No Brasil, a dependência de importações e a transmissão dos custos internacionais para o mercado interno ampliam a pressão sobre o setor (Delta/Divulgação)
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Publicado em 8 de abril de 2026 às 19h21.
Um “choque externo relevante, associado à valorização do petróleo no mercado internacional, à taxa de câmbio e à forma como esse produto é precificado” pode ser o principal fator por trás da recente alta do querosene de aviação (QAV) — e seus efeitos sobre o preço das passagens aéreas, conforme avaliação da economista Natalie Verndl, delegada do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP).
Com reajustes recentes que superam 50%, o combustível, principal insumo das companhias aéreas, voltou ao centro das preocupações do setor. Por ser dolarizado e integrado ao mercado global de energia, o QAV reflete diretamente as oscilações externas, especialmente em um contexto de tensões geopolíticas no Oriente Médio.
No Brasil, esse impacto é ainda mais sensível. A dependência de importações e a transmissão dos custos internacionais para o mercado interno ampliam a pressão sobre o setor. “Não se trata de um problema de gestão das companhias aéreas, mas de uma consequência de um cenário global que pressiona toda a estrutura de custos”, afirma Verndl, destacando que o fenômeno também é observado em outros países, sobretudo na Europa.
Dados de mercado mostram que o peso do combustível nos custos das empresas aumentou significativamente, passando de cerca de 30% para até 45% após reajustes acumulados superiores a 60% entre março e abril. Esse avanço eleva o risco de repasse aos preços finais, ainda que de forma gradual.
Segundo a economista, esse movimento não ocorre de maneira imediata. As tarifas aéreas costumam responder com defasagem às oscilações do combustível, influenciadas por fatores como demanda, sazonalidade e estratégias comerciais das companhias.
Apesar dessa defasagem, o espaço para absorção prolongada dos custos é limitado. “O setor aéreo opera com margens apertadas, o que torna economicamente difícil evitar o repasse no médio prazo”, diz Verndl.
Em rotas mais competitivas, as empresas podem segurar preços temporariamente para manter participação de mercado. Ainda assim, a tendência, caso a alta persista, é de reajustes parciais nas tarifas. Estimativas indicam que o preço das passagens pode subir até 36% ao longo do ano, em um cenário de maior sensibilidade a choques do petróleo.
Diante desse quadro, o governo federal anunciou medidas para tentar conter o impacto. Entre elas, a redução a zero das alíquotas de PIS/Pasep e Cofins sobre o QAV até maio de 2026 e a criação de um regime emergencial para estabilizar o abastecimento de combustíveis, além de subsídios e ajustes tributários em outros itens, como diesel e biocombustíveis.
Para Verndl, as ações ajudam, mas têm alcance limitado. “Elas funcionam como um amortecedor, reduzindo a velocidade do repasse ao consumidor, mas não resolvem o problema estrutural”, pondera. Entre os desafios de longo prazo, a economista aponta a alta carga tributária, gargalos logísticos, concentração na cadeia de suprimentos e a vulnerabilidade cambial do setor.