Os resultados indicam que a sobrecarga cognitiva se consolidou como o principal desafio das organizações (Westend61/Getty Images)
Repórter
Publicado em 13 de janeiro de 2026 às 14h16.
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passará a exigir das empresas a identificação, avaliação e gestão de riscos psicossociais no ambiente de trabalho a partir de maio de 2026, ganha contornos ainda mais urgentes neste mês que é marcado pela campanha ‘Janeiro Branco’, mês dedicado à conscientização sobre saúde mental.
Na prática, grande parte das organizações ainda opera em um cenário de alto risco para o bem-estar emocional de seus funcionários no Brasil, segundo estudo “Índice de Fatores de Risco Psicossociais” realizado pelo Zenklub, empresa especializada em saúde mental corporativa e que integra a Conexa.
De acordo com a pesquisa, 93% das empresas analisadas apresentam alto risco psicossocial associado à exigência excessiva de concentração, atenção e memória no trabalho — fator diretamente relacionado à sobrecarga mental.
O estudo foi desenvolvido para apoiar empresas no mapeamento e na gestão desses riscos, em linha com as novas diretrizes da NR-1. Ao todo, foram analisadas 10.894 respostas de funcionários de 59 empresas de diferentes setores da economia. O indicador avaliou dimensões como carga e ritmo de trabalho, nível de autonomia, clareza de papéis, apoio da liderança, relações profissionais e equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
“Quando analisamos os dados a partir deste indicador, fica evidente que o maior desafio das empresas está na forma como o trabalho é organizado. Sobrecarga, pressão por resultados e falta de recuperação adequada têm impactado diretamente à saúde mental dos funcionários”, afirma Rui Brandão, vice-presidente de Saúde Mental da Conexa e cofundador do Zenklub.
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Os resultados indicam que a sobrecarga cognitiva se consolidou como o principal desafio das organizações. Além dos casos classificados como alto risco, o estudo aponta uma predominância de níveis elevados de risco médio, o que amplia o sinal de alerta para empregadores e lideranças.
A exigência de manter ritmos intensos de trabalho, por exemplo, foi considerada de alto risco em 32% das empresas e de risco médio nas demais 68%.
Entre os principais fatores identificados estão ainda a realização simultânea de múltiplas tarefas, o uso rigoroso de metas de produção, a ausência de pausas pré-definidas para descanso e situações recorrentes de sobrecarga mental no dia a dia corporativo.
“O dado mais relevante é que não estamos falando de casos isolados, mas de um padrão que se repete em diferentes empresas e setores. A sobrecarga mental deixou de ser exceção e passou a ser parte da rotina de trabalho”, diz o executivo.
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Às vésperas da entrada em vigor da atualização da NR-1, o levantamento reforça que os principais riscos à saúde mental nas empresas estão menos ligados às relações interpessoais e mais ao próprio modelo de organização do trabalho.
Fatores tradicionalmente associados ao adoecimento emocional, como assédio, monotonia, falta de autonomia, desequilíbrio entre tempo de trabalho e repouso e insatisfação, apresentaram baixo risco nas empresas analisadas. Em contrapartida, a intensidade, a complexidade e o volume das demandas cognitivas emergem como o principal ponto de atenção.
“A NR-1 trouxe um avanço importante ao reconhecer os riscos psicossociais como parte da gestão de saúde e segurança do trabalho. O índice permite transformar essa diretriz em um diagnóstico prático, mostrando onde o modelo de trabalho está adoecendo as pessoas”, afirma Brandão.