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Raízes que ainda dão frutos

Joel Pinheiro da Fonseca

Muito do que consideramos óbvio sobre o Brasil, quase fatos empíricos diretamente observáveis, é na verdade Sérgio Buarque de Holanda. Em 2016, o livro Raízes do Brasil completa 80 anos de publicação e pode ser lido como uma descrição do que vemos à nossa volta; seja porque realmente se adequa aos fatos ou porque nos deu as lentes pelas quais ainda construímos esses fatos. Nossa colonização feita por aventureiros em busca de riqueza fácil querendo logo voltar para Portugal, o pragmatismo, o personalismo e o desleixo do português e, acima de tudo, o patrimonialismo que marca a atitude do brasileiro – este homem cordial – sobre a coisa pública.

Em tempos de politização voraz, em que diferentes ideologias vêm à tona propor planos de organização social a um país essencialmente avesso a qualquer organização, a análise de Sérgio Buarque cai como uma luva: aqui, mesmo aquilo que se traveste de combate ideológico não passa da disputa entre diferentes personalismos. Achamos que defendemos ideias quando, na verdade, apenas ajudamos este ou aquele grupo de pessoas. Adoramos a casca teórica e formal, a verbalização ortodoxa de algum credo estrangeiro, justamente para mascarar a ausência de ordem e de consistência do nosso personalismo renitentemente natural.

Em um país que detesta a violência organizada e politizada, os protestos contra o novo governo devem logo cessar e a realidade amorfa se imporá novamente. Isso é previsão segura. Raízes do Brasil serve muito bem como um lembrete de que nem tudo é o que parece – e como um antídoto, portanto, às paixões exaltadas de nossos dias e à crença ingênua na salvação pela política. Nada disso era evidente ou necessário.

A narrativa de Sérgio Buarque sobre nossa história, e os conceitos que ele escolheu usar para explicar nossos fenômenos sociais, não são os únicos possíveis, mas seguem sendo os mais naturais, os que surgem espontaneamente quando um fenômeno social demanda explicação. Por exemplo, e especialmente, o fenômeno da corrupção, essa nossa amiga inseparável. Por que o Brasil é tão corrupto?

Nosso discurso sempre volta ao patrimonialismo, ou seja, o tratar a coisa pública como se fosse privada, em benefício da própria família ou amigos. O problema é que, se for isso mesmo, não há solução fácil. Há apenas a longínqua possibilidade da educação que transforme nossa cultura em algo mais parecido com os protestantes oriundos do norte da Europa, que representam os reais valores da civilização contra o atraso de nosso catolicismo ibérico.

Chega a ser frustrante se deparar com diagnósticos culturais e históricos para problemas sérios como a corrupção. Se a culpa está no passado, e já que o passado é imutável, então não há o que fazer. Toda tentativa de reforma do sistema personalista e patrimonialista será, ela própria, colocada a serviço dessas mesmas forças. Não haveria outras dinâmicas – econômicas e sociais – mais facilmente alteráveis para facilitar nosso trabalho? E se o problema está na cultura, isso quer dizer que nossa cultura é um problema?

Muitos dos que reproduzem a narrativa de Sérgio Buarque responderiam que sim. Enquanto por aqui vigorar o personalismo, não temos jeito. Outros, julgando discordar dele, reafirmam o julgamento: o homem cordial não existe, dizem, pensando-o como o brasileiro caloroso, acolhedor, bom. Usam um conceito impreciso para o homem movido pelo coração, capaz de grandes amizades e inimizades, mas não de imparcialidade, como era o homem cordial de Sérgio Buarque. Seja como for, ele é lembrado apenas para servir de objeto de crítica. Para esses críticos, em geral à esquerda, o brasileiro é apenas violento, racista e venal. Não é cordial, é só mau.

De todos os aspectos da obra, talvez esse seja o que mais clama por uma releitura: não o diagnóstico da sociedade brasileira, que segue quase hegemônico, mas o juízo de valor que, depois de Sérgio Buarque, costuma acompanhá-lo. A cultura brasileira é má, não pensa no coletivo, o jeitinho, no fundo, é só falta de ética. Nos Estados Unidos não é assim. Na dolorosa comparação, os Estados Unidos aparecem como nosso negativo quase perfeito: país de regras, de impessoalidade, de eficiência, a colônia de verdade, não a feitoria econômica. Se ao menos fôssemos como os americanos… Mas será que, mesmo com os males que estamos cansados de repisar, não há algo que valha a pena ser preservado neste Brasil tão personalista?

Talvez valha mudar a aposta. Neste século 21, depois da falência do pesadelo soviético, criou-se a possibilidade de uma nova apreciação da ordem espontânea. Vivemos a revolução da internet e do chacoalhar de todas as autoridades institucionais que por muito tempo deram as cartas (mídia, igrejas, grandes empresas, Estados), a descentralização do poder, a destruição dos velhos ídolos, a descoberta de que toda liderança é demasiado humana. Nesse mundo, as velhas saídas planificadas perdem espaço para o improviso e o amador. O presidente da república é mais um amigo ou inimigo a se provocar nas redes sociais.

Os grandes sonhos nacionais e ideológicos se desmancham no ar. A natureza brasileira, sempre resistente aos devaneios do espírito, e também nossa capacidade de fruir os bens da convivência, parecem adaptados ao mundo que se desenha. A urbanização fluida e caótica da cidade portuguesa, que acompanha o traçado dos acidentes geográficos, em oposição ao planejamento cartesiano e meticuloso da cidade espanhola, ressalta nossa particularidade mesmo em relação a nossos vizinhos ibéricos. O Brasil não é afeito a ideologias e nem tão disposto a dar o próprio sangue quanto é a América espanhola, estejamos falando de catolicismo ou bolivarianismo. Esse caos com o qual nos acostumamos desde a colônia pode ser o padrão dominante do novo mundo que se inaugura.

Sendo assim, não existiria uma gambiarra para, preservando nosso caráter nacional, coibir alguns de seus piores efeitos colaterais? O personalismo, quando domina a burocracia estatal, é nocivo à sociedade. Mas não é necessariamente indesejável na vida econômica e no lazer. O mundo tem a ganhar com ele. Pode o Brasil florescer sem cortar seus males (e suas virtudes) pela raiz? Eis o desafio que uma releitura de Sérgio Buarque nos coloca. 

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