Carreira

Onde estão os talentos? 81% das empresas têm dificuldade para contratar profissionais qualificados

Pesquisa tenta responder a questão: o que falta para os desempregados conseguirem uma oportunidade de trabalho?

Estudo mostra que 36% priorizam candidatos com alto potencial para depois desenvolvê-los internamente (FG Trade/Getty Images)

Estudo mostra que 36% priorizam candidatos com alto potencial para depois desenvolvê-los internamente (FG Trade/Getty Images)

Publicado em 25 de agosto de 2026 às 10h56.

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Encontrar profissionais qualificados continua sendo um dos principais desafios das empresas brasileiras. Oito em cada dez recrutadores (81%) afirmam enfrentar dificuldades para contratar talentos com as competências necessárias, segundo levantamento da Robert Half.

O dado faz parte do Índice de Confiança Robert Half (ICRH) e revela um paradoxo do mercado de trabalho: enquanto empresas têm dificuldade para preencher determinadas posições, profissionais, principalmente os desempregados ainda demonstram pouca confiança no cenário.

O indicador geral ficou na zona de pessimismo. A percepção sobre o momento atual marcou 36,4 pontos, enquanto as expectativas para os próximos seis meses chegaram a 42,9 pontos. Apesar de ambos permanecerem abaixo dos 50 pontos, linha que separa pessimismo de confiança, houve melhora em relação ao mesmo período do ano passado.

Para Leonardo Berto, gerente da Robert Half, a dificuldade de contratação tem uma explicação importante: boa parte dos profissionais mais disputados já está empregada.

“Esse número é reflexo da escassez de talentos qualificados disponíveis no mercado”, afirma Berto.

Com uma taxa de desemprego de apenas 2,8% entre profissionais acima de 25 anos e com ensino superior completo, Beto reforça que “boa parte dos candidatos mais procurados já está empregada, o que intensifica a disputa entre as empresas por esses profissionais.”

Leonardo Berto, gerente da Robert Half: “O desafio não está apenas em encontrar profissionais disponíveis, mas em encontrar profissionais com a combinação de competências que cada posição exige” (Robert Half /Divulgação)

Veja também: As 5 competências que vão manter o profissional relevante na era da IA, segundo o líder do LinkedIn

O que está faltando nos candidatos?

A dificuldade não está apenas em encontrar profissionais disponíveis. As empresas também estão mais seletivas sobre o conjunto de habilidades esperado de um candidato.

Além do conhecimento técnico, capacidade de adaptação e potencial de desenvolvimento passaram a ganhar espaço nos processos seletivos.

“O desafio não está apenas em encontrar profissionais disponíveis, mas em encontrar profissionais com a combinação de competências que cada posição exige”, afirma Berto.

Diante dessa escassez, algumas empresas estão mudando a estratégia. Outro levantamento da Robert Half, realizado com 500 gestores de contratação, mostra que 36% priorizam candidatos com alto potencial para depois desenvolvê-los internamente, em vez de esperar por alguém que já chegue com todas as competências exigidas.

Esse movimento, segundo Berto, já aparece nas decisões das companhias.

“Muitas organizações passaram a investir em profissionais com potencial de desenvolvimento e aprendizado, mesmo quando não atendem integralmente aos requisitos da vaga.”

Veja também: Mais de 50% dos brasileiros querem mudar de emprego em 2026, aponta pesquisa do LinkedIn

Quais profissionais estão mais difíceis de encontrar?

A escassez não está concentrada em uma única profissão. Ela acompanha algumas das principais transformações em curso dentro das empresas.

Em tecnologia, por exemplo, a digitalização, o avanço do uso de dados e a inteligência artificial aumentaram a demanda não apenas pelas novas especialidades, mas também por profissionais de infraestrutura, redes e segurança da informação.

“Em tecnologia, por exemplo, a corrida pela digitalização, pelo uso inteligente de dados e pela inteligência artificial gerou uma pressão imediata sobre as bases operacionais, exigindo o fortalecimento de infraestrutura tradicional, redes e segurança da informação”, afirma Berto.

A pressão também aparece nas áreas de finanças, contabilidade e fiscal, que precisam lidar com mudanças regulatórias, como os desdobramentos da Reforma Tributária e novas normas de reporte.

Recursos humanos também ganha protagonismo, principalmente nas frentes de atração, retenção e treinamento.

“A gestão de pessoas ganha protagonismo com foco em atração, retenção e programas de capacitação interna dos times, justamente para suprir a falta de profissionais prontos no mercado”, diz o executivo.

Veja também: Um olhar para o futuro: os desafios e avanços do ensino superior no Brasil

Recrutadores estão cautelosos, mas esperam melhora

Entre os profissionais responsáveis pelas contratações, o índice ficou em 36,8 pontos para o cenário atual e 44,1 pontos para os próximos seis meses, a maior expectativa futura entre os três grupos analisados.

A diferença mostra empresas cautelosas no presente, mas mais otimistas em relação ao que pode acontecer nos próximos meses.

Juros elevados, atividade econômica e incertezas eleitorais continuam entrando nas contas das lideranças. Segundo Berto, porém, esses fatores já estão amplamente incorporados ao planejamento das organizações.

