O ano difícil de Biden: ainda há tempo para reverter a popularidade?

Biden perde força com um congresso hostil e uma pandemia sem fim. seu governo ainda tem solução?
 (Kati Szilagyi/Bloomberg)
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Nancy Cook e Josh WingrovePublicado em 24/02/2022 às 05:58.

Na linha do tempo imaginada pela Casa Branca quando Joe Biden assumiu o cargo há um ano, vacinas amplamente disponíveis já teriam encerrado a pandemia da ­covid-19 nos Estados Unidos. A economia estaria crescendo com força e um Congresso bastante dividido já teria aprovado a maior parte da agenda. Tendo cumprido essas megamissões, o presidente poderia passar 2022 se concentrando na agenda da expansão dos direitos ao voto entre os americanos, inaugurando projetos de infraestrutura e dizendo ao país o que ele fez para melhorar sua vida — com vacinas, auxílios emergenciais e investimentos em escala no que diz respeito a cuidados infantis, educação e combate às mudanças climáticas.

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Não foi, para dizer o mínimo, assim que as coisas aconteceram. Logo depois da variante delta, a ômicron está tumultuando o país. O fechamento de escolas e a escassez de testes estão alimentando a frustração e o desespero dos americanos. Enquanto isso, a agenda Build Back Better (“Reconstruir Melhor”, numa tradução livre) de Biden estagnou devido às objeções do senador democrata da Virgínia Ocidental Joe Manchin.

Também para enfrentar: a crescente inflação, a mais alta em 40 anos, um impasse latente com a Rússia enquanto esta tem tropas na fronteira com a Ucrânia, além da fúria dos progressistas contra Biden por eles considerarem ser um impulso fora de hora a questão dos direitos de voto.

Aliados democratas dizem que os eventos forçaram a Casa Branca de Biden a entrar no modo reativo. “É difícil controlar a narrativa quando se tem tantas coisas ao mesmo tempo, como mudança climática, tornados, Ucrânia, incêndios florestais destruindo partes do Ocidente e a ômicron”, diz o ex-líder da maioria no Senado, Tom Daschle, amigo de muitos dos principais assessores da Casa Branca. “Não sei se eles se sentem sobrecarregados tanto quanto sentem a gravidade desses problemas.”

Decepção atrás de decepção

Os índices de aprovação do presidente caem enquanto ele luta para mostrar aos americanos que está fazendo tudo o que pode. A pesquisa da Ipsos constatou que 50% das pessoas desaprovavam a maneira como Biden conduzia seu trabalho, enquanto 45% aprovavam, números aproximadamente alinhados com o outono, quando a variante delta chegava ao pico.

Uma pesquisa Gallup deste mês constatou que 40% dos americanos aprovam o trabalho de Biden no cargo, enquanto 56% desaprovam — a diferença de 16 pontos percentuais é a maior em seu governo até agora. “É decepção atrás de decepção. Não para”, diz Frank Luntz, agente político republicano de longa data que conduziu vários grupos de discussão com eleitores independentes nos últimos seis meses.

A mais recente são os direitos de voto. Biden foi ao estado da Geór­gia neste mês para promover a legislação de direitos de voto e defender a mudança das regras do Senado para aprová-la — apenas para se ver novamente derrotado por Manchin e sua colega democrata com tendência de voto mais centrista, a senadora Kyrsten Sinema, do Arizona. Além disso, Stacey Abrams, principal organizadora dos democratas na Geórgia e defensora ferrenha da reforma da lei eleitoral, ignorou o discurso de Biden.

Os democratas podem apontar para um forte histórico em algumas áreas. Biden aprovou o Plano de Resgate Americano de 1,9 trilhão de dólares, que aliviou a pobreza infantil no meio da pandemia, e uma lei de infraestrutura com 550 bilhões de dólares em novos fundos federais. O mercado de trabalho dos Estados Unidos se recuperou mais rápido do que os economistas previam — e muito mais rápido do que na recessão global de 2009, quando Biden era vice-presidente.

A economia dos Estados Unidos retornou aos níveis pré-pandemia mais cedo do que a de outras nações do Grupo dos Sete (nações mais ricas do mundo). O Senado, controlado pelos democratas, também confirmou 41 juízes de primeira instância no primeiro ano de Biden, o maior número para qualquer presidente de primeiro ano desde John F. Kennedy. “Sinto-me muito bem com o governo Biden. Gostaria que estivéssemos, como nação, em um lugar melhor”, diz Jim Clyburn, congressista democrata da Carolina do Sul, cujo endosso reviveu a campanha primária de Biden em 2020.

