Apesar do impacto imediato do anúncio, o efeito não é igual para todos. O alcance da suspensão varia conforme o tipo de visto e o objetivo da ida aos EUA (Brendan Mcdermid/Reuters)
Repórter
Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 11h40.
Última atualização em 21 de janeiro de 2026 às 11h46.
A decisão do governo dos Estados Unidos de suspender, por tempo indeterminado, o processamento de vistos de imigração para cidadãos de 75 países — incluindo o Brasil — passa a valer a partir desta quarta-feira, 21. A medida mira exclusivamente quem busca residência permanente no país e tem como justificativa o reforço do controle sobre o chamado public charge, conceito usado para avaliar se o imigrante pode se tornar um ônus ao depender de benefícios sociais.

Apesar do impacto imediato do anúncio, o efeito não é igual para todos. O alcance da suspensão varia conforme o tipo de visto e o objetivo da ida aos EUA.
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Segundo Vinícius Bicalho, advogado de imigração licenciado nos Estados Unidos e radicado em Orlando há 12 anos, a suspensão atinge os vistos de imigrante — aqueles que conduzem ao green card, a residência permanente.
“Os Estados Unidos têm cerca de 190 tipos de vistos, divididos entre imigrantes e não imigrantes. O que está no radar agora são os vistos de imigrante, para quem quer residir permanentemente no país.”
Entram nesse grupo:
No escritório de Bicalho, o impacto é direto: 90% dos casos atuais envolvem vistos de imigração. “É um perfil que cresceu muito nos últimos anos, especialmente de brasileiros qualificados, empreendedores e investidores”, afirma.
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A boa notícia é que vistos temporários seguem válidos. Continuam sendo processados normalmente:
“Para estudante, turista ou quem vai trabalhar temporariamente, nada muda neste momento.”
Na prática, ter uma experiência internacional — estudar, circular ou trabalhar por período determinado — segue possível, desde que o plano não envolva residência permanente imediata.
A inclusão do Brasil surpreendeu especialistas. De acordo com o advogado, os dados não sustentam a tese de que brasileiros representariam maior custo ao Estado americano.
“O perfil do imigrante brasileiro melhorou muito nos últimos anos, com mais qualificação profissional. Além disso, o índice de overstay — quando a pessoa permanece além do tempo permitido — é inferior à média mundial.”
Mesmo assim, o país passou a integrar uma lista que reúne cerca de um terço dos países do mundo, reforçando o caráter político e comunicacional da decisão.
O que acontece com quem já está no processo
Processos de green card costumam levar anos. Por isso, o impacto imediato recai principalmente sobre quem:
“Os processos continuam tramitando, mas a emissão do visto pode ficar suspensa ao final.”
Ainda não há definição sobre a manutenção ou o cancelamento de entrevistas já marcadas — tudo depende da formalização da norma, que ainda não foi publicada.
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Há espaço para questionamento judicial. Segundo Bicalho, iniciativas semelhantes anunciadas no passado acabaram barradas pelo Judiciário.
“Muitas medidas criam caos na comunidade imigrante, mas não avançam porque ultrapassam os limites legais do Executivo.”
O impacto econômico da imigração também pesa contra restrições amplas. “A história dos Estados Unidos é indissociável da imigração. Quase metade dos líderes da Fortune 500 são imigrantes.”
O novo bloqueio não fecha a porta para estudar, ganhar experiência profissional ou circular internacionalmente. Mas aumenta a incerteza para quem planeja se estabelecer de forma definitiva nos EUA.
Enquanto a norma oficial não é publicada, a recomendação é cautela, acompanhamento próximo e planejamento jurídico.
“Em um cenário de decisões rápidas e comunicação antecipada, o sonho americano segue possível — mas, para alguns perfis, agora exige ainda mais estratégia.”
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