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O Pantanal é casa de espécies importantes como a onça-pintada, um dos principais símbolos da conservação da fauna brasileira (Kim Schandorff/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 5 de março de 2026 às 13h00.
Última atualização em 5 de março de 2026 às 15h46.
Pela primeira vez, o Brasil será palco de uma das conferências globais mais importantes para a preservação da vida selvagem: a COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS), em Campo Grande (MT).
Às vésperas da conferência que acontece de 23 a 29 de março, a ONU traz um alerta global: quase metade das espécies migratórias do planeta está em declínio, reforçando a urgência de ações coordenadas para garantir a biodiversidade e a sobrevivência de habitats essenciais ao equilíbrio ecológico.
O diagnóstico consta no relatório do tratado global voltado à proteção de animais migratórios, aqueles que cruzam fronteiras ao longo de suas rotas, como aves, baleias, tartarugas marinhas, tubarões e grandes mamíferos terrestres.
A análise envolveu 1.189 espécies listadas na convenção e mostra uma piora no cenário em apenas dois anos: a proporção com populações em queda passou de 44% para 49%, enquanto 24% das espécies enfrentam risco de extinção (2% a mais).
Embora não haja uma meta, o acordo vinculante reúne mais de 130 países e é considerado um dos principais instrumentos globais para enfrentar a crise da biodiversidade.
A secretária executiva da CMS, Amy Fraenkel, destacou que os dados mostram que o mundo ainda está longe do ideal e o primeiro relatório global já havia sido um alerta.
“Esta atualização intermediária mostra que o alarme ainda está tocando. Algumas espécies estão respondendo a ações de conservação concertadas, mas muitas continuam enfrentando pressões crescentes", disse.
O próximo está previsto para sair em 2029, na COP16.
Entre as principais ameaças estão a superexploração pela caça e pesca excessiva e a perda e fragmentação de habitat, impulsionadas pelas mudanças climáticas, expansão urbana, infraestrutura, agricultura e degradação ambiental.
Os fatores afetam especialmente espécies migratórias porque elas dependem de múltiplos ecossistemas ao longo de trajetórias que podem atravessar continentes e oceanos. Qualquer interrupção nesses corredores ecológicos pode comprometer ciclos reprodutivos, rotas alimentares e a sobrevivência das populações.
Para especialistas, a situação das populações serve como um[grifar] "termômetro da saúde dos ecossistemas". Como esses animais dependem de ambientes diversos como florestas, rios, oceanos e zonas úmidas, sua proteção exige políticas integradas e em escala internacional.
A escolha do local do encontro é estratégica: o Pantanal reforça a centralidade do bioma na agenda global de conservação. Considerado a maior área úmida tropical do planeta, abriga uma das maiores concentrações de biodiversidade das Américas e funciona como corredor ecológico para diversas espécies migratórias.
Há também sinais positivos de recuperação: dados divulgados nesta semana pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) indicam que o desmatamento no Pantanal caiu 65% em 2025.
O Brasil é parte da convenção desde 2015 e abriga milhares de espécies migratórias, incluindo a onça-pintada, o falcão-peregrino, além de diversas outras como baleias, tartarugas marinhas e tubarões que utilizam a costa como parte de suas rotas.
A COP15 deve ganhar ainda mais peso político por ocorrer em um momento em que a biodiversidade entra no centro das negociações climáticas e ambientais.
O Brasil também ocupa posição estratégica na agenda, visto que ainda está na presidência da COP climática, até passar o bastão na COP31 da Turquia.
Além disso, a conferência se conecta diretamente com a COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica, prevista para outubro na Armênia. Na ocasião, os países devem realizar a primeira revisão global do progresso na implementação do Marco Global da Biodiversidade Kunming-Montreal, o plano internacional que estabelece metas até 2030, incluindo a proteção de 30% das áreas terrestres e marinhas do planeta.
Em Campo Grande, a expectativa é que os países avancem em compromissos para proteger corredores ecológicos, reduzir pressões sobre habitats e fortalecer mecanismos de cooperação internacional.
49% das espécies migratórias monitoradas têm populações em declínio;
O índice subiu em relação a 44% registrados no primeiro relatório global, divulgado dois anos antes;
24% das espécies migratórias enfrentam risco de extinção global, ante 22% no levantamento anterior;
26 espécies listadas na convenção passaram para categorias mais altas de risco de extinção, incluindo 18 aves costeiras migratórias;
7 espécies apresentaram melhora no status de conservação, entre elas o antílope saiga, o oryx-de-chifres-de-cimitarra e a foca-monge do Mediterrâneo;
9.372 Áreas-chave de Biodiversidade (KBAs) importantes para espécies migratórias foram identificadas;
47% dessas áreas ainda não estão cobertas por unidades de conservação ou outras medidas de proteção;
As populações de peixes migratórios caíram, em média, 90% desde a década de 1970, segundo o relatório global anterior da convenção;
97% das espécies de peixes migratórios listadas na CMS enfrentam risco de extinção.
Entre os principais tópicos previstos para discussão na conferência estão:
proteção de rotas migratórias e corredores ecológicos;
combate à superexploração de espécies, incluindo caça e pesca excessivas;
redução da perda e fragmentação de habitats;
fortalecimento da cooperação internacional para conservação da biodiversidade;
integração entre agenda climática e proteção da vida selvagem;