No trabalho, nem sempre os fins justificam os meios

Na busca pelo triunfo profissional, além de regras, há valores a ser respeitados. As jogadas desleais precisam — e devem — ser eliminadas. Nem tudo é válido

Um jogador que corre com a bola em direção ao gol está cumprindo seu ofício. Está justificando seu salário, fazendo jus ao amor dos torcedores. O outro time sabe disso e tem a obrigação de detê-lo, de impedir o exercício de sua habilidade.

Assim é o futebol, a beleza da arte de jogar, a metáfora da vida, na qual às vezes se vence, às vezes se perde, e que exige planejamento, treino exaustivo e equilíbrio emocional.    

Um gol é sempre motivo de comemoração. Ele é o caminho para a vitória, para a classificação, para o título. No entanto, há gols que deveriam ser lamentados.

Ao perceber um adversário contundido, um jogador coloca a bola para fora para permitir o atendimento ao colega. Quando, finalmente, a redonda é reposta, o jogador que parecia machucado a recebe, em boas condições, para surpresa geral. Passa por zagueiros e, sem nenhum esforço, mete a bola na rede. Ele faz o gol. Um gol maldito.

A maioria dos jogadores e torcedores não consegue esconder o constrangimento. Os locutores esportivos anunciam o feito sem nenhum entusiasmo. Um chega a dizer: “Que vergonha…”. Está criada uma discussão que, com frequência, acontece no mundo das empresas, dos negócios e das carreiras, onde há metas (gols) a ser atingidas e onde parece que vale tudo para sua conclusão. Será? Vejamos.

Aquele jogador não desobedeceu nenhuma regra e trouxe benefícios para seu time. Ele recebeu a bola de forma legal, dentro do campo, no tempo regulamentar e fez o gol. A regra é clara. 

O problema é que o jogo não é regido só por regras, mas também por valores. As regras dizem o que podemos ou não fazer. Os valores dizem o que devemos ou não fazer. O falso jogador machucado pode ter feito o gol, mas não deveria tê-lo feito. Ao simular contusão, onde ficaram a ética e o fair play, tão importantes para que continuemos a amar o futebol?

Partindo da metáfora futebolística e inspirado nas leis da robótica de Asimov, ouso propor três leis para empresas e carreiras longevas. Primeira: o funcionário deve respeitar os valores da empresa.

Segunda: o funcionário deve obedecer as regras, desde que isso não contrarie a primeira lei. Terceira: o funcionário deve dar lucro à empresa, desde que isso não contrarie a segunda e a primeira lei. Senão… gol contra!

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