Alberto Fernández: presidente Jair Bolsonaro não compareceu à posse de Fernández (Mariana Greif/Reuters)
Reuters
Publicado em 10 de dezembro de 2019 às 14h43.
Última atualização em 10 de dezembro de 2019 às 15h36.
Buenos Aires — A Argentina está em "default virtual" e o pagamento de sua dívida não poderá se sustentar "se o país não cresce", afirmou nesta terça-feira o presidente Alberto Fernández em discurso de posse de sua gestão no Congresso.
O presidente peronista de centro-esquerda disse que impulsionará o mercado doméstico para reverter "o atraso social e produtivo" da Argentina, que atravessa uma severa crise econômica.
Fernández disse também que pretende desenvolver o Mercosul e que buscará uma "agenda ambiciosa" com o Brasil, que vá além das diferenças entre os mandatários dos dois países.
O governo brasileiro foi representado pelo vice-presidente Hamilton Mourão, enviado de última hora pelo presidente Jair Bolsonaro, que é um desafeto de Fernández.
Uma multidão com bandeiras de apoio ao presidente encheu a praça em frente ao Congresso e também começava a lotar a Praça de Maio, em frente ao palácio presidencial, onde vai acontecer uma festa com música antes de um esperado pronunciamento do novo presidente.
"Eu estava trabalhando em uma empresa de cartão de crédito que fechou mais de 15 agências e todos perdemos nossos empregos. Nós, como povo, temos muita esperança em Alberto", disse Verónica Quintana, uma vendedora de rua de 34 anos, na Praça de Maio.
Com uma inflação acima dos 50% anuais, uma economia em recessão e uma pobreza próxima dos 40%, a renegociação de uma dívida pública de cerca de 100 bilhões de dólares --que parece impagável no curto prazo-- será essencial para o futuro de seu governo.
"O desafio de Fernández passa por criar as condições de confiança com uma manobra rápida para que a economia se ponha em marcha novamente, e isso vai depender do que fará com a dívida", disse à Reuters o analista político Julio Burdman.
Como as conversas com o Fundo Monetário Internacional (ao qual a Argentina deve ao redor de 44 bilhões de dólares) são vitais, Fernández escolheu para o Ministério das Finanças um acadêmico especializado em dívida, Martín Guzmán, um jovem discípulo do ganhador do Prêmio Nobel Joseph Stiglitz.
Muitos investidores têm se mostrado inquietos com a probabilidade de que Fernández penda para uma regulação maior da economia, como fez sua vice-presidente, Cristina Kirchner, quando governou o país entre 2007 e 2015.
Por outro lado, qualquer ajuste na economia poderia lhe dificultar manter a coesão da aliança heterogênea de centro-esquerda que o levou ao poder, e por isso se espera uma mudança no que diz respeito às políticas de austeridade impulsionadas por seu antecessor neoliberal, Mauricio Macri.
Os poderosos sindicatos peronistas exigem aumentos salariais que permitam aos trabalhadores recuperar o poder de compra que perderam nos últimos anos por causa da inflação alta, enquanto as organizações de desempregados pedem um aumento dos subsídios para os mais pobres.
Se a economia não voltar a crescer, dificilmente Fernández poderá satisfazer todas as demandas.