“A combinação entre o custo de capital elevado e o mercado de trabalho operando nas mínimas históricas de desocupação faz com que as empresas adotem uma postura de maior cautela financeira e seletividade, focando as decisões de contratação nas necessidades operacionais mais imediatas”, afirma.

Apesar da cautela, há projetos esperando condições melhores para sair do papel, segundo o executivo.

“Há projetos e possíveis contratações em espera, que podem avançar se a economia apresentar condições mais favoráveis nos próximos meses”, diz Berto.

Os dados também não apontam para uma forte onda de cortes: 58% dos recrutadores indicam baixa intenção de realizar demissões atualmente, enquanto 17% esperam que essa intenção seja ainda menor nos próximos meses.

Se faltam profissionais, por que os desempregados não conseguem emprego?

É aqui que aparece uma das maiores contradições do levantamento.

Entre os desempregados, a confiança sobre a situação atual é de apenas 31,4 pontos, o menor resultado dos três grupos. Para os próximos seis meses, o indicador sobe para 42,1 pontos.

Mesmo assim, apenas 24% dizem estar confiantes de que conseguirão uma recolocação nos próximos seis meses.

Como, então, explicar um mercado no qual 81% dos recrutadores dizem ter dificuldade para encontrar profissionais qualificados, mas somente 24% dos desempregados acreditam que conseguirão uma vaga?

“Empresas e candidatos olham para o mercado por perspectivas diferentes”, afirma Berto. “As empresas têm adotado maior cautela e priorizado posições críticas. Para quem busca recolocação, isso se traduz em um mercado mais seletivo e competitivo.”

Ou seja, a existência de vagas e a falta de determinados talentos não significam necessariamente facilidade para conseguir emprego. O desafio está no encaixe entre as competências procuradas pelas empresas e aquelas disponíveis entre os profissionais em busca de recolocação.

Veja também: Carreira em movimento: como empresas estão investindo na mobilidade interna para evitar demissões

Veja também: Rage Applying: Conheça a tendência de desligamento que está crescendo com a Geração Z

Trabalho por projeto vira alternativa

A dificuldade para conseguir uma posição permanente também está aumentando a abertura dos profissionais para outras formas de contratação.

Segundo a pesquisa, 98% dos desempregados afirmam que aceitariam propostas para projetos especializados com prazo determinado.

Para Berto, há uma combinação de necessidade e mudança de percepção sobre esse modelo. Um deles é que hoje o mercado está mais cauteloso para vagas permanentes.

“Profissionais desempregados tendem a ampliar suas opções e considerar oportunidades em diferentes modelos de contratação”, afirma Berto. “Além disso, existe uma compreensão crescente de que projetos especializados podem ser uma forma de manter a empregabilidade e acumular experiência.”

Veja também: ‘Brasil não está preparado para a NR-1’, diz especialista britânico

Quais áreas devem sentir mais a falta de profissionais?

A escassez de talentos não atinge todas as áreas da mesma maneira. Segundo Berto, algumas das maiores pressões estão relacionadas às transformações tecnológicas e regulatórias que as empresas precisam colocar em prática.

Tecnologia é uma delas. A adoção de inteligência artificial, a digitalização das operações e o uso crescente de dados aumentam a procura não apenas por especialistas nessas novas tecnologias, mas também por profissionais responsáveis pela infraestrutura que permite seu funcionamento.

“Em tecnologia, por exemplo, a corrida pela digitalização, pelo uso inteligente de dados e pela inteligência artificial gerou uma pressão imediata sobre as bases operacionais, exigindo o fortalecimento de infraestrutura tradicional, redes e segurança da informação”, afirma Berto.

Outra frente de pressão está nas áreas de finanças, contabilidade e fiscal. Nesse caso, um dos principais motores é a Reforma Tributária, que exige das empresas adaptações às novas regras e aumenta a necessidade de profissionais capazes de conduzir essa transição.

“No ambiente corporativo, as áreas de finanças, contabilidade e fiscal seguem bastante demandadas para conduzir adaptações regulatórias complexas, como os desdobramentos da Reforma Tributária e novas normas de reporte”, diz.

Veja também: O RH com visão de CEO: o futuro do setor cada vez mais estratégico

O mercado está melhor do que há um ano?

Apesar de todos os grupos permanecerem na zona de pessimismo, o cenário apresenta melhora em relação a 2025.

A percepção sobre a situação atual passou de 35,5 pontos em agosto de 2025 para 36,4 pontos em agosto de 2026. Já a expectativa para os seis meses seguintes avançou de 40,2 para 42,9 pontos.

Para Berto, a mudança já pode ser observada dentro das empresas.

“Na prática, as empresas começaram a retomar projetos estratégicos que estavam adiados, como implementação de sistemas, iniciativas de eficiência e produtividade, adoção de inteligência artificial e adequações à Reforma Tributária”, afirma Berto.

O retrato, portanto, é de um mercado ainda cauteloso, mas que começa a apresentar sinais de melhora. Para quem procura uma oportunidade, a pesquisa também deixa uma indicação: em um cenário no qual as empresas não encontram todos os conhecimentos que procuram em um único candidato, capacidade de aprendizado, adaptação e desenvolvimento podem pesar cada vez mais na contratação.

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