Imunidade de rebanho nos Estados Unidos é improvável, dizem especialistas

Especialistas analisam surgimento de variantes, vacinação desigual pelo mundo e outros fatores para reconsiderar a teoria da imunidade de rebanho

E como anda a imunidade de rebanho? A teoria que ganhou força no início da pandemia do novo coronavírus por causa de seu caráter otimista vem sendo relembrada com o avanço das campanhas de vacinação pelo mundo, mas agora com fatores como novas variantes e distribuição desigual de doses por regiões e países abaixando as expectativas.

A imunidade de rebanho é uma teoria de que, ao ter aproximadamente 70% de uma população imunizada, a mesma teria uma espécie de imunidade coletiva. Nos Estados Unidos, mais de metade da população já tomou ao menos uma dose da vacina, mas as taxas diárias de vacinação vêm caindo e indicam para cientistas e especialistas em saúde pública de que o mágico 70% talvez não seja alcançável.

Agora, uma terceira saída soa mais razoável: eventualmente o vírus deve se tornar uma ameaça mais administrável no país  pelo menos é essa a expectativa.

Há diversos fatores que entram em jogo e, no geral, o futuro ainda é imprevisível. Dependemos de avanços na criação de tratamentos e vacinas, a distribuição delas igualmente (e rapidamente) pelo mundo, além de um maior controle e conhecimento sobre as variantes.

“É improvável que o vírus desapareça”, disse Rustom Antia, biólogo evolucionário da Emory University, ao New York Times. “Mas queremos fazer todo o possível para verificar se há probabilidade de se tornar uma infecção leve.”

O principal conselheiro sobre a covid-19 do governo do presidente Joe Biden, dr. Anthony S. Fauci, reconhece a mudança de conclusão dos especialistas sobre a imunidade de rebanho. Nos primeiros meses da pandemia, Fauci também era um dos que acreditavam que a disponibilização das vacinas iria fazer com que o país alcançasse a imunidade de rebanho.

“As pessoas estavam ficando confusas e pensando que você nunca iria reduzir as infecções até atingir esse nível místico de imunidade coletiva, qualquer que seja esse número. É por isso que paramos de usar a imunidade de rebanho no sentido clássico”, explicou Fauci. “Estou dizendo: esqueça isso por um segundo. Você vacina pessoas suficientes, as infecções vão diminuir.”

Quando a teoria de rebanho ganhou destaque, os cálculos foram baseados considerando a versão original do vírus SARS-CoV-2. Agora, nos Estados Unidos, a variante britânica B.1.1.7 é a predominante no país e cerca de 60% mais transmissível.

De acordo com o New York Times, especialistas calculam que a suposta imunidade de rebanho seria em 80% considerando a nova cepa. Porém, os cálculos mudariam caso outras variáveis, como as próprias variantes, entrassem em jogo.

Além disso, as pesquisas mostram que cerca de 30% da população americana não quer ser vacinada. “É teoricamente possível que possamos chegar a cerca de 90% de cobertura vacinal, mas não é muito provável, eu diria”, disse Marc Lipsitch, epidemiologista de Harvard ao NYT.

Outro fator que torna a imunidade de rebanho menos favorável é que o Estados Unidos é um país gigantesco, com uma população de aproximadamente 328 milhões. “Se a cobertura for de 95% nos Estados Unidos como um todo, mas 70% em alguma cidade pequena, o vírus não se importa”, explicou ele. “Ele fará o seu caminho ao redor da pequena cidade.”

Portanto, dado o grau de movimento entre as regiões, uma pequena onda de vírus em uma região com baixo nível de vacinação pode facilmente se espalhar para uma área onde a maioria da população está protegida.

O problema também atinge outros países, especialmente com a diminuição das restrições para viagens internacionais. Não há como proteger todo o país com pessoas saindo e voltando de outras regiões que ainda não têm o coronavírus sob controle.

“Não alcançaremos imunidade coletiva como país, estado ou mesmo como cidade até que tenhamos imunidade suficiente na população como um todo”, disse Lauren Ancel Meyers, diretora do Consórcio de Modelagem Covid-19 da Universidade do Texas ao NYT.

O que o futuro pode reservar

A expectativa dos especialistas entrevistados pelo NYT é que o coronavírus se torne sazonal, como a gripe, e atinja principalmente jovens e pessoas saudáveis. Com o avanço da vacinação, a taxa de hospitalizações e mortes já irá reduzir drasticamente, e a maior preocupação é o que pode acontecer com o fim das restrições de isolamento social.

“O que queremos fazer no mínimo é chegar a um ponto em que tenhamos apenas pequenos surtos esporádicos”, disse Carl Bergstrom, biólogo evolucionário da Universidade de Washington em Seattle. “Esse seria um alvo muito sensato neste país [EUA], onde temos uma excelente vacina e a capacidade de aplicá-la.”

Especialistas em saúde pública recomendam testes e rastreamento de novos casos em comunidades para monitorar o surgimento de novas cepas e tentar reduzir o número de casos, além de evitar um potencial surto. Caso não haja controle, novas variantes podem romper a proteção da vacina e piorar ainda mais a situação nos EUA e pelo mundo.

Jeffrey Shaman, epidemiologista da Universidade Colúmbia, disse: "A frequência e a gravidade dessas infecções têm o potencial de determinar se os Estados Unidos podem manter baixas as hospitalizações e as mortes ou se o país se encontrará em uma “confusão louca” a cada dois anos".

Obrigado por ler a EXAME! Que tal se tornar assinante?


Tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo de seu dia. Em poucos minutos, você cria sua conta e continua lendo esta matéria. Vamos lá?


Falta pouco para você liberar seu acesso.

exame digital

R$ 12,90/mês
  • Acesse onde e quando quiser.

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.
Assine

exame digital + impressa

R$ 29,90/mês
  • Acesse onde e quando quiser

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.

  • Edição impressa mensal.

  • Frete grátis
Assine

Já é assinante? Entre aqui.