Após quatro anos do presidente Donald Trump na Casa Branca, culminando em falsas alegações de uma eleição roubada e a insurreição de 6 de janeiro, os americanos buscaram Biden para restaurar a normalidade. Mas eles estão de mau humor por causa da pandemia persistente e de meses de aumento dos preços, um fato que funcionários da Casa Branca reconhecem a fundo. A questão é se a pandemia, a inflação, as falhas na cadeia de suprimentos e os conflitos trabalhistas podem ser controlados e se isso pode acontecer a tempo das eleições parlamentares de 2022. É tudo problema de Biden, independentemente de a culpa ser de fato dele.

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“O cão que não latia”

A pandemia moldou amplamente a sorte de Biden até agora. Ele emergiu dos primeiros meses de sua Presidência esperando ter deixado isso para trás. As vacinas dispararam; o número de casos despencou. “Estamos mais perto do que nunca de declarar nossa independência de um vírus mortal”, disse ele ao país em um discurso em 4 de julho. Embora tenha alertado: “Isso não quer dizer que a batalha contra a covid-19 tenha acabado. Temos muito mais trabalho a fazer.”

Foi quando irrompeu a variante delta, devastando particularmente os não vacinados. Um grande número de americanos recusando vacinas não fazia parte dos planos de Biden. “Acho que isso o surpreendeu”, diz o senador democrata de Delaware, Chris Coons, amigo de Biden.

Com o atraso das vacinações, a Casa Branca impôs obrigações, alimentando os ataques republicanos. De lá para cá, uma das obrigações foi bloqueada pela Suprema Corte e outra está no limbo legal — mas não antes de milhões de adultos americanos tomarem suas vacinas.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças vacilaram em sua orientação, principalmente quando as autoridades ponderaram como enfrentar a ômicron, uma variante altamente transmissível, mas menos mortal. Neste inverno, uma corrida para os testes e o contínuo fechamento de escolas lançaram dúvidas sobre o preparo do governo e fizeram com que se parecesse novamente com os primeiros meses de 2020. Biden reagiu encomendando 1 bilhão de testes, embora não esteja claro com que rapidez isso aliviará a escassez.

Além do custo humano da ­covid-19, há consequências econômicas. Dados da confiança das famílias e do PIB são melhores do que o esperado, deixando os Estados Unidos com uma taxa de desemprego de 3,9%. Mas a inflação também aumentou mais do que a equipe de Biden esperava e está durando muito mais tempo, e, portanto, virou um passivo político.

Senso de seriedade

Biden e seus assessores demoraram para mostrar que entendiam o impacto da inflação na vida dos americanos. “Levou muito tempo como partido para reconhecer a dor”, diz Brian Stryker, sócio da ALG Research, dos democratas. Sua empresa de pesquisa realizou uma série de grupos de discussão com eleitores da Virgínia depois que os democratas perderam a corrida para governador no último outono. Apenas chamar a inflação de “transitória” não seria mais suficiente, e a Casa Branca silenciosamente parou de usar a palavra durante o verão.

Nas conversas com os assessores de Biden, fica evidente que há um senso de seriedade e justiça, mas ocasionalmente surge a indignação. Na opinião deles, o governo tem um plano que está sendo executado com competência, e a alternativa é o caos e a disfunção liderados pelos republicanos. Eles acreditam que a Casa Branca deveria receber mais crédito pelos pontos positivos da economia, especialmente o robusto mercado de trabalho e a queda da taxa de desemprego.

Muitos americanos não se importam com quanto crédito a Casa Branca acha que merece, quando a vida das pessoas ainda está tumultuada. Na política, diz o deputado democrata de Nova Jersey Tom Malinowski, “não se costuma receber crédito pelo cachorro que não latiu — o fato de que a economia americana não entrou em colapso, o fato de não termos pobreza e miséria”.
Por outro lado, eleitores conseguem avaliar Biden pela ambição de suas próprias metas não cumpridas, uma responsabilidade especial para um presidente que lida com um Senado dividido ao meio. Teoricamente, Biden tem os votos para aprovar grande parte de sua agenda, mas apenas com as menores margens. E Manchin — que representa um estado que Trump conquistou em 2020 por uma margem de aproximadamente 40 pontos — está feliz em atuar como um controlador dos objetivos do presidente e parece desfrutar da constante atenção de funcionários da Casa Branca e da imprensa.

