Pesquisa revela mecanismo de resistência da bactéria ligada ao caso Ypê (Freepik)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 4 de julho de 2026 às 06h25.
Nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil, a sensação é de que a confiança na ciência entrou em colapso. Políticos questionam vacinas e pesquisas climáticas, movimentos anticiência ganham espaço nas redes sociais, e o próprio Vaticano convocou uma reunião para discutir o que chama de "crise de confiança na ciência".
Em janeiro de 2026, uma pesquisa britânica concluiu que apenas 40% das pessoas acreditam que as informações científicas que ouvem são "geralmente verdadeiras".
Outros dados, porém, contam uma história mais complexa e, em alguns aspectos, surpreendente.
Um dos maiores estudos já realizados sobre o tema ouviu quase 72 mil pessoas em 68 países entre 2022 e 2023 e encontrou um nível de confiança "moderadamente alto" na ciência: 3,6 numa escala de 1 a 5.
O projeto, chamado TISP (Trust in Science and Science-Related Populism), reuniu cerca de 240 pesquisadores ao redor do mundo e foi coordenado por Niels Mede e Viktoria Cologna após uma chamada no Twitter que viralizou no período pós-pandemia.
"A ideia de que há uma falta generalizada e difundida de confiança na ciência e nos especialistas é simplesmente infundada na minha cabeça", disse David Bersoff, diretor de pesquisa do Edelman Trust Institute.
Uma pesquisa do próprio instituto realizada em 28 países em 2025 revelou que 76% dos entrevistados confiam em cientistas, índice comparável ao de professores (73%) e bem acima de jornalistas (54%) e líderes governamentais (49%).
A confiança variou por região. Foi relativamente alta em países africanos como Nigéria e Quênia, e baixa na Rússia e em algumas nações da antiga União Soviética. Os Estados Unidos ficaram no terço superior do ranking; a China, próxima à média global.
Alguns pesquisadores argumentam que o que existe é menos uma crise de confiança do que uma crise de influência. "Os cientistas não estão perdendo a batalha da confiança. Estão perdendo a batalha da influência porque estão em menor número, com menos recursos, e não são tão eficazes porque são muito apegados a fatos, dados e pesquisas", disse Bersoff à revista Nature.
Isso não significa que não há problemas reais. No Reino Unido, a proporção de pessoas que confiavam "muito" na ciência caiu de 63% em 2020 para 34% em 2026. Nos Estados Unidos, dados históricos do General Social Survey mostram que a confiança geral permaneceu estável por décadas, mas a parcela com "muita confiança" caiu acentuadamente a partir de 2022.
A queda americana faz parte de uma perda mais ampla de confiança nas instituições em geral, não apenas na ciência. A Pew Research Center registrou quedas semelhantes na confiança em policiais, líderes empresariais e representantes eleitos no mesmo período.
"Existem tendências de queda na ciência, mas elas se parecem muito com as tendências em outras instituições", disse a especialista em comunicação científica Kathleen Hall Jamieson, da Universidade da Pensilvânia.
O que é específico à ciência, no entanto, é a polarização política. Dados da Pew Research mostram que a confiança de eleitores republicanos ou simpatizantes do Partido Republicano em cientistas caiu de 85% em 2020 para 65% em 2025.
Entre democratas, o número mal se moveu: de 91% para 90%. O fenômeno não é exclusivamente americano, o estudo TISP encontrou associação entre menor confiança e orientação política de direita também no Canadá, no Brasil, na Itália e no Reino Unido.
Pesquisadores apontam múltiplas causas para essa divisão. James Druckman, cientista político da Universidade de Rochester, argumenta que parte da explicação está na "reordenação" de grupos demográficos entre os partidos: pessoas com menor escolaridade — historicamente mais céticas em relação à ciência — migraram para o campo republicano, enquanto pessoas com diploma universitário foram em direção oposta.
Mas há também um fator político deliberado. A partir de meados dos anos 1990, alguns políticos perceberam que poderiam mobilizar eleitores insatisfeitos com o custo do ensino superior cultivando a visão de que cientistas e acadêmicos fazem parte de uma elite intelectual desconectada da população.
A pandemia acelerou esse processo. Restrições baseadas em evidências científicas — vacinas, máscaras, lockdowns — foram interpretadas por parte da população como imposições ideológicas. "Se a sua ideologia diz que não devemos ser regulados, e a implicação da ciência é que os políticos colocam regulação na mesa, vai ser fácil para as pessoas dizerem 'não gosto disso'", disse Jamieson.
Outro ponto de preocupação é a disseminação de afirmações falsas ou não comprovadas sobre saúde. Uma pesquisa realizada em 16 países em 2026 pelo Edelman Trust Institute encontrou que 70% dos entrevistados acreditavam em pelo menos uma afirmação falsa ou sem respaldo científico — como a de que os riscos das vacinas infantis superam os benefícios, que o leite cru é mais saudável que o pasteurizado ou que o paracetamol na gravidez causa autismo.
O estudo TISP revelou que plataformas como o YouTube são a principal fonte de informação científica para pessoas em 53 dos 68 países pesquisados. No levantamento britânico de 2026, 38% dos entrevistados disseram que há "informação demais disponível para saber o que é verdade sobre ciência".
Para a pesquisadora Alex Ruani, do University College London, o problema não é falta de bons comunicadores científicos — é que os algoritmos das redes sociais não os amplificam. "Temos ótimos comunicadores, mas eles não estão sendo amplificados — o algoritmo não os acha emocionantes o suficiente", disse ela à Nature. Ruani defende que as empresas de tecnologia deveriam ser mais rigorosas na identificação e limitação da disseminação de conteúdo potencialmente prejudicial — e que reguladores governamentais deveriam ser mais firmes em cobrar essa responsabilidade.
Para o sociólogo Gordon Gauchat, da Universidade de Wisconsin-Milwaukee, o risco mais profundo não é a desconfiança em cientistas específicos, mas a erosão da confiança na informação baseada em evidências. "Se as pessoas perderam a fé de que os humanos podem usar o conhecimento para melhorar o mundo", disse ele, "isso é assustador."