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'Primal': a animação adulta que você não assistiu, mas deveria

Enquanto animações quebram recordes históricos de bilheteria, o lendário Genndy Tartakovsky prova que, para emocionar o público, às vezes não é preciso dizer uma única palavra

Primal: a série adulta sem diálogos que vai te fazer chorar (Divulgação)

Primal: a série adulta sem diálogos que vai te fazer chorar (Divulgação)

Luiza Vilela
Luiza Vilela

Repórter de Casual

Publicado em 25 de março de 2026 às 11h01.

Última atualização em 25 de março de 2026 às 12h59.

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O cinema vive uma nova Era de Ouro da animação. Se em 2024 vimos o fenômeno de Divertida Mente 2 se tornar a animação mais assistida da história — com faturamento de quase US$ 1.7 bilhão, 2025 consolidou o gênero como o verdadeiro dono das bilheterias globais. Da China veio o furacão Ne Zha 2 (US$ 2,2 bilhões), seguido por Zootopia 2 (US$ 1,8 bilhão). Até o streaming surfou a onda: Guerreiras do K-POP rompeu a barreira de meio bilhão de espectadores na Netflix e levou o Oscar de Melhor Animação para casa.

Nesse espaço fértil e em ascensão, Genndy Tartakovsky, o gênio por trás de clássicos como O Laboratório de Dexter, Hotel Transilvânia e Samurai Jack, resolveu dobrar a aposta com Primal. A série animada é violenta, mas profundamente intimista, e traz entre 20 e 30 minutos de episódios sem diálogos. Está dentro do selo Adult Swim, de animações voltadas para adultos, da HBO Max.

A história acompanha a improvável amizade entre um homem neandertal (Spear) e uma tiranossaura (Fang). Ambos unidos pelo luto após perderem suas famílias em um mundo jurássico brutal. Em cada um dos episódios, o espectador é tragado por uma narrativa visceral de sobrevivência, depressão e conexão profunda, onde o som do vento e os grunhidos de dor substituem qualquer roteiro falado.

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O nascimento de um desafio visual

A ideia de criar algo tão silencioso nasceu de uma observação atenta de Tartakovsky sobre o próprio público. Em entrevista à Casual EXAME, o diretor relembrou o impacto da última temporada de Samurai Jack, em 2017, como o estopim para a criação de Primal já seguindo a trajetória de produzir animações cada vez mais voltadas aos adultos.

“Quando as pessoas me disseram o que amavam em Samurai Jack, elas sempre citavam as sequências sem diálogos, mais contemplativas. Então pensei: 'espera, funcionaria fazer uma série composta por todas essas sequências visuais sem diálogo?' E daí nasceram os primeiros storyboards de Primal, que antes de serem dinossauro e humano, eram outros personagens. Mas a ideia estava lá”, explicou o animador.

Convencer o estúdio a abraçar a ideia foi o maior desafio. Uma coisa, contou Tartakovsky, é trazer uma história adulta nos moldes de Samurai Jack. Outra completamente diferente é criar algo do zero, novo, sem diálogos e precedentes. "Para ser sincero, nem eu confiava em mim mesmo. O jeito de fazer dar certo foi, antes mesmo de mostrar ao meu chefe, eu desenhei todo o storyboard. Aí sim criou vida, e ficou mais fácil de explicar e justificar", contou ele.

Genndy Tartakovsky na CCXP25 (@diegopadilha/divulgação) (@diegopadilha)

Fazer com que o silêncio soasse natural e distante dos filmes mudos do início dos anos 1900, que colocavam os diálogos por escrito ou os encobriam com música, também foi outra dificuldade. A escolha por um homem das cavernas foi o "clique" que faltava.

“Eu queria que o 'sem diálogo' parecesse natural, alguém que não fala, mas fala. Aí me ocorreu: um homem das cavernas não tem linguagem e ainda pode grunhir. E no fim, diálogos nada mais são do que uma maneira de comunicação, e a comunicação pode ser feita muitas vezes por uma troca de olhares”, complementou Genndy.

Atualmente na terceira temporada, Primal já não precisa mais provar que o conceito funciona. Se no início havia a dúvida se o público entenderia a trama sem explicações verbais, hoje a confiança da equipe é absoluta. E para Tartakovsky, o foco nunca foi a proeza técnica da animação, mas sim a capacidade de gerar uma reação física no espectador.

“Comigo, realmente não é sobre as conquistas técnicas que podemos inventar. É sobre a narrativa e o sentimento. Se você pode assistir algo e aquilo te causar um sentimento, esse é o maior sucesso que posso fazer.”

Animação ainda é coisa de criança?

A ascensão de animações adultas como Primal reflete uma mudança geracional. Durante décadas, o gênero carregou o estigma de ser exclusivo para crianças. Mas as bilheterias altas no cinema comprovam que o gênero anda flertando mais e mais com os adultos, assim como os temas dos novos filmes e séries lançados nos últimos cinco anos.

Para Genndy, a internet e a sofisticação das produções ajudaram a derrubar essa barreira com as gerações mais velhas. "Em 2006 e 2008 eu tentei muito emplacar animações adultas, mas ninguém queria isso. Minhas ideias eram boas, mas caras, e a opção mais segura é sempre algo mais familiar. Só que aí as gerações que assistiam aos meus desenhos infantis cresceram", explicou ele.

“Eu acho que essa geração cresceu com desenhos com muita qualidade e coragem para abordar assuntos mais adultos. Para eles, está tudo bem assistir a desenhos. É diferente da minha geração", contou ele, que tem 56 anos. "Agora cabe aos executivos perceberem que, claro, filmes de animação familiares são sempre bem-sucedidos, mas há espaço para filmes de animação adultos. A animação tornou-se mais sofisticada.”

Mesmo competindo com os orçamentos bilionários da Pixar e da Disney, Genndy Tartakovsky segue firme em seu propósito de contar histórias puras. Primal é a prova de que o "gancho emocional" — como a dor compartilhada entre Spear e Fang ao perderem seus filhos — é uma linguagem universal que não precisa de tradução, legendas ou dublagem.

É o audiovisual mais bruto e, por isso mesmo, inesquecível.

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