Carne vermelha: estudo com quase 90 mil adultos encontrou relação entre maior ingestão de Neu5Gc e diabetes tipo 2 (Freepik)
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Publicado em 20 de outubro de 2026 às 08h08.
Um açúcar naturalmente presente na carne vermelha foi associado a um risco 63% maior de desenvolver diabetes tipo 2. A relação foi identificada em um estudo com quase 90 mil adultos, que investigou como uma substância encontrada principalmente na carne bovina e de cordeiro pode estar relacionada ao desenvolvimento da doença.
Os resultados preliminares, apresentados na reunião anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD), em Milão, na Itália, apontam uma possível ligação entre o ácido N-glicolilneuramínico, conhecido como Neu5Gc, e processos inflamatórios no organismo.
A pesquisa foi realizada por cientistas da Universidade Sorbonne Paris Nord, na França, e publicadas no ScienceDaily. Os pesquisadores observaram que a associação permaneceu significativa após considerar fatores como alimentação, atividade física, tabagismo e condições de saúde preexistentes.
Após o consumo, a substância pode ser absorvida e incorporada aos tecidos. Como o corpo humano não a produz naturalmente, o sistema imunológico pode reconhecê-la como estranha e produzir anticorpos contra ela.
Essa reação pode desencadear um processo inflamatório persistente, conhecido como xenosialite, que já foi relacionado a doenças cardiovasculares e câncer.
Os pesquisadores investigam se essa inflamação também pode afetar as células responsáveis pela produção de insulina ou os tecidos que respondem ao hormônio, contribuindo para o desenvolvimento do diabetes tipo 2.
Os pesquisadores analisaram dados de 89.953 adultos participantes do estudo francês NutriNet-Santé, que acompanha a relação entre alimentação, estilo de vida e saúde.
Os voluntários tinham, em média, 42 anos, e 79% eram mulheres. Nenhum apresentava diabetes tipo 2 ou câncer no início do acompanhamento. A equipe estimou a ingestão de Neu5Gc a partir de registros alimentares e dividiu os participantes em cinco grupos, conforme a quantidade consumida.
Durante um acompanhamento médio de 7,2 anos, foram registrados 966 novos casos de diabetes tipo 2. Em comparação com o grupo que consumia menos Neu5Gc proveniente da carne, os participantes com maior ingestão apresentaram risco 63% maior de desenvolver a doença. No segundo grupo de maior consumo, o aumento foi de 41%.
Entre os homens com maior exposição ao açúcar, o consumo mediano de carne vermelha foi de 97 gramas por dia. Entre as mulheres, chegou a 73 gramas. De acordo com o estudo, essas quantidades descrevem os hábitos dos participantes e não representam limites estabelecidos de consumo seguro.
A pesquisa também investigou quanto do risco observado poderia estar relacionado ao excesso de peso. Segundo os cientistas, a obesidade explicou aproximadamente 13% da associação entre o consumo de Neu5Gc proveniente da carne e o diabetes tipo 2.
O resultado sugere que outros fatores, além do ganho de peso, podem participar dessa relação. Uma das hipóteses envolve a inflamação crônica provocada pela resposta imunológica ao açúcar.
No entanto, quando os pesquisadores ajustaram a análise para a quantidade total de carne vermelha consumida, a associação entre Neu5Gc e diabetes perdeu significância estatística.
Isso impede determinar se o próprio açúcar contribui para o risco ou se a relação depende de outros componentes da carne vermelha.
Embora também esteja presente nos laticínios, o Neu5Gc proveniente desses alimentos não apresentou associação significativa com o aumento do risco de diabetes tipo 2.
Uma possível explicação é que as quantidades desse açúcar consumidas por meio do leite e de seus derivados sejam menores do que as encontradas na carne vermelha.
Ao considerar o Neu5Gc de todas as fontes alimentares, os pesquisadores identificaram um risco 37% maior de diabetes entre os participantes com maior ingestão, em comparação com aqueles que consumiam menos.A equipe pretende investigar a interação do Neu5Gc com outros componentes da carne, como o ferro heme, e medir diretamente os anticorpos produzidos contra a substância.