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Vídeo de americana viraliza no TikTok e convida a passeio pelo Rio de Machado de Assis

O "Bruxo do Cosme Velho" cita a cidade 142 vezes em romances e contos; seus livros trazem ainda referencias a ruas, igrejas, praças, prédios e recantos cariocas

Rio de Janeiro - Pão de Acucar - Praia de Botafogo - Baia de Botafogo  Foto: Leandro Fonseca   Data: 01/09/2023 (Leandro Fonseca  /Exame)

Rio de Janeiro - Pão de Acucar - Praia de Botafogo - Baia de Botafogo Foto: Leandro Fonseca Data: 01/09/2023 (Leandro Fonseca /Exame)

Agência o Globo
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Publicado em 25 de maio de 2024 às 13h16.

Um minuto e dezoito segundos. Foi o tempo que Courtney Henning Novak, de 45 anos — “escritora, podcaster e dona de casa” — precisou para lançar luz sobre um dos mais celebrados clássicos da literatura brasileira: “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis (1839-1908).

Longe de elaborar densa crítica às qualidades da obra, o que ela fez foi se sentar diante da câmera e falar com espanto e paixão sobre o livro que, na ocasião, sequer havia terminado de ler. Publicado em seu perfil no TikTok há pouco mais de uma semana, o vídeo, que caminha para ultrapassar um milhão de visualizações, catapultou as vendas da versão em inglês da obra.

@courtneyhenningnovak

I absolutely LOVED the Posthumous Memoirs of Bras Cubas by Machado de Assis, my pick for Brazil. Seriously, this might be my new favorite book. I will definitely be reading more books by this author and more Brazilian literature. #readaroundtheworld #booktok

♬ original sound - Courtney Henning Novak

Moradora de Pasadena, na Califórnia, Courtney nunca esteve no Rio de Janeiro, mas sente que foi transportada para o território carioca pelas mãos de Machado. Ao Globo, ela disse que a leitura despertou a vontade de conhecer a cidade e sua cultura.

— Com certeza notei a presença do Rio de Janeiro no livro, em parte pelos lugares, mas principalmente pelas pessoas. Saí com um forte senso de uma cultura vibrante. Nunca estive no Rio, mas adoraria visitar o Brasil algum dia. Sei que o Rio é uma grande atração turística pelas praias, pela música e pela arquitetura, mas estou mais interessada em conhecer as pessoas — disse.

Uma vida no Rio

Machado é conhecido pelos personagens marcantes, mas nenhum é mais presente na sua obra que o próprio Rio de Janeiro, cidade onde o escritor nasceu e de onde saiu em duas oportunidades apenas: visitou Nova Friburgo, na Região Serrana, e Barbacena, em Minas Gerais. O nome da cidade aparece 142 vezes em seus romances e contos. A conta foi feita pela equipe do site machadodeassis.net, projeto concebido e coordenado por Marta de Senna.

A professora da UFRJ e pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa — hoje aposentada — é reconhecida especialista na obra do “Bruxo do Cosme Velho”. Não espanta, portanto, que sua caixa de mensagens tenha ficado cheia após o sucesso da publicação de Courtney Novak.

— Recebi mensagens de muita gente. De um amigo que é professor da UFRJ a um primo que mora no meio da Amazônia, e até da Holanda. Continua chegando. É impressionante a capacidade de disseminação disso — diverte-se Marta, que presidiu a Casa de Rui Barbosa de 2016 a 2018.

Despretensioso, o vídeo de Courtney foi gravado no contexto de um desafio que leva influenciadores e curiosos a documentar sua odisseia para ler ao menos um livro de cada um dos 195 países do planeta.

— O importante é que foi algo positivo. Se duas pessoas se dispuserem a ler “Memórias póstumas de Brás Cubas” por causa desse TikTok, já valeu a pena. Acho que será muito mais, é claro. Que bom que essa moça está interessada em ler e em expressar a sua opinião num meio que tem capacidade vertiginosa de disseminação — diz a pesquisadora.

O número de novos leitores de Brás Cubas, publicado originalmente em 1881, deu um salto. Na semana posterior à publicação, a versão impressa do livro, da Penguin Books, com tradução de Flora Thomson-DeVeaux — mostrada pela californiana no vídeo — e vendida a US$ 16,20 (pouco mais de R$ 83), chegou ao topo da lista de mais vendidos na categoria Caribe e América Latina da Amazon. E lá permaneceu, pelo menos até ontem.

Rua do Ouvidor, a campeã

A pesquisa no site desenvolvido por Marta de Senna — que, ela faz questão de ressaltar, está em constante processo de aperfeiçoamento — mapeia um a um os nomes de ruas, igrejas, praças, prédios e recantos relevantes do Rio retratados pelo escritor.

A Rua do Ouvidor, por exemplo, aparece 77 vezes nos textos de contos e romances, três delas em “Memórias Póstumas”. O Passeio Público é citado 21 vezes. O antigo Rossio (atual Praça Tiradentes), 15 vezes. A Igreja do Carmo e o Passo Imperial, sete e seis, respectivamente. O bairro de Botafogo merece 70 citações e a sua praia, 20.

Para o escritor Alberto Mussa, a capacidade de apresentação dos espaços é uma das principais contribuições do autor.

— Machado de Assis possui uma relação interessante com a cidade porque ele anula o aspecto trágico da vida e traz a ironia. É a cara do Rio. Além disso, a cidade acaba fazendo parte da trama. A gente observa que os personagens dele só fazem sentido em um determinado espaço e tempo — comenta Mussa.

Tantas referências levaram ao surgimento de roteiros turísticos conduzidos por Machado e sua obra. Juliana Moreno é guia e, desde 2016, realiza passeios literários pela cidade. Entre eles está o Rio de Machado, em que leva grupos a percorrer locais presentes na vida e na obra do criador de “Dom Casmurro”.

— Quando uma entrevista, vídeo ou um assunto está em voga, como está acontecendo agora com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, acontece um aumento no interesse pelo turismo literário, mas Machado é enorme, e percebo que muitos fãs dele procuram os passeios para conhecer melhor suas obras e a cidade do Rio — explica Juliana.

Criadores do projeto Encontro Literário, a bibliotecária e guia turística Fernanda Duarte, 27 anos, e o empresário Ádamis Gonçalves, 28 anos, criaram roteiros que percorrem o Centro tendo como base os contos machadianos “A Cartomante”, “Entre Santos” e “Missa do Galo”.

— Machado de Assis conseguiu como ninguém descrever as ruas da cidade e suas transformações, deixando para nós um marco temporal que cem anos depois pode ser visitado. Assim, imaginamos como era em seu tempo — observa Fernanda Duarte. — Podemos conhecer a rua em que Capitu e Bentinho (protagonistas de “Dom Casmurro”) moravam, Mata-Cavalos (atual Riachuelo), e imaginar em qual ponto da rua da Guarda Velha (atual Treze de Maio) o tílburi do Camilo, de “A Cartomante”, virou.

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