Na campanha, Biden enalteceu a própria e longa experiência no Senado, enviando a mensagem de que sabia como levar grandes planos ao Congresso. Agora os progressistas o culpam por dissociar o projeto de infraestrutura do Reconstruir Melhor e perder uma ferramenta de barganha com os moderados para aprovar o pacote maior, que depende da aprovação de Manchin, que recusou o custo. “Biden concorreu como negociador, e até agora a única coisa que ele fez foi lidar com qualquer influência que tivesse”, diz John Paul Mejia, porta-voz do Sunrise Movement, grupo climático progressista. “Se os democratas chegarem às eleições com uma mensagem de ‘nós tentamos, votem em nós’, eles vão perder.”

“Modo ataque”

Biden avançou com novas metas climáticas e ações executivas enquanto emitia decretos e aguardava a aprovação do programa Build Back Better. Ele voltou ao Acordo de Paris e quase dobrou a promessa de redução de emissões dos Estados Unidos sob o pacto, eliminou o oleoduto de Keystone XL, endureceu os padrões de emissões de automóveis, costurou considerações de carbono em um pacto comercial dos Estados Unidos pela primeira vez e muito mais. Os assessores veem isso facilmente como o registro climático mais robusto de qualquer governo — e mais ambicioso do que eles teriam sonhado, mesmo durante a era Obama. “Duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo: podemos ter muito trabalho a fazer e já fizemos muito”, diz Ali Zaidi, veterano do governo Obama que atua como vice-conselheiro nacional de Biden para as questões climáticas.

Embora tenha buscado a Presidência três vezes, Biden continua inquieto com algumas de suas armadilhas. Ele é incansável, dizem os assessores, no aquário da residência da Casa Branca, com uma equipe que atende a ele e a primeira-dama. “Não tenho a chance de olhar as pessoas nos olhos, por causa da covid e das coisas que estão acontecendo em Washington”, disse ele em uma entrevista coletiva em 19 de janeiro. Ele sai de Washington na maioria dos fins de semana, voltando para Delaware ou, ocasionalmente, para Camp David. “Ele diria que nunca lhe damos tempo livre ou tempo para pensar”, diz a secretária de imprensa Jen Psaki. “E isso provavelmente é verdade.” Para ajudar em sua adaptação, os Biden ganharam recentemente um cachorrinho, o Comandante, e em breve terão um gato. A Casa Branca de Biden está repleta de fotos de família. Em uma mesa do Salão Oval, uma das fotos favoritas do presidente também é exibida em meio aos rostos sorridentes de familiares. Numa tirinha do jornal, um homem grita aos céus, perguntando: “Por que eu?”. “Por que não?”, Deus grita de volta.

Biden e democratas estão encarando um ciclo eleitoral de meio de mandato que parece contundente. Em geral, espera-se que eles percam a Câmara, com Malinowski, de Nova Jersey, entre os que enfrentam duras batalhas pelo número cada vez menor de cadeiras competitivas, à medida que as legislaturas estaduais redesenham agressivamente os mapas . O Senado também está em risco, embora os republicanos não estejam tendo tanto sucesso quanto gostariam na elaboração de candidatos fortes para concorrer em estados-chave.

Biden está otimista de que pode mudar as coisas e acredita que uma política boa acaba se transformando em boa política, dizem os assessores. “As pessoas não desgostam dele”, diz Luntz, o pesquisador republicano. “Suas chances são maiores que seu índice de aprovação no trabalho, e isso permitiria que ele voltasse.”

A grande questão

A filosofia central de Biden é que a maneira de ganhar eleições é fazer a diferença na vida das pessoas e cumprir promessas, mostrando a elas como o governo federal pode melhorar sua vida. Para isso, ele tentará reviver o Build Back Better fechando um acordo com Manchin. Ele disse em 19 de janeiro que o pacote teria de ser desmembrado para que partes dele fossem aprovadas: “Estou confiante de que podemos obter pedaços, grandes pedaços” transformados em lei, disse ele.

“A grande questão é: as pessoas a poucos meses do dia das eleições sentirão que a vida está substancialmente ou até marginalmente melhor do que quando Trump era presidente?”, diz Rahna Epting, diretora executiva da ­MoveOn.org. “Se ficarem indecisos ou derem ‘não’ definitivo, teremos um problema. Isso se resume à política”, diz ela, “mas também se resume a como as pessoas se sentem”. No final do outono, a Casa Branca começou a se voltar para um modo mais incisivo de ataque político. A equipe de Biden decidiu que precisava traçar contrastes mais diretos com Trump pessoalmente e com os republicanos em geral, dizem assessores. Isso é uma espécie de mudança para um senador veterano que chegou ao Salão Oval com uma confiança fundamental no bipartidarismo e uma propensão a se referir a Trump apenas como o “ex-presidente”. Mas ele mirou Trump no aniversário do motim no Capitólio e criticou senadores republicanos pelos direitos de voto, provocando uma repreensão de Mitt Romney, um dos membros mais moderados do partido republicano. Ele também foi mais ligeiro em culpar Trump nas últimas semanas por problemas como o impasse nas negociações nucleares com o Irã.

