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OPINIÃO: O império de ressentimento de Putin e Xi

Com a invasão russa da Ucrânia, os dias de glória da globalização liderada pelo Ocidente acabaram, não só no aspecto econômico, mas também política e culturalmente. A narrativa de vitimização que alimenta o nacionalismo russo e chinês continuará a prevalecer sobre as sutilezas da era pós-Guerra Fria

 (Alexei Druzhinin/TASS/Getty Images)

(Alexei Druzhinin/TASS/Getty Images)

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Orville Schell

3 de março de 2022, 06h00

NOVA YORK – Logo após a notícia da invasão russa da Ucrânia piscar na tela do meu computador, recebi um e-mail que parecia arrancar outro prego no desmantelamento da velha ordem global. Tendo ingressos para assistir a um concerto da Filarmônica de Viena no Carnegie Hall de Nova York, recebi um “Anúncio de Serviço ao Cliente” informando que Valery Gergiev – descrito como “um amigo e proeminente apoiador do presidente Vladimir V. Putin, da Rússia” – não iria mais conduzir a orquestra. Desde então, muitas outras orquestras também cortaram relações com Gergiev.

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Até a invasão russa, ainda dava pra acreditar que uma “dissociação” total do Ocidente da China e da Rússia era improvável e imprudente. No entanto, a remoção de Gergiev é uma metáfora de como o recém-criado eixo sino-russo está catalisando uma cisão que agora vai afetar tudo, dos intercâmbios culturais ao comércio.

Afinal, até a invasão, muitos duvidavam que a União Européia (em particular, a Alemanha) conseguiria tirar a agulha de gás natural russo do braço – especialmente com o gasoduto Nord Stream 2 oferecendo uma nova veia. Do mesmo modo, muitos têm se perguntado como os EUA poderiam se livrar do vício em mercadorias chinesas de baixo custo agora que tantas de suas próprias fábricas fecharam.

Durante os dias de glória da globalização – quando o “homem de Davos” governava o planeta com alegres platitudes sobre resultados ganha-ganha –, as cadeias de suprimentos globais pareciam prometer benefícios ilimitados para todos. O que havia de errado em terceirizar para terras distantes se elas podiam fazer algo mais barato e enviá-lo mais depressa?

Os mercados abertos foram elogiados por sua capacidade de criar sociedades mais abertas. Tudo que tínhamos a fazer era continuar a negociar transnacionalmente, sem prestar atenção ao elenco ideológico ou político do outro país. Foi assim que o Ocidente, e grande parte do resto do mundo, se tornou codependente da Rússia (para gás) e da China (para terras raras, polissilício, produtos farmacêuticos e bens de consumo antiquados).

Entretanto, com Putin invadindo a Ucrânia e o presidente chinês Xi Jinping expressando atitudes revanchistas em relação a Taiwan, resta-nos avaliar não só uma ordem mundial de cabeça pra baixo e um mercado global despedaçado, mas também a ruptura de trocas culturais anódinas.

O que está por trás deste acidente de trem inesperado e perigoso? Por que Putin jogaria para o ar os reais interesses nacionais da Rússia ao invadir um vizinho outrora fraterno? O que levaria Xi a aceitar sacrificar o milagre econômico histórico de seu próprio povo para tomar uma ilha em forma de pulga que a China não governa há mais de um século? Por que esses dois autoritários modernos cederam a esses impulsos autodestrutivos e alienaram tantos outros países importantes, justamente quando o mundo estava se tornando tão interdependente?

Primeiro, é importante lembrar que os autocratas são muito mais livres para agir de modo irrestrito, já que têm de enfrentar poucos ou nenhum sistema de freios e contrapesos políticos. Assim, como líderes “supremos”, eles podem moldar as políticas sem desafios, de acordo com sua própria desordem caracterológica.

Inseguros e paranóicos

Embora Putin e Xi tenham origens e personalidades muito diferentes, eles compartilham alguns traços importantes. Ambos são homens profundamente inseguros e paranóicos moldados por narrativas históricas de queixas, especialmente contra as “grandes potências” do Ocidente.

