Para expert em RH, Anitta revela erros como líder em documentário da Netflix

Se o comportamento de Anitta com sua equipe gerou polêmica é por que seus erros são bem comuns no mundo corporativo, como explica psicóloga Bela Fernandes

“É o último dia de ensaio e não consegue entrar com a p**** do negócio na hora certa. Eu estou dando 50 mil soluções para vocês terem que raciocinar o mínimo possível, só que aí ensinar a pensar, eu não sei ensinar a pensar”, diz Anitta ao microfone durante ensaio com dançarinos, um dos momentos iniciais de seu documentário na Netflix, “Anitta: Made in Honório”.

Broncas na equipe e críticas sobre a execução de tarefas marcam diversas cenas do documentário da cantora e empreendedora desde o início. A carioca Larissa de Macedo Machado (seu verdadeiro nome) é sua própria empresária e se projetou como um sucesso internacional com apenas 27 anos.

Na Netflix, podemos ver os bastidores de grandes shows e empreitadas da artista. E, enquanto Anitta se destaca como uma potência de lições para negócios e marketing, motivo pelo qual já foi capa da Exame, o documentário também mostra suas falhas de liderança.

No documentário, a cantora não esconde que, como chefe, não é perfeita e fala: “Sou complicada, sou chata, exigente. Trabalho muito. E mudo de humor, porque eu não durmo”. E numa publicação do Twitter, ela ainda comentou: “Se fosse pra não mostrar os defeitos a gente fazia um filme de ficção, né?”.

A psicóloga Bela Fernandes, especialista em coaching executivo da consultoria Aylmer Desenvolvimento Humano, vê que os erros de liderança que Anitta demonstra são, na verdade, muito comuns no mundo corporativo.

“É a síndrome do sucesso e imaturidade, acontece muito no mundo organizacional também”, fala ela. “Ela tem uma experiência intensiva, não extensiva. A intensidade do sucesso sem a maestria gerencial costuma dar nisso”.

Liderança criativa e intuitiva

“Aí eu tive que pegar o microfone e ficar dirigindo o clipe para acabar na hora. Porque o cara não conseguia nem fazer a luz”, comenta Anitta em uma cena do documentário em seu camarim.

Segundo a psicóloga, Anitta é uma pessoa com uma qualidade louvável: ela é uma pessoa visionária e não espera que os outros planejem a carreira para ela. “Ela não tem feedback, não tem RH, ela sai bebendo de várias fontes e aprendendo. É ainda admirável pela juventude dela e pela ausência de uma formação formal de gestão”.

No entanto, a especialista aponta que o tipo de liderança que a cantora demonstra tem seu lado negativo:

“Uma coisa comum com líderes intuitivos e criativos, com visão de futuro e do que ele quer, eles veem as coisas prontas e pecam na comunicação. Muito do que acontece de equívoco na liderança é que o líder cheio de visão de futuro enxerga a coisa pronta, mas ele delega muito mal. Então, esse esporro que ela está dando: é desnecessário e com traços de abuso moral. Mas vamos supor que ela passou orientações segundo sua própria cabeça. A parte concreta do ‘to do’, talvez ela pule essa parte. É muito comum nos líderes intuitivos”, explica.

Imaturidade de gestão

“Coisas que acontecem pela imaturidade da líder é que ela traga pessoas para trabalhar junto que se pareçam com ela. Então você pode ter outros líderes de área e setores que sejam todos parecidos entre si. Também elaboram um pensamento de possibilidades visuais e não têm planos concretos. E aí, quando ela pensa que tudo está acontecendo, os outros que se parecem com ela passam as ordens com baixa eficácia para baixo. É muito comum no mundo corporativo líderes talentosos, mas com enorme dificuldade de delegar e que ainda escolhem pessoas parecidas”, diz a psicóloga.

A armadilha do comando e controle

A psicóloga também destaca os diferentes níveis de maturidade moral, uma evolução gradativa de inteligência emocional na hora de gerir equipes. O primeiro estágio, o mais primitivo, é o de comando e controle, que Fernandes também chama de risco e punição.

“A Anitta demonstra novamente algo que acontece muito nas organizações. As pessoas chegam com uma experiência acadêmica muito desenvolvida, mas a moral, do impacto que produz sobre si e no outro, muito atrasada. É uma discrepância absurda de ver um líder gritando com os outros por causa de um sumiço de uma borracha, por exemplo. É um processo da maturidade do ser humano. E o desenvolvimento do raciocínio moral acaba se perdendo na nossa formação cognitiva”, diz.

Falta de autoconhecimento

“No autoconhecimento a gente entende que palavrões, mesmo em um ambiente artístico e informal, não são empáticos. Nesse aspecto, ela pulou etapas na carreira, mas demonstra aspectos da liderança do comando e controle. Ela usa o que tem de autoridade para destruir o valor do outro. Mas não acho isso tão estranho na Anitta, que ainda é jovem. O que é estranho é ver gente que se formou em Sorbonne e Harvard, que senta na cadeira de liderança, gerindo muito menos dinheiro que a Anitta, e que se acha no direito de pular etapas do desenvolvimento de raciocínio moral. Tem muita bagagem formal e cognitiva e pouca de raciocínio moral”, completa.

 

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