Didi sai da Globo após 44 anos. Como lidar com a saída depois de décadas?

O importante, para a Irene Azevedoh, da LHH, é dar tempo ao tempo e não desanimar (e nem desistir)

Renato Aragão, mais conhecido por seu personagem Didi Mocó, dos Trapalhões, da Rede Globo, saiu da empresa após 44 anos de contrato. Uma realidade comum para pessoas mais velhas que, depois de passarem anos em uma companhia, saem ou são demitidas — e, em meio às oportunidades ou à dificuldade de se realocar, outros problemas podem surgir. Adaptar-se a uma nova cultura empresarial e a uma nova função pode não ser fácil a princípio.

Para Irene Azevedoh, diretora de transição e carreira e gestão da mudança da consultoria LHH, ao passar muito tempo dentro de uma organização, é necessário ter um período de adaptação fora dela. “É preciso dar um tempo para você porque essa readaptação é um pouco mais lenta do que alguém que já está acostumado a procurar emprego”, explica Azevedoh. “Esse é o lado mais chato, mas uma das vantagens é que, se você passou muitos anos dentro de uma organização, você adquiriu muita reputação dentro do que você faz. E é nisso que você deve se agarrar. Na sua reputação e nos seus pontos fortes”, diz.

O caso de Aragão, que é referência em sua área de atuação, é um pouco mais simples do que as demais áreas. “Ele é um comediante que construiu um legado dentro e fora da empresa em que trabalha”, explica. “O principal é não ficar parado, e ele mesmo disse que já está com novas oportunidades no radar.”

Aos 85 anos, Aragão é considerado um dos maiores comediantes do Brasil. Em 1977, estreou na Globo, após três anos na TV Tupi. Líder dos Trapalhões, programa que ficou no ar antes do “Fantástico” até 1995, quando os atores Mussum e Zacarias faleceram. Depois disso, Didi não ficou para trás e ganhou um programa dominical no período da tarde, chamado “A Turma do Didi”, exibido até 2010. Em 2017 houve uma tentativa de fazer a trupe voltar, dessa vez com Dedé Santana, Didi e outros atores que não estavam presentes no original — o projeto não vingou e, desde então, o comediante não atuava mais na TV.

A lista de filmes que Aragão estreou é tão extensa quanto sua carreira. Ao todo, foram 42 produções — entre elas “Ali Babá e os Quarenta Ladrões”, de 1972, “O Incrível Monstro Trapalhão”, de 1981 e “Simão, o Fantasma Trapalhão”, de 1998. Seu filme mais recente foi “Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood”, em 2017. “Já estou com novas oportunidades de trabalho e novos tempos que estão prestes a iniciar”, disse ele em uma postagem em seu perfil no Instagram. 

Outro ponto importante, como em muitas outras áreas das carreiras das pessoas, é o networking. “Com muitos anos de carreira, você provavelmente adquiriu uma relação interpessoal muito grande e você precisa estruturar um plano de como vai se apresentar, do que o mercado precisa e os motivadores que te levam para uma área. É díficil, mas é díficil se recolocar de qualquer maneira, mas facilita fazer um plano de ação factível”, diz.

Azevedoh conta que, por experiência própria, sair depois de muitos anos de uma companhia só se torna ainda mais complicado caso você queira trocar também de área — foi o que aconteceu com ela. Inicialmente gerente da América Latina de uma companhia por 26 anos, sua meta era chegar em um cargo na área de recursos humanos. Passou um tempo em uma consultoria de headhunting e, enfim, conseguiu o que tanto almejava. “Se você quiser trocar de carreira, pode ser um pouco mais complicado, mas nada é impossível, pode ser mais lento, mas você só precisa dar o primeiro passo”, explica.

Uma mudança de 360º na carreira foi o que aconteceu em 2019 com o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, formado em medicina, deixou a política para virar comentarista fixo no programa do Ronnie Von, na TV Gazeta, após anos em uma área específica.

Para ela, o importante, acima de tudo, é não desistir diante da primeira pedra que encontrar no caminho. “Os empecilhos são feitos para a gente olhar e ver uma forma de ultrapassá-los. Não desista. É só identificar o que você quer fazer — mas se quiser continuar com a carreira que tem, como o Renato Aragão, por exemplo , ele terá de procurar os veículos onde ele poderia colocar o que ele já tem de patrimônio”, diz.

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