Na recente entrevista coletiva, Biden atacou o Partido Republicano por obstrucionismo. Questionado sobre seu primeiro ano no cargo, ele respondeu: “Eu não previa que haveria um esforço tão forte para garantir que o mais importante fosse que o presidente Biden não fizesse nada. Pensem nisso: para que servem os republicanos? Para que servem? Digam-me uma coisa para a qual eles prestam” .Ele acrescentou: “Não acho que tenha prometido demais e vou continuar nessa linha”.

Aliados, incluindo Coons e Clyburn, dizem estar confiantes de que uma versão simplificada do Reconstruir Melhor será transformada em lei. Para fazê-la ecoar com os eleitores, porém, eles reconhecem que a equipe Biden e os democratas precisam aumentar significativamente suas habilidades de vendas. “Faremos muito melhor na medida em que nos concentramos em algumas maneiras concretas de ajudar os americanos da classe média”, diz Coons. “O que eu acho que não funcionou foi falar sobre números, e falar sobre uma ‘conta enorme’ ou uma ‘conta transformadora’.”

(Kati Szilagyi/Bloomberg)

Taxa de Emprego nos EUA

Aconteça o que acontecer com o Build Back Better, o governo passará grande parte deste ano lançando fundos da lei de infraestrutura — que foi apoiada por apenas um punhado de republicanos da Câmara. “Todo eleitor no país precisa ser lembrado disso, de novo e de novo e de novo”, diz Malinowski.

Os assessores de Biden reconhecem que o presidente está frustrado, em particular com a escassez de testes para a covid. “Joe Biden tende a ter uma visão de longo prazo sobre a maioria das coisas”, diz o conselheiro sênior da Casa Branca, Mike Donilon. “Acho que ele acredita ter assentado bem as bases para dar boas condições ao país daqui para a frente.”

Um alto funcionário sustenta que o governo estabeleceu meticulosamente as bases para uma maior recuperação econômica e está pronto para lidar com novos surtos de covid. Em particular, os assessores de Biden estão começando a expressar um alívio cauteloso sobre a ômicron, que, apesar da disseminação, está se mostrando menos mortal do que se temia e está mostrando sinais de ter atingido o pico. Um assessor, falando sob condição de anonimato, diz que se sente bem com a situação, acrescentando imediatamente que sabe que isso soa estranho Mas, na opinião do assessor, 1 bilhão de testes estão chegando, bem como o fornecimento do comprimido da Pfizer contra a covid.

Em novembro, quando as dores do crescimento da economia trouxeram boas e más notícias, politicamente, Coons diz que confortou Biden: “Eu coloquei meu braço em volta dele e disse: ‘Senhor presidente, há alguns meses, o problema era que não tínhamos empregos suficientes. Agora o problema é que não temos trabalhadores suficientes. Esse é um problema melhor para enfrentar’”.
Alguns eventos podem mudar as coisas para Biden, ou seja, uma queda nos casos de covid, redução da inflação e uma contínua recuperação da economia. Mas também existem armadilhas. A inflação pode continuar subindo ou permanecer alta. Outra variante da covid pode surgir. As relações com a Rússia ou com a China podem tomar um rumo preocupante. O juiz da Suprema Corte, Stephen Breyer, pode anunciar sua aposentadoria . Enquanto isso, Trump aparece nos bastidores como o rei do Partido Republicano, encorajando republicanos a bloquear Biden e se oferecendo como auxílio útil — e potencial oponente em 2024.

Se os democratas forem derrotados nas eleições de meio de mandato, como ocorreu em 2010 no governo de Obama, as opções de Biden serão radicalmente reduzidas. Os holofotes então mudarão para outra questão, principalmente quando Trump se prepara para sua própria candidatura em potencial: Biden buscará a reeleição em 2024, ano em que completará 82 anos? Se não, quem poderia sucedê-lo como candidato democrata?

No mês passado, Biden disse que seria conduzido pela própria saúde, pelo destino e por Trump. “Tenho profundo respeito pelo destino. O destino interveio na minha vida muitas e muitas vezes”, disse Biden à ABC, quando perguntado se ele concorreria. “Se estiver bem de saúde como agora, se estiver com a saúde perfeita, na verdade eu concorreria de novo.” E se Trump concorresse? “Agora você está querendo me provocar”, disse ele.