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Nova Exame

Inflação pesa no resultado do PIB, com aumento de 30% nos alimentos

Nos últimos 12 meses, preço do arroz subiu 30,5%, mesmo patamar da remarcação da carne bovina, seguida pelo feijão (17,3%); consumo das famílias fica estagnado no 2º trimestre

Diante de um mercado de trabalho fragilizado e da estagnação do consumo das famílias, que ficou no zero a zero no segundo trimestre em relação aos três primeiros meses do ano, os investimentos das empresas também não decolaram no período. “É um ciclo vicioso que tende a manter a economia em patamares menos elevados”, diz André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos.

Somam-se a isso o aumento da inflação e a crise política, que colaboram para jogar os juros futuros para cima, e eis a tempestade perfeita. “Trabalhamos com a hipótese de que dada a elevada inflação ao produtor, maior do que a do consumidor, os empresários tendem a diminuir suas margens e, portanto, a capacidade de investimento”, afirma Perfeito.

Já há quem trabalhe com a perspectiva de uma inflação na casa dos 8% para o ano, bem acima da meta, com base na alta de preços de produtos básicos. “O viés de alta pode indicar novos repasses nos preços, já que o setor produtivo não deve absorver totalmente os aumentos”, diz o economista André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Nos últimos 12 meses, a carne bovina e aves tiveram aumentos de quase 30%, assim como o arroz (30,5%), o feijão carioca (17,3%) e ovos (15,8%). O óleo de soja foi remarcado em quase 70%, segundo a FGV.

Houve alta também nos materiais de limpeza (7,6%) e de higiene, com os sabonetes 14,7% mais caros nos últimos 12 meses, seguidos pelo creme dental (7,7%).

A crise hídrica vem representando mais um coeficiente negativo no cenário macroeconômico, com impactos diretos na agricultura e na inflação. Os produtores enfrentaram uma estiagem e depois geadas neste ano, o que ocasionou a quebra da safra de milho e afetou culturas como o café e a cana-de-açúcar. “Um dos reflexos mais óbvios é o aumento do preço do etanol, em um cenário no qual o petróleo segue em alta”, afirma Braz.

Nesse contexto, a retração do indicador FBCF (Formação Bruta de Capital Fixo), que mede os investimentos produtivos na economia, não chegou a surpreender. A queda, segundo o IBGE, foi de 3,6% no segundo trimestre, em comparação aos primeiros três meses do ano. Ao mesmo tempo, o consumo das famílias, que responde por 60% do cálculo do PIB, permaneceu estagnado (0%), com a renda dos brasileiros em baixa (-3%). A renda real média dos trabalhadores somou 2.515 reais no segundo trimestre, de acordo com o IBGE.

Houve avanços na criação de vagas, com 87,8 milhões de pessoas ocupadas (2,1 milhões a mais do que no primeiro trimestre). O problema é que os salários estão mais baixos. Descontada a inflação, a renda média dos brasileiros caiu 6,6% em relação a abril a junho de 2020, segundo o IBGE. “Estima-se que essa conjuntura possa levar a um espalhamento da inflação e a um crescimento econômico menor, com menos investimentos na produção”, diz Braz.

 

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