029, com 200 cenários de operação, a região comportaria cerca de 400 MW adicionais de carga no pior caso sem redução de consumo. Com flexibilidade equivalente a 1% da energia anual, essa capacidade sobe para aproximadamente 650 MW.
Isso não significa que os 250 MW de flexibilidade substituam automaticamente a mesma quantidade de geração ou transmissão: o que isso mostra é que reduções de consumo concentradas nas horas críticas podem permitir melhor aproveitamento da infraestrutura existente e postergar ou evitar determinados reforços. Logo, os data centers são particularmente interessantes nesse debate. Além de baterias e sistemas próprios de backup, parte da carga computacional pode, em determinadas condições, ser deslocada ou modulada. Há ainda alternativas de resposta da demanda e agregação de recursos externos.
Mas o valor da flexibilidade depende também da duração, frequência, velocidade de resposta e localização. Uma restrição na rede ocorre em determinado ponto e momento, e o recurso flexível precisa estar disponível justamente quando e onde produz benefício para o sistema, o que muda a economia da conexão. Dois consumidores com a mesma demanda máxima podem gerar impactos distintos sobre a rede se um deles puder reduzir consumo em situações críticas.
Para o Brasil, isso abre espaço para analisar conjuntamente prazo de conexão, investimentos em rede e compromissos de flexibilidade. Também permite comparar economicamente essa alternativa com reforços de transmissão e distribuição, armazenamento ou outras soluções de expansão.
O avanço dessa lógica depende, porém, de regras capazes de transformar flexibilidade técnica em recurso efetivamente utilizável pelo sistema. Isso exige medição verificável, remuneração compatível com a obrigação assumida, definição clara das condições de acionamento e coordenação entre planejamento, operação, transmissão, distribuição e mercado.
Também será necessário reconhecer que a flexibilidade tem valor locacional. Um recurso disponível longe do ponto de restrição pode ter pouco efeito sobre o problema que limita uma nova conexão. Por isso, a análise econômica precisa estar associada à configuração real da rede e às horas em que o sistema enfrenta maior estresse.
A questão para os próximos data centers, portanto, não será apenas quanta energia irão consumir. Será também quanto vale para o sistema a capacidade de consumir menos nas poucas horas em que a rede mais precisa disso.