Indústria de aluguel de estrangeiros está bombando na China

Documentário do New York Times mostra desenvolvedores imobiliários colocando estrangeiros para fazer "papéis" e vender apartamentos

São Paulo – Não está conseguindo vender os apartamentos que construiu? Alugue um estrangeiro.

Essa tem sido a solução encontrada por desenvolvedores imobiliários na China, de acordo com um mini-documentário publicado no New York Times pelo cineasta David Borenstein, que prepara um longa sobre o assunto.

“Tem esse truque: faça parecer internacional. Quando você coloca um estrangeiro lá, tudo muda. Não é mais um prédio remoto construído por um desenvolvedor desconhecido – é uma cidade internacional do futuro”, diz a profissional do setor de casting entrevistada.

Conversando com um desenvolvedor, ela nota que se ele não tiver fundos suficientes para uma pessoa branca, uma alternativa é contratar negros – que tem “personalidade aberta” e preço mais em conta (160 dólares). Indianos saem pelo mesmo valor, apesar de serem usados mais raramente.

Os estrangeiros são recrutados em bares e contratados para participar de eventos de lançamento com sua mera presença ou fazendo algum tipo de performance como dança, canto ou desfile.

Visual e atitudes são construídos e controlados para que eles sejam vistos como celebridades como atletas e atores ou mesmo como engenheiros que participaram do projeto em questão. Até a presença do documentarista era apontada frequentemente pelos organizadores como prova de que o empreendimento é internacional.

“Na China, você pode ser qualquer coisa, sem conhecimento ou educação, se você for do Ocidente. É tudo falso. A gente só tem que aparecer para dar a eles um rosto branco”, diz um dos contratados, divulgado falsamente como ex-participante do “America’s Next Top Model” e um dos 20 principais modelos dos Estados Unidos.

Contexto

O recurso a práticas heterodoxas para vender apartamentos é sinal de uma crise mais ampla do setor imobiliário e da economia da China.

O investimento, em especial na construção, é o principal motor de crescimento do país há muitos anos, mas isso levou a um excesso de estoque que se refletiu em cidades fantasma e mais recentemente, em uma perigosa queda de preços no setor.  

O governo tenta atenuar o problema com mudança de regras e novos estímulos, mas sabe que precisa rebalancear sua economia em direção ao consumo das famílias e que alguma desaceleração é inevitável. 

De acordo com o Société Generale, um pouso forçado da China é atualmente o maior “cisne negro” da economia global. “Não será fácil alcançar outro crescimento de 7% este ano”, disse recentemente ao Financial Times o premiê do país, Li Keqiang – e esse problema não há estrangeiro que possa resolver. 

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