Ciência

Ave gigante considerada extinta desde 1898 é redescoberta graças a uma pegada

Animal possui grande valor cultural para os Māori, o povo indígena do país da Nova Zelândia

Takahe: ave não voadora nativa da Nova Zelândia ( Wolfgang Kaehler/LightRocket/Getty Images)

Takahe: ave não voadora nativa da Nova Zelândia ( Wolfgang Kaehler/LightRocket/Getty Images)

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 18h33.

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O takahe, ave não voadora nativa da Nova Zelândia, é facilmente reconhecido pela plumagem azul-esverdeada e o corpo robusto, remetendo a uma aparência pré-histórica. Antes amplamente distribuído nas Ilhas Norte e Sul, teve sua presença drasticamente reduzida ao longo do tempo, com o desaparecimento completo da população da Ilha Norte ocorrido há séculos.

A subespécie da Ilha Sul, Porphyrio hochstetteri, chegou a ser declarada extinta em 1898. No entanto, pequenos grupos continuaram vivendo isoladamente em vales alpinos de difícil acesso. A ave possui grande valor cultural para os Māori, o povo indígena do país.

A redescoberta em 1948 foi considerada um marco na preservação da biodiversidade da Nova Zelândia e reafirmou a ave como um taonga, ou seja, um tesouro, segundo a tradição maori.

O retorno do takahe à cena científica ocorreu graças a pistas observadas na região do Lago Te Anau, como pegadas incomuns e sons desconhecidos. O médico e entusiasta da história natural Dr. Geoffrey Orbell liderou uma pequena expedição às montanhas de Murchison em 20 de novembro de 1948, explorando uma área remota e pouco visitada. O grupo avançou por vales estreitos e terrenos alpinos guiado por sinais da presença da ave.

A confirmação do redescobrimento se deu quando o grupo encontrou um exemplar do takahe: robusto, de plumagem vibrante entre azul e verde, e com um bico vermelho característico. Embora considerado extinto por décadas, o animal havia sobrevivido alheio à ameaça de desaparecimento total. Fotografias e registros físicos serviram como prova da descoberta, que repercutiu internacionalmente e deu novo impulso aos estudos sobre conservação.

A ave apresenta características comportamentais únicas. Vive em pastagens alpinas, onde se alimenta de gramíneas que arranca para alcançar suas partes mais tenras. Nos meses frios, migra para altitudes menores em busca de abrigo nas florestas. Também forma pares monogâmicos e cria um único filhote por ciclo reprodutivo, mantendo os ninhos bem escondidos.

A redescoberta não apenas demonstrou a resiliência da espécie, como também evidenciou sua vulnerabilidade frente à perda de habitat e à presença de predadores introduzidos.

Com a confirmação da existência do takahe, autoridades da Nova Zelândia agiram rapidamente. As Montanhas Murchison foram transformadas em área de proteção ambiental para preservar o habitat da ave. Animais como arminhos e ratos, responsáveis pela queda de diversas populações de aves nativas, foram alvo de ações de controle.

O Serviço de Vida Selvagem da Nova Zelândia, predecessor do atual Departamento de Conservação, deu início a uma série de medidas de proteção, incluindo monitoramento, controle de predadores e estudos de campo sobre comportamento e reprodução da espécie.

Com o tempo, a estratégia foi ampliada com programas de reprodução em cativeiro e realocação para santuários livres de predadores, como as ilhas de Tiritiri Matangi e Kapiti. Nesses locais, os takahes puderam se reproduzir com mais segurança, favorecendo o crescimento populacional.

A população atual do takahe ultrapassa os 500 indivíduos, segundo estimativas recentes, representando uma recuperação expressiva desde 1948. Ainda classificada como "Em Perigo" pela Lista Vermelha da IUCN, a espécie está distribuída entre santuários ecológicos e áreas protegidas em seu habitat original nas Montanhas Murchison.

A mitigação das ameaças históricas, como a ação de predadores exóticos e o desmatamento, tem sido decisiva para essa recuperação. A criação de áreas livres de predadores e o apoio da sociedade neozelandesa à conservação reforçam esse cenário de otimismo cauteloso.

Apesar dos avanços, o ciclo reprodutivo lento e a dependência de habitats específicos mantêm a espécie em estado de alerta. Fatores como mudanças climáticas, doenças e financiamento ainda podem comprometer os progressos.

O acompanhamento contínuo por parte de especialistas segue sendo essencial para garantir a sobrevivência do takahe em longo prazo.

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