Ciência

Pena em fezes de dinossauro pode explicar como aves sobreviveram à extinção

Fóssil de cerca de 66 milhões de anos preservou estrutura em 3D junto a fragmentos de ossos e escamas de peixe, oferecendo um raro retrato da época

Pena fossilizada: estrutura foi encontrada junto a fragmentos de ossos de ave e escamas de peixe em Montana (Jingmai O'Connor/Museu Field)

Pena fossilizada: estrutura foi encontrada junto a fragmentos de ossos de ave e escamas de peixe em Montana (Jingmai O'Connor/Museu Field)

Publicado em 20 de setembro de 2026 às 11h00.

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Uma pena preservada dentro de fezes fossilizadas de um dinossauro pode oferecer novas pistas sobre por que algumas aves sobreviveram à extinção em massa que eliminou os dinossauros não avianos. O fóssil manteve detalhes tridimensionais raramente encontrados em exemplares desse período.

A descoberta foi descrita em um estudo publicado na última quinta-feira, 10, na revista científica Current Biology. Segundo os pesquisadores, trata-se do único exemplo conhecido de uma pena da era dos dinossauros preservada dentro de uma rocha sem ter sido completamente achatada ao longo de milhões de anos.

O material foi encontrado na Formação Hell Creek, em Montana, nos Estados Unidos, e também continha fragmentos de ossos de uma ave e escamas de peixe. A combinação permitiu aos pesquisadores obter informações sobre as características do animal e seu lugar na cadeia alimentar.

Pena apareceu quando fóssil se partiu ao meio

O material foi descoberto em 2016, quando um pesquisador encontrou um pedaço de fezes fossilizadas produzido por um grande dinossauro.

O fóssil se partiu e revelou uma pequena pena em seu interior, acompanhada por fragmentos de ossos de ave e escamas de peixe. Os pesquisadores apontam que as fezes podem ter pertencido a um Nanotyrannus ou a um Tyrannosaurus rex.

Outras penas do Mesozoico, período entre aproximadamente 252 milhões e 66 milhões de anos atrás, já foram encontradas preservadas em âmbar. Nesses casos, porém, geralmente aparecem isoladas.

A presença de diferentes restos no mesmo material ofereceu aos cientistas informações adicionais sobre a anatomia, a alimentação e o modo de vida da ave.

Foto: Divulgação/David DeMar, Jr. (Divulgação/David DeMar, Jr.)

Estrutura em 3D revela detalhes da ave pré-histórica

Para investigar o fóssil, os pesquisadores utilizaram microtomografia computadorizada, técnica que permitiu produzir uma imagem tridimensional da pena.

A análise mostrou que o eixo central tinha formato aproximadamente quadrado e era oco, com um material de aspecto espumoso em seu interior. Segundo os pesquisadores, essa configuração ajudaria a manter a pena resistente e, ao mesmo tempo, leve.

Do eixo também partiam barbas interligadas formadas por queratina. No conjunto, a organização apresentava semelhanças com a encontrada nas penas das aves modernas.

Próximos à pena, os cientistas identificaram ossos robustos da coxa que pertenciam à mesma ave. Também havia escamas do peixe que o animal provavelmente havia ingerido pouco antes de ser devorado pelo dinossauro.

A combinação dessas evidências levou a equipe a concluir que o animal provavelmente pertencia a um grupo de aves aquáticas incapazes de voar. Essas aves teriam utilizado as patas para se impulsionar na água durante a busca por alimento, de maneira semelhante a algumas aves aquáticas atuais. Diferentemente delas, porém, possuíam dentes afiados usados para capturar peixes.

As penas corporais também apresentavam uma característica importante: aparentemente ofereciam menos isolamento térmico do que as penas das aves modernas.

Isolamento térmico pode ter influenciado sobrevivência

Essa característica pode ajudar a investigar por que esse grupo não sobreviveu à extinção em massa ocorrida no fim do período Cretáceo.

Após o impacto do asteroide, há cerca de 66 milhões de anos, cientistas acreditam que as temperaturas globais caíram significativamente. Nesse cenário, uma cobertura corporal capaz de conservar melhor o calor poderia ter representado uma vantagem para manter a temperatura e reduzir o gasto de energia.

Os pesquisadores levantam a hipótese de que o menor isolamento proporcionado pelas penas pode ter contribuído para deixar essas aves mais vulneráveis às novas condições ambientais.

A descoberta, entretanto, não demonstra que essa característica determinou sua extinção. Segundo Jingmai O’Connor, paleontóloga do Field Museum of Natural History que analisou a pena, uma combinação de fatores provavelmente tornou diferentes espécies mais ou menos vulneráveis durante a extinção em massa.

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