Essas narrativas giram em torno de temas leninistas de exploração, humilhação e vitimização por parte dos estrangeiros. Elas demonizam as democracias ocidentais como hipócritas e opressoras (como na teoria do imperialismo de Lenin). E imputam ao Ocidente atitudes arrogantes e desdenhosas.

Mais que qualquer outra coisa, Putin e Xi querem respeito. No entanto, eles sabem que a maioria dos líderes ocidentais não respeita e provavelmente nunca respeitará seu autoritarismo – não importa o quão bem-sucedidos eles sejam na montagem de linhas ferroviárias de alta velocidade, na construção de cidades modernas ou na realização de Jogos Olímpicos. É essa síndrome de déficit de respeito que criou o império de ressentimento e queixas dos dois.

Putin e Xi reconhecem que nunca vão superar isso, independentemente do sucesso de suas políticas externas, tecnológicas e espaciais no desenvolvimento de seus países, ou de quanto petróleo e gás eles vendem para o mundo. E não adianta adverti-los de que ganhar respeito exige que eles se comportem de maneira respeitável, em vez de prender candidatos da oposição e dissidentes (incluindo ganhadores do Prêmio Nobel), perseguir pessoas por suas crenças religiosas, intimidar outros países com políticas comerciais punitivas e lançar invasões. Enfeitiçados pela narrativa de vitimização leninista, Putin e Xi querem ao mesmo tempo derrubar a ordem ocidental e ser estimados por ela.

Desse modo, os dois são animados por uma contradição que nenhuma quantidade de apoio ocidental pode resolver. Nem mesmo o efeito tônico do “engajamento”, mantido ao longo de nove mandatos presidenciais norte-americanos, foi o bastante para superar a sensação da China de ser alvo de constante desaprovação e ameaças ideológicas (na forma de “evolução pacífica” e “revoluções coloridas”) das democracias do mundo. Putin e Xi se ressentem de ter que viver ao lado de democracias bem-sucedidas, como Ucrânia e Taiwan, compostas por povos com histórias, culturas e etnias semelhantes.

A força magnética do rancor compartilhado aproximou tantos esses dois ex-rivais que eles recentemente declararam que “não há limites” para sua parceria. Ambos insistem que deve caber ao povo de seu país “decidir se seu Estado é democrático”. E Putin e Xi afirmam que estão liderando um novo tipo de democracia - e tanto faz se Putin se imagina um czar e que a versão de governo de Xi seja uma “ditadura democrática do proletariado”.

Pacto oportunista

A questão agora é se Rússia e China conseguirão manter seu pacto oportunista após a decisão de Putin de ir à guerra. Pouco antes da invasão, o ministro de Relações Exteriores da China, Wang Yi, disse na Conferência de Segurança de Munique que a “soberania” e a “integridade territorial” de todos os países deveriam ser protegidas e que “a Ucrânia não é exceção”.

E Xi posteriormente chamou Putin para explicar que, embora ele entenda as preocupações de segurança da Rússia, a China ainda respeita a soberania dos Estados-nação e pretende defender os princípios da Carta das Nações Unidas. Afinal, o Partido Comunista da China não quer potências estrangeiras interferindo em seus próprios “assuntos internos”, e muito menos invadindo a China.

Qual desses imperativos vencerá? Muito provavelmente, a aversão compartilhada da China e da Rússia à democracia liberal (e à presunção dos líderes democráticos) acabará superando a curiosa ideia do século 19 de que a soberania nacional é sagrada. A narrativa de vitimização que está alimentando psicologicamente o nacionalismo de ambos os países com reservatórios de ressentimento é simplesmente poderosa demais para ser anulada pelas sutilezas do direito internacional.

 

Tradução por Fabrício Calado Moreira

 

Orville Schell, diretor do Centro de Relações EUA-China na Asia Society, é coeditor (com Larry Diamond) de Chinese Influence and American Interests: Promoting Constructive Engagement (“A Influência Chinesa e os Interesses Americanos: Promovendo um Envolvimento Construtivo”, em tradução livre do inglês).

Direitos Autorais: Project Syndicate, 2022.